terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LAÇOS

- Até que enfim! Pra que tanta bagagem? São só cinco dias!
- Oi, querida. Também estou feliz por te ver!
- Vamos, já estamos atrasadas!
- Calma, temos três horas pra pegar o avião.
- E o trânsito? Você não tem batedores pra abrir caminho!
- Relaxa, no final tudo dá certo.
- Entra no táxi, por favor.
- Ai, que bom que vamos, finalmente, sair juntas pelo mundo!
- Não exagera, vamos à outro estado, não é o mundo.
- Fora de casa, me sinto no mundo.
- Trouxe tudo? Não esqueceu nada?
- Acho que não, só vou saber quando der por falta.
- Passagem? Documentos? Remédios?
- Devem estar na mala.
- Na mala?! Tinham que estar na bolsa!
- Estão na bolsa, eu tô brincando!
- Ainda vou enfartar nessa viagem.
- Não vai, não. Eu vou cuidar de você.
- Você? É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha.
- Quer que eu faça uma massagem? Você tá muito tensa.
- Você me deixa tensa!
- Por que?
- Seu tempo é diferente do meu, você vai devagar.
- E vou ter pressa por que?
- Porque, às vezes, é necessário ter pressa.
- Quando?
- Sei lá, socorrer um doente, por exemplo, requer pressa.
- Quem tá doente?
- Você me entendeu.
- Minha querida, estamos saindo pra aproveitar um tempinho só nosso, sem relógio, sem obrigações, sem marido, sem casa, sem filhos, sem mercado, nadinha de nada.
- Como é que você faz?
- O que eu fiz agora?
- Como você desliga de tudo, assim, e entra em outro estágio?
- Fácil, aceito que não posso controlar tudo à minha volta. Já basta tentar controlar a minha vida e nem sempre consigo.
- Eu já estou preocupada com a bagunça que vou encontrar na volta.
- Amiga, não existe controle remoto pra pessoas, elas não ligam e desligam porque você quer.
- Eu sei. Mas me agonia saber que a casa não vai estar do meu jeito.
- Eu nem me preocupo, deixo que sintam a responsabilidade pela vida deles.
- Você sempre foi mais despreocupada.
- Por isso a gente se dá bem, você se preocupa por mim.
- Cômodo, né?
- Não, pelo contrário, é muito difícil manter a calma com você ao lado.
- Tá dizendo que eu atrapalho a sua vida?
- Tô dizendo que é difícil gostar de você.
- Gosta porque quer.
- Gosto mesmo, e você, queira ou não, não pode fazer nada. Foge ao seu controle.
- Olha aqui, quando chegarmos lá, não vai ficar de preguiça, olhando a paisagem, pegando todo o sol da praia.
- Claro que vou! Tô de férias!
- Então, você fica na praia e eu vou andar pela cidade.
- Tá vendo, você já planejou tudo, por que eu iria me preocupar?
- Eu te conheço, teu ritmo é devagar, quase parando.
- E por que eu iria acelerar? A vantagem de ter idade é poder ver o tempo passar.
- Já te ocorreu que a gente passa, também?
- E vai deixar de passar se eu viver correndo?
- Mas pode aproveitar mais coisas.
- Aproveitar como, se não me detiver em nada?
- Você fica vendo o por do sol até dez da noite!
- Eu fico meditando sobre a beleza dele, sobre como é bom estar viva e desfrutar do amanhecer, do anoitecer.
- Enquanto isso, o tempo vai passando e eu não vou ficando mais jovem.
- Mas não precisa ficar mais velha. Ih, você tá chata!
- Eu sou chata, você me conhece há quarenta anos, não tinha percebido isso?
- A gente percebe mas acha que , um dia, melhora.
- Bem, péssimas notícias, não melhorei.
- Melhorou, sim. Só precisa acreditar.
- Tá legal, simples assim.
- Você já se perguntou por que somos amigas, apesar de tudo?
- Porque somos, não tem explicação.
- Eu fico pensando que somos a representação do nosso signo.
- Lá vem o patchouli.
- Perfume à parte, já pensou sobre isso?
- Tenho mais o que pensar, não vou ficar pensando em Peixes.
- Qual é a representação? Dois peixinhos, nós, em sentido contrário.
- E?
- Vamos em direções opostas mas nunca nos separamos. Nadamos, cada uma para um lado diferente, mas juntas, sempre.
- Muito bonito mas pouco prático.
- Deixa a praticidade descansar um pouquinho. Respira e deixa o ar sair. Você prende tanto a respiração que nem percebe como é importante sentir.
- Graças a Deus, chegamos!
- Pronto, vamos lá!
- Desce logo que ainda temos que fazer o check in.
- Tô descendo, tô indo.
- Mais rápido, por favor.
- O mais rápido que posso.
- Antes de entrar, deixa eu te dizer uma coisa.
- Alguma reprimenda?
- Não.
- Puxão de orelha?
- Ouve!
- Diga.
- Eu tenho um pouquinho de medo de voar.
- Querida, vai dar tudo certo, eu seguro sua mão.
- Eu sei. Eu só queria que você soubesse que você é a pessoa mais constante na minha vida. Você, mal comparando, é meu cartão de fidelidade.
- Entendi o que você quer dizer, amiga. Saiba que eu, também, te amo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SOBRE A AMIZADE

Reunião anual dos amigos, esposas e agregados.
Muita comida, bebida, piscina e campeonato sub-65.
Cabelos grisalhos, algumas barrigas proeminentes e, principalmente, muita alegria.
- Pô, Betão, como é que você perdeu dois gols feitos?
- Acontece, né?
- Xandinho faria, não faria?
- Eu estava sem óculos, cara!
- Mas, Betão, tu nem chutou pra corner, deu lateral, LATERAL, longe pra burro das traves.
- EU ESTAVA SEM ÓCULOS!
- Então, joga de óculos.
-Piora. Com óculos, o suor e o calor embaçam as lentes. Aí é que eu não enxergo nada, mesmo.
- Tá, Serginho, e o Paulão? Engoliu seis frangos!
- Não sou goleiro. Só estava lá porque foi sorteio e ninguém quis trocar de posição comigo.
- Cara, tu é muito ruim, nem se esforçou.
- E tu acha que eu vou encarar penalti? Eu, não! Quando a bola bate na mão ou no peito, arde pra cacete.
- Mas, também, não precisava se agachar e ver a bola entrar.
- Fui amarrar as chuteiras e o Nei não esperou.
- Não esperei porque o juiz apitou. Você é que estava fora de posição.
- O Carlinhos nem corre e ninguém fala nada.
- Eu corro, sim. Só que meu ritmo é mais cadenciado, eu meio que deslizo.
- A idade tá pesando.
- Que idade, nada! Estamos é com peso na barriga, isso sim!
E brindam ao sobrepeso!
- Vem cá, João, responda a pergunta que não quer calar, como é que você consegue se manter em forma?
- Larguei a Marilda!
- Tá explicado.
- Eu estava pior que vocês todos juntos.
- Também não precisa desmoralizar!
- Sério, rapaz. Eu estava tão infeliz que nem me olhava mais.
- Agora, meu amigo, que você pulou fora, vou te contar um segredo da turma: nenhum de nós engolia aquela fera.
- A gente aceitava porque era tua mulher, a gente queria estar perto de você, então valia o sacrifício.
- Eu sei o que vocês faziam e agradeço a Deus por não terem se afastado de mim.
- Isso não íamos fazer, mesmo.
- Amigo não se encontra na esquina, tem que ter chão pra dizer que é amigo.
- Há quanto tempo somos amigos? Cinquenta anos, mais ou menos?
- Xandinho eu conheci na maternidade, minha mãe era amiga da mãe dele, herdei a parceria.
- E lamba os beiços, eu não sou de muitos amigos.
- E eu não sei? Só mesmo nós pra te aguentar.
- A maioria aqui é amigo de escola ou de rua.
- Então, temos que comemorar nossas bodas de ouro! Tim, tim!
E bebem mais uma cerveja.
- João, sem querer meter o bedelho, Como é que você aguentou tanto tempo?
- Sabe como é, né? Homem se acomoda, fui ficando.
- E quando é que deu o estalo?
- Sei lá, eu estava no carro, indo pra casa e, de repente, comecei a chorar.
- Chorar? Chegou nesse ponto?
- Paulão, eu nem sabia que estava chorando, só senti a cara ficando molhada.
- Rapaz, entendi, chegou no limite do insuportável.
- Aí parei o carro, liguei pra ela e disse que não voltava mais.
- E ela?
- Deu um escândalo, me chamou de tudo, disse que ia me tirar a roupa do corpo, que ia à polícia denunciar abandono de lar, aquelas coisas.
- E aí? O que você fez?
- Abandonei, ué? Ela jogou minhas roupas fora mas, antes, rasgou tudo. Fiquei com a roupa do corpo. Nu e aliviado. Nunca mais falei com ela, só através de advogado que, por sinal, me tirou o resto do couro.
- Você tá precisando de alguma coisa? Dinheiro, lugar pra ficar? A gente dá um jeito.
- Claro, pode contar conosco pra dar uma força.
- Recomeçar depois dos sessenta é difícil.
- Mas não impossível.
- Cara, tô orgulhoso de você.
- Porque coragem pra dar um pé na bunda na nossa idade...
- Acordei tarde mas acordei a tempo. E não tô precisando de nada, mas eu sabia que, se precisasse, tinha com quem contar.
- E vamos levantar os copos e dar três vivas ao nosso amigo!
E tome mais várias cervejas.
- Vou dizer uma coisa, vocês são muito importantes pra mim !
- Ih, Paulão tá bêbado!
- Tõ nada, Fernando! Tõ falando por todos nós, ou não?
- Tá, sim, irmão.
- Temos que celebrar, porque estamos juntos, porque temos esse compromisso de nos vermos, pelo menos, uma vez por ano.
- Isso é só a desculpa que a gente dá pra jogar pelada.
- A gente se vê sempre.
- Mas aqui a gente junta a família e todo mundo se diverte.
- Sei, não.
- O que você não sabe?
- Se as mulheres curtem como a gente.
- Também, não custa fazer um sacrificiozinho uma vez por ano.
- Isso aí! Não vão morrer por causa disso.
- A Marilda não vinha.
- Ainda bem, podia fazer escola com nossas mulheres, já pensou?
E se abraçam e entoam o grito de guerra... Eia , eia, eia, não quero mulher feia, xota, xota, xota, tristeza a gente enxota.
- Todo mundo achava que nós nos referíamos a outra coisa.
 E riem. E brincam.
- Vamos lá gente, vamos pro segundo tempo!
- Bota o Betão no gol!
- Que isso, tá ficando doido? Se êle não enxerga a trave que é larga pra caramba, vai enxergar a bola?
- Então, bota o Xandinho.
- Esse tá pra lá de Bagdá!
- Êle escolhe a bola que vai pegar, se a da direita ou a da esquerda.
- Paulão, ninguém vai mexer na escalação! O goleiro é você!
- Serginho, a gente vai perder de oitenta a zero!
- Vai lá e faz o teu!
- Serginho, eu tenho que te contar uma coisa.
- Que é, Paulão?
- Meu querido, se você ainda não reparou, eu sou anão!
- Detalhe, Paulão, mero detalhe.







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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

NO MEIO DO CAMINHO...

O que você vai ser quando crescer?
Futurólogo, médium vidente, Madame Claude, aquela que vê o futuro na bola de cristal!
Convenhamos....
Ninguém sabe o que vai ser , a pergunta deveria ser: o que você quer ser quando crescer?
Sonhamos com o possível e o impossível. Embora acredite que podemos ser o que quisermos, nem sempre é assim. Queremos ir para um lado, a vida puxa pra outro. Achamos que estamos no caminho certo e vem um trem e atropela o desejo. Procuramos dar os passos que vão nos levar ao objetivo traçado e tropeçamos naquela pedra no meio do caminho. Desviamos dos empecilhos e caímos em alguma armadilha. Nos preparamos para chegar ao destino, aí falta teto e o avião tem que descer em outro lugar.
Quando criança, eu queria ser diplomata e, também, ser colunista do "Consultório Sentimental" de alguma revista.
Não sabia o que um diplomata fazia mas queria ver o mundo e, como era de uma família de poucos recursos, seria o modo perfeito de viajar, teria emprego e dinheiro (salário) que me permitiriam conhecer outras paisagens.
O "Consultório Sentimental" das revistas era meu refúgio nas aulas de matemática. Odiava a matéria e sou, praticamente, uma desconhecida para os números e vice versa. Nos conhecemos superficialmente, nunca dei intimidade. Sei o básico e isso dá pra administrar minha ignorância.
Tenho consciência de que fugi de algo que poderia ter facilitado minha vida mas, na época, tudo que eu queria era que o tempo passasse logo e soasse a campainha, anunciando o término do suplício.
Como eu não tinha super poderes e não detinha o controle do tempo, mergulhava nas revistas e colava nas provas.
Tenho um pouco de vergonha de confessar que trapaceava, que atire a primeira pedra quem nunca fez isso! Até agora ninguém atirou.
Voltando a vaca fria, queria escrever respostas para aquela coluna. Algumas vezes inventava perguntas e mandava. Juro! Queria que me respondessem, mas antes eu escrevia em meu "Caderno Sentimental" (eu tinha, de verdade), as minhas respostas. E, também, as respostas que eu daria, caso fosse a titular.
Lembro que uma vez escrevi pedindo conselhos sobre um namorado que não existia. Perguntei à fulana o que deveria fazer pra que meu namorado fosse menos insistente, pra que ele esperasse um pouco mais pela "prova de amor".  Dizia que não me sentia segura do seu afeto, que tinha medo de ser abandonada, engravidar e desapontar meus pais, mas que sentia vontade de consumar o ato. 
Essas questões assombravam as meninas da minha geração, não riam. Naqueles anos dourados, tudo era proibido, então era um rala e rola, encosta e vira, era um horror de tesão reprimido e culpa, muita culpa.
Enfim...
Não é que um dia, em plena aula de... raiz quadrada? regra de três? cacete à quatro? sei lá, não estava lá mesmo, me deparo com a minha pergunta? Quase gritei na sala de aula! Consegui me conter e pedi pra ir ao banheiro ( você era obrigada a pedir e rezar pra que deixassem, e se houvesse mesmo necessidade e não permitissem, você seria uma séria candidata a ter problemas na bexiga ou na imagem, porque faria xixi nas saias pregueadas). Permissão dada, sai correndo e me tranquei no "reservado".
-"Querida amiga.
Fico feliz que tenha me escrito em busca de ajuda, isso significa que você, ainda, não cruzou a fronteira que separa o certo do errado. (Como assim, senhora? Tem fronteira delimitada? Onde fica um e onde fica o outro?). Nós, mulheres, temos que ser fortes e resistirmos aos ataques à nossa integridade. (Será que ela estava se referindo ao hímen?) Hoje em dia, os homens vivem nos testando, querendo saber se somos aquelas que eles escolheriam para mãe de seus filhos. (O que tem a ver o c... com as calças?) Não caia nessa conversa, resista à tentação e procure alguém que seja digno do seu amor, que saiba esperar e que respeite seu corpo, sua honra. Acredite, ele existe e você vai encontrá-lo". E blá blá blá e tal........
Confesso que fiquei desapontada, esperava que ela me dissesse que eu deveria fazer o que meu coração pedisse e o que meu corpo desejasse. Entendia que eram outros tempos, outra  moral (hipócrita), mas não era o que nós, aquela geração, queríamos.
Acho que já tínhamos a semente da revolução sexual germinando e, decididamente, aquela resposta tinha sido escrita pela minha mãe que não queria me ver dando pela vida e, pior, ter que lidar com a filha "perdida". E eu tinha uns treze anos!
Voltei pra sala de aula e procurei no "Caderno" a resposta que me dei.
Eu sabia o que tinha escrito, só queria confirmar que as revistas jamais me dariam emprego, a "família tradicional" faria um escândalo! Pediriam minha cabeça em praça pública! E a diplomacia tupiniquim não admitiria uma funcionária tão curta e grossa. 
A resposta acabou com o meu futuro, com o que eu queria ser quando crescesse, forçou meu pouso.
Recolhi meus flaps e mudei a trajetória. Pedras no caminho...
"Querida amiga.
Pare de frescura!
Ou dá, ou desce!"

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FESTA LIBERADA

Tá ficando difícil existir depois dos 60!
Por favor, acompanhe meu raciocínio.
Nascemos, como todo mundo, batalhamos, como todos, criamos filhos, ou não, fazemos carreira, encaramos dupla jornada, casa e trabalho (determinadas vezes no mesmo local), pagamos taxas e impostos e, quando nos aposentamos, achamos que vamos usufruir do que plantamos. Aí a porca torce o rabo!
Somos cobradas pelo tempo que temos de sobra. Filhos querem que nos tornemos babás de seus rebentos. Nada contra, uma vez ou outra, mas em tempo integral, peraí, né? Quem pariu Mateus que o embale! A casa vira creche e o santo sossego vai pro espaço. Por que casa de avó tem que estar aberta sempre? Onde está escrito? Assinamos esse contrato?
Não tivemos essa facilidade (eu, pelo menos, não tive) e ninguém morreu por causa disso. Planejávamos o dia em função das obrigações e, se tivéssemos espaço, incluíamos diversão.
Agora, não. Se você é idosa (argh), automaticamente, você é uma desocupada. Então, vamos ocupar o tempo livre da coitada pra não dar chance à depressão. Sofro disso, não! 
Devagar com o andor! Sou santa de barro!
Meu tempo, disponível ou não, me pertence, conquistei esse direito!
Se existe marido e se, pior dos mundos, também está aposentado, aí o bicho pega!
A tal cara metade, por não ter vontade de fazer mais nada na vida, resolve te alugar um quarto no hospício. Te enlouquece dentro de casa.
-"Meu bem, me dá um café, um copo d'água, o jornal, a meia, a vida!" 
Tem perna, não? E o que foi feito dos dois bracinhos? Perdeu a capacidade de se movimentar? Não ganho pra isso!
Brigamos por direitos iguais, por emancipação, queimamos soutien em praça pública, abrimos caminho para as mulheres que vieram depois e, na bendita meia idade, ainda temos que brigar pra respeitarem nosso espaço? Comigo não, violão!
Sei ser macho quando é preciso, dou cotovelada, chuto canelas e vou passando. Mas é desgastante. Ter que marcar território pra não permitir invasão, é dose!
Não gramei na vida pra ser governanta de luxo.
Se quero viajar sòzinha é um Deus nos acuda! Na minha idade?! Vou ficar exposta aos piores perigos da vida, vão se aproveitar de mim, vão me enganar, roubar. Não estou senil, sempre cuidei de mim e dos outros, então qual o problema?
-"Mas vai aproveitar o que se vai estar só?"
E eu preciso de companhia pra me divertir? EU me faço muito boa companhia, além de gostar de ficar só.
Perdemos visibilidade, somos o apêndice, a mãe, a esposa, a companheira, deixamos de ser uma pessoa, viramos uma entidade. 
Desencosta, me deixa em paz!
Enquanto tiver capacidade motora e intelectual, tô na pista!
Que mania de determinar o que podemos ou não, de controlar nossos desejos, de dirigir nossas vidas!
Vai procurar uma louça pra lavar, uma faxina, uma ocupação!
Temos curiosidade, disposição, tempo livre e sempre tem um piolho prá embaçar.
Homem, então, é batata!
Como envelhecem mal!
Se têm companheiras, desaprendem de fazer até a barba, se largam e querem que viremos acompanhantes. Sugam nosso prazer e quase que nos obrigam a viver a vidinha modorrenta deles.
Tem as que se entregam e tem as que se rebelam. Já sabem à qual grupo pertenço, né?
Não escorrego nessa casca de banana, nem por um decreto!
E tem os disponíveis, para as menores de trinta!
Sem chance de uma mulher madura atrair a atenção de um homem da mesma idade ou mais.
Esses vão atrás de jovens, em busca da fonte da juventude. Acreditam, ou se deixam enganar, que são páreo pra homens mais jovens! Exibem essas garotas como troféus! Mas seus baratos saem caréssimos e só se dão conta quando elas mudam de paizinho.
Já nós, se saimos com um homem mais jovem, vixe, o céu vem  abaixo.
Como pode uma velha com um menino? Deve estar bancando os luxos do garotão!
Quer dizer que, se fosse assim, eles podem e nós não?
Ah, dá um tempo!
Se pudermos bancar e aproveitar, por que nâo?
Só não vale nos iludirmos, eles estão trocando benefícios conosco.
É toma lá dá cá. E libere a festa!
Tenho 61 anos, corpinho de 59, saúde de ferro, cabeça boa e aberta, raciocínio em dia e muita vontade de viver.
Não cobro, não freio a vida de ninguém, não empaco, não peço nada além de me deixarem aproveitar o ar que respiro e que tentam cortar.
Pode ser que nada mais aconteça em minha vida que mude meu rumo, mas o que vier , eu traço.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

EMPREGO VITALÍCIO

Acreditava na fórmula mágica.
Quando acontecia de as minhas meninas fazerem besteira, eu começava a contar, só isso.
Um, dois, e elas paravam na hora. Nunca cheguei ao três.
Eu dizia que elas não iam gostar se eu chegasse lá e elas jamais pagaram pra ver.
Se pagassem, eu não saberia o que fazer, não tinha um plano.
Até hoje, não sei qual castigo seria aquele que eu prometia. Mas funcionava e eu usava como se prometesse a antesala do inferno.
Não costumava dar palmadas, embora não tenha nada contra (que o governo me perdoe mas, de vez em quando, é preciso), porque minha mão inchava e quem merecia era uma delas e não eu!
De qualquer forma, era uma maneira de dar limite e ser respeitada.
Os psiqualquercoisa, têm muita teoria mas, é conceito universal, filhos muitíssimo problemáticos. Conheço, pelo menos, 35.672 deles.
Educar é o ó. Dá um trabalhão, é uma estiva diária, um desgaste insano, mas não dá pra delegar.
Tinha uma amiga que dizia ter pena das minhas filhas, que elas eram reprimidas!
Como ela não apitava nada com as crianças dela, que eram uns demônios, tomei aquilo como elogio.
Ela confundia repressão com limite e educação com interferência na personalidade.
Sempre respeitei a personalidade de cada uma, mas, ô pessoa, eu sou a mãe delas e não amiguinha! Meu ofício, como mãe, é ensinar, educar, orientar, dar régua e compasso, o desenho é delas.
E uso o verbo no presente porque SOU mãe. Assim como não existe ex filho, não existe ex mãe.
É tarefa pra toda a vida!
E, cá prá nós, pinto pia, tem que crescer prá cacarejar.
Antiguidade é posto, nasci primeiro e fim de papo!
Aqui em casa é pura democracia mas minha palavra é lei! Sou o Supremo Tribunal da casa e quem quiser que me aceite!
Se eu não botar um mínimo de ordem no galinheiro, raposa vem  e se farta!
Qual é!
Pitaco não aceito, macaco olha teu rabo! Ditar regra na casa dos outros é fácil, quero ver ser macho no seu terreiro!
Confesso que tive dias de desânimo, vontade de chutar o balde e fosse o que Deus quisesse, mas, nesses momentos, eu fazia a contagem prá mim mesma, me dizia:-" no três vai passar". Por vezes contava até 5.000, mas de três em três, e passava.
Há que se ter força e coragem prá encarar, diariamente. o desafio. É uma maratona eterna!
Sei que não vou conseguir a medalha olímpica porque cada dia é uma nova modalidade, não há tempo prá treinar, um dia é 100 metros rasos, no outro levantamento de peso, e por aí vai.
Não dá prá escolher o que fazer, faz-se!
Li, não lembro onde, que a boa mãe é aquela que não é mais necessária. Até entendo o conceito mas não concordo.
Compreendo que o filho assimilou o que lhe foi ensinado por atos ou palavras, firmou-se em suas bases e ganhou o mundo.
Mas quero crer que serei, sempre, o porto seguro, o cais, o aeroporto, o estacionamento, a vaga, o que quiserem!
Agora, quem precisa sou eu.
Preciso do conforto, da mensagem muda do olhar. de saber que o que eu plantei está sendo colhido com prazer. Saber que o que foi feito, e que continua em andamento, é obra de uma vida.
Filho é responsabilidade escolhida, optou-se por tê-lo.
Não planejei ser mãe e descobri minha vocação.
Adoro meu trabalho e é emprego prá vida toda, nunca vou me aposentar!
Recebo mais do que esperava, sou paga todos os dias com o que dinheiro algum pode dar.
Filhos criados, trabalho dobrado! Mentira! O trabalho é quintuplicado. As vidas se desdobram em mil interesses, o universo expande, não é mais casa, escola, curso, tudo que se pode controlar. A vida abre o leque e os problemas. Mas confio na estrutura que cimentei. Acredito nelas e na educação que dei. Tenho trabalho mas, também, recompensa.
Estou sempre disponível prá ajudar, quando chamada. Não resolvo por elas, não encaminho mais.
Lancei a seta, o alvo elas escolhem.
Confio em que criei pessoas que convivem com o certo e o errado e sabem a diferença.
Continuo contando até dois, porque não saberia o que fazer no três. Talvez, por nunca ter chegado lá.
Mãe é assim mesmo, não tem bússola, plano de vôo, não se orienta por estrelas.
Mãe vai mudando de rumo, não traça meta.
Filho não tem bula ou manual de instrução.
Mãe aprende no escuro e tenta iluminar o caminho.
Filho tenta trapacear, escorregar, fugir.
Mâe, às vezes, atrapalha, chantageia.
Filho, às vezes, quer testar, forçar o limite.
Mas, como diz o ditado, cada macaco no seu galho e o meu é um pouco mais alto, tenho uma visão melhor.
Enxergo bem e não sou trouxa. Quando vão com o fubá, já estou voltando com o bolo.
Mas, no fim do dia, deito minha cabeça no travesseiro e durmo bem.
Criei minhas filhas, se não à minha imagem e semelhança, com dedicação e perseverança.
Deu em três rainhas! E eu sou a Rainha Mãe!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

REENCONTRO

Tive uma mãe disciplinadora, não brincava em serviço.
Ela se tornou mãe aos dezoito anos, quando teve minha irmã.
Mamãe era senhora absoluta dos seus domínios, casa e filhos.
Tinha um olhar penetrante, desconcertante, fixava seus olhos verdes no alvo e atirava. Entendíamos seus olhares codificados.
Era de poucas palavras e pouca demonstração de carinho, nos amava sem arroubos, sem beijos e abraços, colo, então, só em última necessidade.
Nos protegia, alimentava, cobrava resultado na escola e retidão no caráter. Não admitia deslize na honestidade, de palavras ou ações.
Quando fazíamos algo errado, ou alguma travessura, lá vinha aquele olhar matador, a sobrancelha esquerda ia de encontro à raiz do cabelo, subia ao alto da testa e o tiro certeiro nos paralisava.
Mas ela tinha um lado moleque, de trepar em árvores, de soltar pipa (é, minha mãe era a rainha do cerol), nos ensinou a jogar bola de gude no tapete da sala, a jogar as cinco pedrinhas, a pular amarelinha. Coisas que a maternidade precoce quase roubou.
Ela sabia se divertir, gostava da casa cheia. 
Não era de amizades, conversinha de vizinhos e, às vezes, implicava por implicar. Quando não gostava de uma pessoa, riscava do mapa e não admitia sequer um bom dia, mas quando gostava era parcial ao extremo, dava a roupa do corpo, se necessário, e não pedia nada em troca.
Por sua causa fui estudar balé, ia forçada cumprir o sonho da vida dela. Levei o balé por sete anos da minha vida e nunca faltei um dia sequer. E minha mãe assistia a todas as aulas com interesse, como se dançasse em mim.
Também o teatro aconteceu na minha vida por determinação dela.
Fiquei temerosa na hora de fazer a inscrição para o Conservatório Nacional de Teatro (hoje, Uni Rio). Ela foi até lá com meu pai e fez por mim. Dois dias antes da prova de interpretação, me avisou que eu precisava preparar um texto. Entrei em pânico e, mais uma vez, aqueles olhos cravaram em mim:-"Vai pro espelho e treina, você é capaz". Ela não permitia não tentar. Reprovação não era mancha, covardia, sim.
Passei em todas as provas que vieram depois dessa e, em toda a minha curta carreira, meus pais estavam lá.
Sem saber, minha mãe me deu um norte, me apontou o caminho. Ela queria tanto ser artista que, acho, se realizava nas minhas conquistas. Mas, mesmo que tenha sido assim, ela viu em mim o potencial que eu não acreditava que tinha.
Não continuei bailarina ou atriz, sei que tinha talento, me diziam que eu era boa mas, no fundo, não era minha vocação, era a vocação de minha mãe.
Hoje eu entendo e agradeço pois as duas profissões me forjaram, moldaram a minha disciplina, minha determinação, minha personalidade.
No decorrer da vida se tornou rabugenta mas de uma maneira engraçada, como se representasse um papel.
Era autoritária e machista, qualquer mulher era culpada, até prova em contrário.
Adorava o Fluminense e odiava qualquer juiz que não garantisse a vitória de seu time, todos roubavam quando seu Flu perdia.
Seus netos eram sua alegria e diversão, prá eles nada era impossível e por eles se adoçava.
Manteve, até o fim de seus dias, seu protagonismo, era a mãe e não abria mão do seu poder.
Tivemos brigas terríveis porque ela não permitia que cuidassemos dela, era como se usurpassemos seu mando.
Por várias vezes, adulta, me afastei por não aguentar sua mão de ferro. Ela não aceitava não poder mais me controlar e dizia que eu sempre fora a rebelde. Mas não foi ela quem me ensinou a não aceitar prato pronto, a querer saber e entender o porque das coisas? Como ela mandava e a gente obedecia, já que não podiamos questionar, virei pelo avesso e me tornei independente das vontades dela. Acho que ela nunca me perdoou, mas não me arrependo.
Minha mãe era guerreira e levava a gente à luta. Mostrava seu amor brigando por nós e nos educando como ela pensava ser certo. Nunca permitiu que quebrassem as nossas asas e, literalmente, saia no tapa com quem risse de nossas fraquezas. Tentava interferir em nossas vidas e, hoje percebo, viver conosco a juventude que ela poderia ter tido, se não tivesse sido mãe tão cedo.
Faz um ano que ela se foi, mas eu penso que, enquanto existir uma única pessoa que se lembre dela, ela vive.
Não foi uma mãe perfeita, nenhuma é, mas não abdicou nem desistiu nunca do seu destino.
Saudades.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

TRÊS VEZES, SIM!

Tenho três Anas em minha vida.
Costumo dizer que elas são meu trio caipira.
Brinco com o número três.
Elas são minhas "Três Patetas", meu "Trio Maravilhoso Regina" (só os mais antiguinhos sabem a que me refiro), meus "Três Reis Magos", minha "Santíssima Trindade".
Minhas meninas são meu chão, meu sal, minha ligação com essa coisa chamada vida, meu elo com o mundo.
Elas me empurram, me levam a lugares que eu nem sabia que pudessem existir em mim.
Vou à lua e ao inferno em questão de segundos. Me colocam na lona e me estendem a mão.
A primeira tem o nome de Tatiana, embora a ideia fosse ser, simplesmente, Tatí, assim como a origem de seu nome, o filme e a música "Tati, a garota".
Sei que é um filme triste e uma música de cortar os pulsos mas, ambos, são tão lindos que não achei saída pra externar o impacto que eles me causaram, tive que dar esse nome ao meu primeiro amor incondicional. Daí, Tatí.
Mas me encheram o saco, dizendo que isso não era nome, era apelido. Abri a guarda e aceitei Tatiana.
A outra razão é que adoro os russos, compositores, escritores, dramaturgos, bailarinos, devo ter sido russa em outra encarnação e esse espírito se apossou do meu corpinho.
Tinha um amigo, que já foi dessa pra melhor, que a chamava de Tanitchka, ele dizia que esse deveria ser o diminutivo de Tatiana, que já era diminutivo de Tania e que, portanto, minha filha tinha um apelido e não um nome. Agora, pode? Tatí não podia por ser apelido e acabei em outro. Devia ter seguido meu instinto, droga!
No final, essa bagunça teve uma influência determinante em sua personalidade. Ela é um ser multifacetado, inesperado, contraditório, surpreendente.
Não esperem coerência dela, não esperem o mais fácil, a rotina, ela se transforma todo santo dia e haja fôlego pra acompanhar seu raciocínio (que é matador), sua fome de viver (tem que ter um banquete por dia), sua garra (insiste até conseguir o que quer). Me preocupo com as pancadas que ela pode receber mas ela não tem medo, vai de peito aberto e, se tiver que sofrer, sofre feito gente grande, arranca todos os cabelos e, aos poucos, volta pro jogo. Mas quando está feliz o sorriso é permanente, vê-se passarinhos em volta de sua cabeça.
Ela é assim, escancarada, despudorada, segura de quem é, naquele momento. Porque Tatí aparece em um dia, no outro é a Tanitchka, Tania, Tatiana, Tí, praticamente, as "Três Faces de Eva", olha aí o três, novamente!
Minha Mariana, meu segundo amor, deveria ser, simplesmente, Nana. Origem: minha venerada Nana Caymmi, que, também, não se chama Nana. Mais uma vez estava às voltas com um apelido. E, de novo, cedi. O.K. vai ser Mariana! Se é para o bem do povo... etc, etc,e tal. Ela também é Noca, Maricota, Cota, Cleyde (não me pergunte por que, coisas de Tatí!).
Maricotinha é mais sensível que corda de violino, mais aberta que perna de bailarina, tem ouvido apurado e canta que nem minha musa, só que em outro registro. É afinada na voz e afiada no humor.
Brinca e ri como se, ainda, fosse criança. Pensando bem, ela é. Uma criança grande com um coração enorme. Geniosa, teimosa, chorona, perguntadeira. Grita por atenção, mas em silêncio. É um livro aberto. O perigo é que todos podem ler exatamente o que está escrito, não há entrelinhas, e assim, ela se expõe. Demais da conta, até!
Também, ela, faz jus ao apelido referencial. Ela é muito Nana Caymmi, não esconde nada, manda na lata!
Finalmente, Bee. Nome: Fabiana. Origem: acaso. Meu terceiro e derradeiro amor.
Deixa eu explicar direito, se não vai parecer que eu não tive a mesma dedicação na escolha.
Eu tinha duas filhas terminadas em ana, então que fosse mais uma, pra não perder a rima.
E, sabe o que aconteceu quando ela nasceu? Olhei pra carinha dela e lá estava uma abelhinha, pequenininha, com olhos de farol, grandes e claros. Pronto, tinha nascido a Bee, um apelido que originou o nome. Fugi tanto dos apelidos que perdi o rumo e voltei ao mesmo lugar.
Bizoca, Bizica, Beiça (Tati, de novo, porque ela tem lábios fartos, bocão pra qualquer Jolie invejar).
Linda, um trapo qualquer vira Valentino no seu corpo. Tem atitude e classe. Porte de rainha e uma curiosidade inesgotável. De tudo quer entender e vive a perguntar.
Foi uma criança arteira. Certa vez, subiu por uma porta de vidro, literalmente, como se tivesse ventosas.  
E ela veio ao mundo pra polinizar. Vai depositando sementes de alegria por aí.
Sua mente é inquieta e aguda. Vai pela vida levando mel e, às vezes, dando ferroadas.
Não para quieta, vai espalhando suas coisas pela casa.
Seu quarto é sua colmeia, mas ela não se limita a ele. O mundo é sua casa e ela quer, sempre, voar.
Sofre de uma inacreditável memória curta, para o bem ou para o mal. Se estressa fácil, e, facilmente, muda de humor. Ciclotímica nata. Exemplo clássico de "hoje sou um, amanhã sou outro".
Adora brigar mas desconfio que é pra fazer as pazes. Ama com paixão, dá-se de verdade e vai à luta desarmada. Tem cara e coragem. 
É uma boba gigante, faz-se dela o que se quer. Quando dá por si, já era, foi, só resta rir e continuar. É espaçosa, há que se por limites.
Mas é pelo clã. Mostra o ferrão quando alguém se atreve a criticar um de nós. Nos protege, mesmo que não precisemos. Ferroa, sem piedade!
Não é fácil ser mãe dessas loucas, é uma trabalheira insana. É heavy metal, é pauleira!
Mas, se três vidas eu tivesse, três vezes escolheria ser mãe dessas "Três Graças".
Um filme, uma voz, um olhar, que mais eu quero da vida?