sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

COM PERDÃO DA MÁ PALAVRA

Outro dia, me perguntaram qual era o meu estilo.
Fiquei em dúvida, não sabia se seria clean ou despojado.
Optei por nenhum estilo, dependia da ocasião.
Mas a pergunta era sobre o que escrevia. Se era cronica, contos, poesia, prosa.
E a resposta foi, exatamente, a mesma.
Sei lá eu classificar o que escrevo! Escrevo o que o santo pede: ficção, realidade, bobagem.
Não sou escritora por formação, não fiz nenhum curso de redação ou faculdade de letras.
Reconheço que meu português é medíocre: vocabulário limitado, ortografia sofrível, gramática capenga e por aí vai. Uso a acentuação pedindo perdão. Por isso, queria saber muito bem inglês, seria muito mais fácil escrever em um idioma sem tantas regras. Infelizmente, sou um desastre bilingue. 
Acontece que sou atrevida e me jogo no fogo.
Escrevo porque gosto, porque preciso despejar esse monte de palavras que se formam, diariamente, em minha cabeça.
Escrevo porque as letrinhas me convidam pra dançar e eu aceito.
Não tenho pudores em expor minhas limitações, nem medo de ser criticada.
Simplesmente, escrevo.
A outra pergunta era a quem eu queria atingir, qual público seria o meu alvo.
Parecia uma estratégia de guerra! Não sou míssil, sou mais bala perdida, livre atiradora.
Vou disparando meus garranchos e, se atingir alguém, esse é o público.
Não premedito, deixo o santo baixar, incorporo e a entidade se manifesta.
Embora adore lidar com as palavras, não tenho a mínima pretensão de ser "A ESCRITORA".
Não me acho tão especial, assim.
Nenhuma crítica a quem se dedica à escrita e faz disso sua missão, mas sou, simplesmente, o que Vargas Llosa diz de si mesmo, uma escrevinhadora. E olhe que, quem desmistificou o ato de escrever, foi o Prêmio Nobel de Literatura!
Escrevo pra botar ordem nas gavetas, desentulhar as prateleiras, abrir espaço no armário pra novas coleções de idéias.
Tenho a impressão que, se não escrevesse, me afogaria em letras, palavras, sufocaria em coisas não ditas, ou impossíveis de verbalizar, a não ser em forma de ficção.
Sou conversadeira, curiosa, interessada, mais ou menos informada. Gosto de livros, gosto muito de ler, sou compulsiva, leio, inclusive, obituários e classificados!
Bula de remédio é leitura obrigatória, em compensação, manual de instrução, não tenho a menor paciência.
Escrevo para manter a sanidade, para manter a loucura sob contrôle, embora saiba que a lucidez é uma loucura disfarçada.
Quando me sento pra escrever, me transporto para um outro lugar, só meu, onde posso derrubar meus muros, apesar de todas as limitações já descritas.
Meu mundo vira de cabeça pra baixo, minhas palavras fazem sentido, minha imaginação rompe a barragem e me sinto tão feliz em fazer o que gosto que não me importo se rirem ou não levarem a sério. Na verdade, não é para ser levada, mesmo.
Procuro brincar com a minha rabugice, com meu mau ou bom humor, nem sempre consigo.
Mas, se procuro alguma coisa ao escrever, seria isso: não carregar na dor, no pessimismo, virar o avesso das coisas e tentar enxergar a ironia, a brincadeira.
Não se trata de estilo, corrente, nicho, turma, seguidores, leitores, admiradores, toda essa estrutura que o escritor profissional precisa pra ser vendável.
Pra mim, escrever é soltar as feras, dançar nua, beber a vida, liberar a Pomba Gira, profanar o sagrado, virar cambalhota de saia e mostrar "as vergonhas".
Escrever me libera da obrigação que me imponho de ser reta na vida. Viro estrada sinuosa, tufão de sentimentos contraditórios, me dispo de convenções, mudo de figurino e paisagem quando quero, viajo na doidice, me encontro nas palavras.
No fim, acho que escrevo pra mim, sou meu público alvo.
Mas, se houver alguém que goste de ler o que escrevo, significa que não estou sòzinha nesse mundo de Deus, que tem mais uma pessoa, que seja, que entende o que quero dizer e se diverte, ou não, com minhas bobajadas.
Peço desculpas pelas mal traçadas linhas, mas me divirto à beça nesse espaço!
Vou continuar cometendo a heresia de despejar letras ao léu.
E que Deus me perdoe!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

DESCARREGO

Estou por um fio de cabelo. No limite, pronta pra camisa de força. Não tá dando pra aguentar.
Juro que tento, que faço cara de paisagem quando a pressão aperta, mas tá ficando difícil.
Sei que todo mundo tem problemas, eu mesma tenho um caminhão, mas não deveríamos lidar cada um com o seu e parar de descarregar o trem nas costas do outro?
Acho falta de educação, alguém cavar um buraco e empurrar os outros prá dentro. Não fui eu que cavei, meleca!
Ajuda não se nega, sou solidária, mas é preciso mostrar que se quer ajuda e não despejar seu peso enorme encima de quem está ao lado, no caso, eu.
Sou a rainha das ouvintes, me disponho, sempre, a buscar soluções que possam melhorar a aflição do outro mas, pera lá, resolver a vida de quem escolheu um caminho errado, não!
Não venha me responsabilizar pelos seus deslizes, né?
Nem queira cumplicidade nos atos que você, sòzinho, decidiu praticar.
Quer dizer que, quando você decide o que é certo e o que é errado, sabe o que está fazendo mas, quando, o que você achava certo, dá errado, eu tenho que segurar a peteca porque você tá desestabilizado?
Fácil, não? E cômodo!
Tenha vergonha na cara e arque com as consequências do que faz!
Não me convida pra festa mas quer que eu limpe o salão? Não vai acontecer!
Sou miúda, mas sou dura, mesmo. Vou morrer vara verde, envergo mas não quebro.
Tá pra nascer quem me tire a gana de me defender. 
E sei me proteger, bem demais, dos coitadinhos que tentam entrar na minha vida à força.
Fecho a porta na cara!
Não sou galinheiro pra me cobrir de penas!
Também queria que as soluções caíssem do céu, mas como sei que, de lá, só vem chuva e coco de passarinho, procuro saída em outro lugar.
Não vou deixar mais que você me afogue nessa canoa furada.
Tá querendo ajuda? Tô aqui. Tá querendo passar adiante o problema e ficar sentado esperando? Tá na posição certa, espere sentado!
Vou sair do seu radar pra ver se você sai da sua zona de conforto. Quem sabe, assim, você entenda, de uma vez por todas, que não sou sua rede de proteção.
Eu, também, de vez em quando, preciso de colo, procuro um ombro, aceito uma mão estendida, mas você é diferente, se atira no colo, pendura no ombro, agarra a mão e puxa o que vier junto.
Cansei de ser a sua viga mestra, seu suporte emocional, sua fortaleza. Você não aprende porque não quer, porque tem quem se penalize.
Vou te contar uma novidade: a vítima é sempre o mais forte, porque aprisiona, porque manipula, porque detém o poder de controlar o outro pela pena. Viu como aprendi? Você me ensinou.
Seu tiro, de hoje em diante, vai sair pela culatra.
Quero que você se dane, tô pouco me lixando. Não conte comigo pra recolher os pedaços da tua vida.  Se arrebentou a corda, foi porque você forçou além do limite.
Se, algum dia, tiver a coragem de assumir as consequências de seus atos, se levantar a cabeça e olhar de frente seus erros, se abrir o peito e se preparar pra luta, vou ser a primeira a estar ao seu lado.
Mas, por enquanto, preciso de paz, preciso recolher os caquinhos de mim que você espalhou, preciso abrir espaço pra que você cresça.
Não me queira mal quando digo que é para o seu bem. Mas se quiser me odiar, fique à vontade.
Vai facilitar a minha decisão.
Investi muito tempo da minha vida no seu erro, tá na hora de errar sozinha.
Mas não se preocupe, dos meus erros eu sempre cuidei, nunca tive ajuda.
E, como você foi, e é, o maior deles, dispenso sua participação na solução.
Tudo o que eu te desejo é que vá catar coquinho em outro terreno.
Vou cuidar da minha lavoura, que o tempo de plantar chegou, enfim, pra mim.
Vou regar meu jardim, tirar as ervas daninhas e esperar minha primavera chegar.
Se Deus quiser, sem você!
E, antes que eu me esqueça, quando sair apague a luz e jogue a chave no lixo porque vou mudar o segredo. Sua carga pesada eu resolvo com um bom defumador. Até!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SURTO

Engarrafamento é uma trapaça!
Ninguém consegue manter um mínimo de equilíbrio emocional, quando se vê nessa situação.
Eu, particularmente, tenho crises existenciais, fico me perguntando o que fiz pra  merecer essa armadilha do destino, como se fosse a única a sofrer com o caos. Ego agigantado ou mania de perseguição? Freud explica.
Dia desses, presa em um engarrafamento descomunal, me peguei pensando em quem seriam aquelas pessoas que estavam em seus carros, cometendo todo o tipo de infração, buscando uma saída para aquele inferno coletivo. Uns buzinavam, desesperadamente, como se, agindo assim, aquele mar de carros fosse se abrir e dar passagem, outros jogavam o carro pra direita e pra esquerda, colocando em risco os outros motoristas. Até que o trânsito parou de vez. Não andava nem um milímetro.
Desligamos, quase todos, o motor pra poupar combustível e pra dar uma mãozinha ao planeta, sabe como é, emissão de gases e tal. Alguns desceram de seus automóveis porque precisavam esticar as pernas, descarregar a tensão, xingar as autoridades.
Abaixei os vidros e fiquei contemplando aquela baderna de carros e pessoas, ouvindo a sinfonia da bagunça e maldizendo o beco sem saída em que estávamos.
Enquanto roía as unhas e mordia o canto interno da boca, pensava na correria em que vivemos, nos horários que nos controlam, na vida insana que escolhemos. Corremos tanto pra chegar a algum lugar e o destino nos obriga a dar essa parada, nos puxa o freio.
Sou uma pessoa inquieta e ativa, sinto culpa quando estou sem fazer nada. Penso no tempo que perco se ficar, por exemplo, na praia, tomando sol, fiscalizando a natureza. E ali, tinha que segurar a ansiedade e respirar fundo, várias vezes, pra tentar achar alguma calma. Exercício difícil pra uma maníaca compulsiva.
Comecei a falar com os meus botões:- Não adianta nada se aborrecer, o trânsito não vai fluir porque você está agoniada. Todo mundo está na mesma situação, segura tua onda que, uma hora, a gente anda. Respira, respira.
Os motoristas que saíram dos carros começaram a socializar, alguns riam, outros chutavam os pneus como se os coitados tivessem culpa. Borracha sofre!
Uma mulher, aparentando uns quarenta anos ( nessa época de botox e retoques, lidamos com a aparência ), abriu a porta de seu carro com violência e bateu no retrovisor do carro ao lado. Resultado: encrenca.
- Tá maluca, tia?
Era um garotão, no seu carrão, que foi logo mostrando o corpão, ameaçadoramente.
- Olha aqui, meu filho, desculpe, mas se eu fosse você, eu voltava pro carro quietinho.
- Acontece que eu sou eu e não sou seu filho.
- Lógico que não. Sou muito nova pra ser sua mãe.
- Nova? Vá sonhando!
Pronto, enfim uma briga pra animar o circo.
- Tá me chamando de velha, seu grosso?
- Tô te chamando de louca!
- Vem viver a minha vida pra entender!
- Olha aqui, eu estava dentro do meu carro, parado, quieto no meu canto e vem uma Maria qualquer e faz um estrago no retrovisor! Não é coisa de maluca?
- Primeiro não sou qualquer Maria, sou Maria da Glória, da GLÓRIA!, e estou vivendo um dia de cão!
- Não sou veterinário pra te acudir. Tá com problema com a humanidade, fica em casa. Quem é que vai pagar meu prejuízo?
- Bota na conta do vira lata do meu marido.
- Não sei quem é, nem quero saber. Vai passando os documentos e o seguro do carro.
- Passo nada. Vem pegar. Vou logo avisando que fiz curso de defesa pessoal e tô querendo matar um homem hoje.
Começou um empurra daqui, afasta de lá, motoristas tomando partido, motoristas tentando apartar e eu, ali, procurando entender o que estava acontecendo, ao mesmo tempo, não entendendo a dimensão que aquela briga estava tomando. O rapaz era muito forte e a mulher extremamente raivosa. Boa coisa não ia dar.
De repente a da GLÓRIA! da GLÓRIA!, começou a chorar, convulsivamente. A maquiagem dos olhos escorria pelo rosto, o batom ultrapassou o limite da boca, parecia o Coringa em lágrimas. Houve um momento de espanto, ninguém esperava o que estava por vir.
- Eu sou uma desgraçada! Uma mulher traída! Abandonada por um cafajeste, um safado, um homem como você! Fiz tudo o que ele queria, sofri as piores dores, cirurgias, academias, remocei, refiz tudo, da cara ao joelho, gastei o que não tinha pra agradar o canalha  pra, no fim, ele me trocar por outra Maria, pela Maria dos Prazeres, dos PRAZERES!
O mundo parou de girar, diante daquela explosão. 
Tudo o que ela tinha feito parecia que desmoronava, ali, na frente daqueles desconhecidos: o silicone, o botox, os implantes. Dava pena.
O garotão fortão abraçou a mulher e, como que embalando uma criança, dizia:- Não fica assim, Glorinha. Fica calma.
Os outros se afastaram e, boquiabertos, olhavam para aquela "Pietá" às avessas. Dava para cortar o silêncio com uma faca.
Apareceu um guarda, ninguém sabe de onde, e começou a botar ordem na zona.
O meninão saradão levou a da GLÓRIA! até o carro, fez um carinho em sua cabeça e entrou no seu carrão importado.
O trânsito começou a andar, lentamente, e eu, avançando em estado de choque, me repetia, como um mantra: a realidade supera a ficção, a realidade supera a ficção, a realidade.......

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LAÇOS

- Até que enfim! Pra que tanta bagagem? São só cinco dias!
- Oi, querida. Também estou feliz por te ver!
- Vamos, já estamos atrasadas!
- Calma, temos três horas pra pegar o avião.
- E o trânsito? Você não tem batedores pra abrir caminho!
- Relaxa, no final tudo dá certo.
- Entra no táxi, por favor.
- Ai, que bom que vamos, finalmente, sair juntas pelo mundo!
- Não exagera, vamos à outro estado, não é o mundo.
- Fora de casa, me sinto no mundo.
- Trouxe tudo? Não esqueceu nada?
- Acho que não, só vou saber quando der por falta.
- Passagem? Documentos? Remédios?
- Devem estar na mala.
- Na mala?! Tinham que estar na bolsa!
- Estão na bolsa, eu tô brincando!
- Ainda vou enfartar nessa viagem.
- Não vai, não. Eu vou cuidar de você.
- Você? É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha.
- Quer que eu faça uma massagem? Você tá muito tensa.
- Você me deixa tensa!
- Por que?
- Seu tempo é diferente do meu, você vai devagar.
- E vou ter pressa por que?
- Porque, às vezes, é necessário ter pressa.
- Quando?
- Sei lá, socorrer um doente, por exemplo, requer pressa.
- Quem tá doente?
- Você me entendeu.
- Minha querida, estamos saindo pra aproveitar um tempinho só nosso, sem relógio, sem obrigações, sem marido, sem casa, sem filhos, sem mercado, nadinha de nada.
- Como é que você faz?
- O que eu fiz agora?
- Como você desliga de tudo, assim, e entra em outro estágio?
- Fácil, aceito que não posso controlar tudo à minha volta. Já basta tentar controlar a minha vida e nem sempre consigo.
- Eu já estou preocupada com a bagunça que vou encontrar na volta.
- Amiga, não existe controle remoto pra pessoas, elas não ligam e desligam porque você quer.
- Eu sei. Mas me agonia saber que a casa não vai estar do meu jeito.
- Eu nem me preocupo, deixo que sintam a responsabilidade pela vida deles.
- Você sempre foi mais despreocupada.
- Por isso a gente se dá bem, você se preocupa por mim.
- Cômodo, né?
- Não, pelo contrário, é muito difícil manter a calma com você ao lado.
- Tá dizendo que eu atrapalho a sua vida?
- Tô dizendo que é difícil gostar de você.
- Gosta porque quer.
- Gosto mesmo, e você, queira ou não, não pode fazer nada. Foge ao seu controle.
- Olha aqui, quando chegarmos lá, não vai ficar de preguiça, olhando a paisagem, pegando todo o sol da praia.
- Claro que vou! Tô de férias!
- Então, você fica na praia e eu vou andar pela cidade.
- Tá vendo, você já planejou tudo, por que eu iria me preocupar?
- Eu te conheço, teu ritmo é devagar, quase parando.
- E por que eu iria acelerar? A vantagem de ter idade é poder ver o tempo passar.
- Já te ocorreu que a gente passa, também?
- E vai deixar de passar se eu viver correndo?
- Mas pode aproveitar mais coisas.
- Aproveitar como, se não me detiver em nada?
- Você fica vendo o por do sol até dez da noite!
- Eu fico meditando sobre a beleza dele, sobre como é bom estar viva e desfrutar do amanhecer, do anoitecer.
- Enquanto isso, o tempo vai passando e eu não vou ficando mais jovem.
- Mas não precisa ficar mais velha. Ih, você tá chata!
- Eu sou chata, você me conhece há quarenta anos, não tinha percebido isso?
- A gente percebe mas acha que , um dia, melhora.
- Bem, péssimas notícias, não melhorei.
- Melhorou, sim. Só precisa acreditar.
- Tá legal, simples assim.
- Você já se perguntou por que somos amigas, apesar de tudo?
- Porque somos, não tem explicação.
- Eu fico pensando que somos a representação do nosso signo.
- Lá vem o patchouli.
- Perfume à parte, já pensou sobre isso?
- Tenho mais o que pensar, não vou ficar pensando em Peixes.
- Qual é a representação? Dois peixinhos, nós, em sentido contrário.
- E?
- Vamos em direções opostas mas nunca nos separamos. Nadamos, cada uma para um lado diferente, mas juntas, sempre.
- Muito bonito mas pouco prático.
- Deixa a praticidade descansar um pouquinho. Respira e deixa o ar sair. Você prende tanto a respiração que nem percebe como é importante sentir.
- Graças a Deus, chegamos!
- Pronto, vamos lá!
- Desce logo que ainda temos que fazer o check in.
- Tô descendo, tô indo.
- Mais rápido, por favor.
- O mais rápido que posso.
- Antes de entrar, deixa eu te dizer uma coisa.
- Alguma reprimenda?
- Não.
- Puxão de orelha?
- Ouve!
- Diga.
- Eu tenho um pouquinho de medo de voar.
- Querida, vai dar tudo certo, eu seguro sua mão.
- Eu sei. Eu só queria que você soubesse que você é a pessoa mais constante na minha vida. Você, mal comparando, é meu cartão de fidelidade.
- Entendi o que você quer dizer, amiga. Saiba que eu, também, te amo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SOBRE A AMIZADE

Reunião anual dos amigos, esposas e agregados.
Muita comida, bebida, piscina e campeonato sub-65.
Cabelos grisalhos, algumas barrigas proeminentes e, principalmente, muita alegria.
- Pô, Betão, como é que você perdeu dois gols feitos?
- Acontece, né?
- Xandinho faria, não faria?
- Eu estava sem óculos, cara!
- Mas, Betão, tu nem chutou pra corner, deu lateral, LATERAL, longe pra burro das traves.
- EU ESTAVA SEM ÓCULOS!
- Então, joga de óculos.
-Piora. Com óculos, o suor e o calor embaçam as lentes. Aí é que eu não enxergo nada, mesmo.
- Tá, Serginho, e o Paulão? Engoliu seis frangos!
- Não sou goleiro. Só estava lá porque foi sorteio e ninguém quis trocar de posição comigo.
- Cara, tu é muito ruim, nem se esforçou.
- E tu acha que eu vou encarar penalti? Eu, não! Quando a bola bate na mão ou no peito, arde pra cacete.
- Mas, também, não precisava se agachar e ver a bola entrar.
- Fui amarrar as chuteiras e o Nei não esperou.
- Não esperei porque o juiz apitou. Você é que estava fora de posição.
- O Carlinhos nem corre e ninguém fala nada.
- Eu corro, sim. Só que meu ritmo é mais cadenciado, eu meio que deslizo.
- A idade tá pesando.
- Que idade, nada! Estamos é com peso na barriga, isso sim!
E brindam ao sobrepeso!
- Vem cá, João, responda a pergunta que não quer calar, como é que você consegue se manter em forma?
- Larguei a Marilda!
- Tá explicado.
- Eu estava pior que vocês todos juntos.
- Também não precisa desmoralizar!
- Sério, rapaz. Eu estava tão infeliz que nem me olhava mais.
- Agora, meu amigo, que você pulou fora, vou te contar um segredo da turma: nenhum de nós engolia aquela fera.
- A gente aceitava porque era tua mulher, a gente queria estar perto de você, então valia o sacrifício.
- Eu sei o que vocês faziam e agradeço a Deus por não terem se afastado de mim.
- Isso não íamos fazer, mesmo.
- Amigo não se encontra na esquina, tem que ter chão pra dizer que é amigo.
- Há quanto tempo somos amigos? Cinquenta anos, mais ou menos?
- Xandinho eu conheci na maternidade, minha mãe era amiga da mãe dele, herdei a parceria.
- E lamba os beiços, eu não sou de muitos amigos.
- E eu não sei? Só mesmo nós pra te aguentar.
- A maioria aqui é amigo de escola ou de rua.
- Então, temos que comemorar nossas bodas de ouro! Tim, tim!
E bebem mais uma cerveja.
- João, sem querer meter o bedelho, Como é que você aguentou tanto tempo?
- Sabe como é, né? Homem se acomoda, fui ficando.
- E quando é que deu o estalo?
- Sei lá, eu estava no carro, indo pra casa e, de repente, comecei a chorar.
- Chorar? Chegou nesse ponto?
- Paulão, eu nem sabia que estava chorando, só senti a cara ficando molhada.
- Rapaz, entendi, chegou no limite do insuportável.
- Aí parei o carro, liguei pra ela e disse que não voltava mais.
- E ela?
- Deu um escândalo, me chamou de tudo, disse que ia me tirar a roupa do corpo, que ia à polícia denunciar abandono de lar, aquelas coisas.
- E aí? O que você fez?
- Abandonei, ué? Ela jogou minhas roupas fora mas, antes, rasgou tudo. Fiquei com a roupa do corpo. Nu e aliviado. Nunca mais falei com ela, só através de advogado que, por sinal, me tirou o resto do couro.
- Você tá precisando de alguma coisa? Dinheiro, lugar pra ficar? A gente dá um jeito.
- Claro, pode contar conosco pra dar uma força.
- Recomeçar depois dos sessenta é difícil.
- Mas não impossível.
- Cara, tô orgulhoso de você.
- Porque coragem pra dar um pé na bunda na nossa idade...
- Acordei tarde mas acordei a tempo. E não tô precisando de nada, mas eu sabia que, se precisasse, tinha com quem contar.
- E vamos levantar os copos e dar três vivas ao nosso amigo!
E tome mais várias cervejas.
- Vou dizer uma coisa, vocês são muito importantes pra mim !
- Ih, Paulão tá bêbado!
- Tõ nada, Fernando! Tõ falando por todos nós, ou não?
- Tá, sim, irmão.
- Temos que celebrar, porque estamos juntos, porque temos esse compromisso de nos vermos, pelo menos, uma vez por ano.
- Isso é só a desculpa que a gente dá pra jogar pelada.
- A gente se vê sempre.
- Mas aqui a gente junta a família e todo mundo se diverte.
- Sei, não.
- O que você não sabe?
- Se as mulheres curtem como a gente.
- Também, não custa fazer um sacrificiozinho uma vez por ano.
- Isso aí! Não vão morrer por causa disso.
- A Marilda não vinha.
- Ainda bem, podia fazer escola com nossas mulheres, já pensou?
E se abraçam e entoam o grito de guerra... Eia , eia, eia, não quero mulher feia, xota, xota, xota, tristeza a gente enxota.
- Todo mundo achava que nós nos referíamos a outra coisa.
 E riem. E brincam.
- Vamos lá gente, vamos pro segundo tempo!
- Bota o Betão no gol!
- Que isso, tá ficando doido? Se êle não enxerga a trave que é larga pra caramba, vai enxergar a bola?
- Então, bota o Xandinho.
- Esse tá pra lá de Bagdá!
- Êle escolhe a bola que vai pegar, se a da direita ou a da esquerda.
- Paulão, ninguém vai mexer na escalação! O goleiro é você!
- Serginho, a gente vai perder de oitenta a zero!
- Vai lá e faz o teu!
- Serginho, eu tenho que te contar uma coisa.
- Que é, Paulão?
- Meu querido, se você ainda não reparou, eu sou anão!
- Detalhe, Paulão, mero detalhe.







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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

NO MEIO DO CAMINHO...

O que você vai ser quando crescer?
Futurólogo, médium vidente, Madame Claude, aquela que vê o futuro na bola de cristal!
Convenhamos....
Ninguém sabe o que vai ser , a pergunta deveria ser: o que você quer ser quando crescer?
Sonhamos com o possível e o impossível. Embora acredite que podemos ser o que quisermos, nem sempre é assim. Queremos ir para um lado, a vida puxa pra outro. Achamos que estamos no caminho certo e vem um trem e atropela o desejo. Procuramos dar os passos que vão nos levar ao objetivo traçado e tropeçamos naquela pedra no meio do caminho. Desviamos dos empecilhos e caímos em alguma armadilha. Nos preparamos para chegar ao destino, aí falta teto e o avião tem que descer em outro lugar.
Quando criança, eu queria ser diplomata e, também, ser colunista do "Consultório Sentimental" de alguma revista.
Não sabia o que um diplomata fazia mas queria ver o mundo e, como era de uma família de poucos recursos, seria o modo perfeito de viajar, teria emprego e dinheiro (salário) que me permitiriam conhecer outras paisagens.
O "Consultório Sentimental" das revistas era meu refúgio nas aulas de matemática. Odiava a matéria e sou, praticamente, uma desconhecida para os números e vice versa. Nos conhecemos superficialmente, nunca dei intimidade. Sei o básico e isso dá pra administrar minha ignorância.
Tenho consciência de que fugi de algo que poderia ter facilitado minha vida mas, na época, tudo que eu queria era que o tempo passasse logo e soasse a campainha, anunciando o término do suplício.
Como eu não tinha super poderes e não detinha o controle do tempo, mergulhava nas revistas e colava nas provas.
Tenho um pouco de vergonha de confessar que trapaceava, que atire a primeira pedra quem nunca fez isso! Até agora ninguém atirou.
Voltando a vaca fria, queria escrever respostas para aquela coluna. Algumas vezes inventava perguntas e mandava. Juro! Queria que me respondessem, mas antes eu escrevia em meu "Caderno Sentimental" (eu tinha, de verdade), as minhas respostas. E, também, as respostas que eu daria, caso fosse a titular.
Lembro que uma vez escrevi pedindo conselhos sobre um namorado que não existia. Perguntei à fulana o que deveria fazer pra que meu namorado fosse menos insistente, pra que ele esperasse um pouco mais pela "prova de amor".  Dizia que não me sentia segura do seu afeto, que tinha medo de ser abandonada, engravidar e desapontar meus pais, mas que sentia vontade de consumar o ato. 
Essas questões assombravam as meninas da minha geração, não riam. Naqueles anos dourados, tudo era proibido, então era um rala e rola, encosta e vira, era um horror de tesão reprimido e culpa, muita culpa.
Enfim...
Não é que um dia, em plena aula de... raiz quadrada? regra de três? cacete à quatro? sei lá, não estava lá mesmo, me deparo com a minha pergunta? Quase gritei na sala de aula! Consegui me conter e pedi pra ir ao banheiro ( você era obrigada a pedir e rezar pra que deixassem, e se houvesse mesmo necessidade e não permitissem, você seria uma séria candidata a ter problemas na bexiga ou na imagem, porque faria xixi nas saias pregueadas). Permissão dada, sai correndo e me tranquei no "reservado".
-"Querida amiga.
Fico feliz que tenha me escrito em busca de ajuda, isso significa que você, ainda, não cruzou a fronteira que separa o certo do errado. (Como assim, senhora? Tem fronteira delimitada? Onde fica um e onde fica o outro?). Nós, mulheres, temos que ser fortes e resistirmos aos ataques à nossa integridade. (Será que ela estava se referindo ao hímen?) Hoje em dia, os homens vivem nos testando, querendo saber se somos aquelas que eles escolheriam para mãe de seus filhos. (O que tem a ver o c... com as calças?) Não caia nessa conversa, resista à tentação e procure alguém que seja digno do seu amor, que saiba esperar e que respeite seu corpo, sua honra. Acredite, ele existe e você vai encontrá-lo". E blá blá blá e tal........
Confesso que fiquei desapontada, esperava que ela me dissesse que eu deveria fazer o que meu coração pedisse e o que meu corpo desejasse. Entendia que eram outros tempos, outra  moral (hipócrita), mas não era o que nós, aquela geração, queríamos.
Acho que já tínhamos a semente da revolução sexual germinando e, decididamente, aquela resposta tinha sido escrita pela minha mãe que não queria me ver dando pela vida e, pior, ter que lidar com a filha "perdida". E eu tinha uns treze anos!
Voltei pra sala de aula e procurei no "Caderno" a resposta que me dei.
Eu sabia o que tinha escrito, só queria confirmar que as revistas jamais me dariam emprego, a "família tradicional" faria um escândalo! Pediriam minha cabeça em praça pública! E a diplomacia tupiniquim não admitiria uma funcionária tão curta e grossa. 
A resposta acabou com o meu futuro, com o que eu queria ser quando crescesse, forçou meu pouso.
Recolhi meus flaps e mudei a trajetória. Pedras no caminho...
"Querida amiga.
Pare de frescura!
Ou dá, ou desce!"

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FESTA LIBERADA

Tá ficando difícil existir depois dos 60!
Por favor, acompanhe meu raciocínio.
Nascemos, como todo mundo, batalhamos, como todos, criamos filhos, ou não, fazemos carreira, encaramos dupla jornada, casa e trabalho (determinadas vezes no mesmo local), pagamos taxas e impostos e, quando nos aposentamos, achamos que vamos usufruir do que plantamos. Aí a porca torce o rabo!
Somos cobradas pelo tempo que temos de sobra. Filhos querem que nos tornemos babás de seus rebentos. Nada contra, uma vez ou outra, mas em tempo integral, peraí, né? Quem pariu Mateus que o embale! A casa vira creche e o santo sossego vai pro espaço. Por que casa de avó tem que estar aberta sempre? Onde está escrito? Assinamos esse contrato?
Não tivemos essa facilidade (eu, pelo menos, não tive) e ninguém morreu por causa disso. Planejávamos o dia em função das obrigações e, se tivéssemos espaço, incluíamos diversão.
Agora, não. Se você é idosa (argh), automaticamente, você é uma desocupada. Então, vamos ocupar o tempo livre da coitada pra não dar chance à depressão. Sofro disso, não! 
Devagar com o andor! Sou santa de barro!
Meu tempo, disponível ou não, me pertence, conquistei esse direito!
Se existe marido e se, pior dos mundos, também está aposentado, aí o bicho pega!
A tal cara metade, por não ter vontade de fazer mais nada na vida, resolve te alugar um quarto no hospício. Te enlouquece dentro de casa.
-"Meu bem, me dá um café, um copo d'água, o jornal, a meia, a vida!" 
Tem perna, não? E o que foi feito dos dois bracinhos? Perdeu a capacidade de se movimentar? Não ganho pra isso!
Brigamos por direitos iguais, por emancipação, queimamos soutien em praça pública, abrimos caminho para as mulheres que vieram depois e, na bendita meia idade, ainda temos que brigar pra respeitarem nosso espaço? Comigo não, violão!
Sei ser macho quando é preciso, dou cotovelada, chuto canelas e vou passando. Mas é desgastante. Ter que marcar território pra não permitir invasão, é dose!
Não gramei na vida pra ser governanta de luxo.
Se quero viajar sòzinha é um Deus nos acuda! Na minha idade?! Vou ficar exposta aos piores perigos da vida, vão se aproveitar de mim, vão me enganar, roubar. Não estou senil, sempre cuidei de mim e dos outros, então qual o problema?
-"Mas vai aproveitar o que se vai estar só?"
E eu preciso de companhia pra me divertir? EU me faço muito boa companhia, além de gostar de ficar só.
Perdemos visibilidade, somos o apêndice, a mãe, a esposa, a companheira, deixamos de ser uma pessoa, viramos uma entidade. 
Desencosta, me deixa em paz!
Enquanto tiver capacidade motora e intelectual, tô na pista!
Que mania de determinar o que podemos ou não, de controlar nossos desejos, de dirigir nossas vidas!
Vai procurar uma louça pra lavar, uma faxina, uma ocupação!
Temos curiosidade, disposição, tempo livre e sempre tem um piolho prá embaçar.
Homem, então, é batata!
Como envelhecem mal!
Se têm companheiras, desaprendem de fazer até a barba, se largam e querem que viremos acompanhantes. Sugam nosso prazer e quase que nos obrigam a viver a vidinha modorrenta deles.
Tem as que se entregam e tem as que se rebelam. Já sabem à qual grupo pertenço, né?
Não escorrego nessa casca de banana, nem por um decreto!
E tem os disponíveis, para as menores de trinta!
Sem chance de uma mulher madura atrair a atenção de um homem da mesma idade ou mais.
Esses vão atrás de jovens, em busca da fonte da juventude. Acreditam, ou se deixam enganar, que são páreo pra homens mais jovens! Exibem essas garotas como troféus! Mas seus baratos saem caréssimos e só se dão conta quando elas mudam de paizinho.
Já nós, se saimos com um homem mais jovem, vixe, o céu vem  abaixo.
Como pode uma velha com um menino? Deve estar bancando os luxos do garotão!
Quer dizer que, se fosse assim, eles podem e nós não?
Ah, dá um tempo!
Se pudermos bancar e aproveitar, por que nâo?
Só não vale nos iludirmos, eles estão trocando benefícios conosco.
É toma lá dá cá. E libere a festa!
Tenho 61 anos, corpinho de 59, saúde de ferro, cabeça boa e aberta, raciocínio em dia e muita vontade de viver.
Não cobro, não freio a vida de ninguém, não empaco, não peço nada além de me deixarem aproveitar o ar que respiro e que tentam cortar.
Pode ser que nada mais aconteça em minha vida que mude meu rumo, mas o que vier , eu traço.