Ainda hoje, tenho dificuldade em escolher o que comer.
Fora os dias em que bate um desejo irrefreável de encarar uma feijoada, uma moqueca ou algo assim, é um parto decidir, seja em restaurante, seja em casa.
Sempre acho que podia ter pedido ou feito outra coisa.
Se é buffet, fico olhando por horas, esperando que meu cérebro determine que é aquilo mesmo que eu quero comer, que está na quantidade exata do meu apetite, que minhas papilas gustativas vão ser saciadas, enfim, se eu vou ficar satisfeita com a minha escolha. Na maioria das vezes, fico com a sensação de que faltou alguma coisa ou de que exagerei em outra.
Quando criança, a vida é mais fácil, escolhem por nós, determinam nosso desejo e estamos conversados. É aquilo e lambam os beiços.
Nos chamam nas horas precisas, café da manhã, almoço, lanche, etc.
Em casa de meus pais era proibido comer fora de hora, além do dinheiro curto, minha mãe não se prestava a fazer a vontade dos filhos.
Quando estava de bom humor fazia um agrado extra, um pavê, uma torta, mas era muito raro.
Cozinhar prá ela era obrigação, nunca foi prazer, embora cozinhasse bem.
Cresci saudável e despreocupada com a mesa, sentava, comia, agradecia e ponto final.
Saindo das asas protetoras, a porca torceu o rabo. A dúvida me assaltava em uma simples ida à padaria. Será que comia pão doce, sanduíche, croquete?
Restaurante, cardápio, variações de pratos, era uma bagunça na minha cabeça e o desejo por algo não se definia. Quero carne ou peixe? Batatas fritas ou cozidas? Salada de entrada ou frios? Eterna dúvida e constante arrependimento. Meu estômago e meu cérebro não conseguiam chegar a um acordo. Era cada um por si.
O resultado é que tenho preguiça de comer, como por necessidade, deste pecado, a gula, estou livre.
Deve ser por isso que tenho outros pecadilhos, nenhum pecado capital, nada muito comprometedor.
Todo mundo tem uma compulsão, tenho a minha e não vou me expor.
Canalizei meu apetite prá outras coisas, nada imoral ou ilegal, mas meu prazer desviou-se da mesa.
Fora o paladar, meus outros quatro sentidos são exacerbados. E ainda tem o sexto, hiper desenvolvido.
Pressinto encrenca longe.
O diabo é que pressentir não me afasta dela, por vezes me atrai, mesmo sabendo que vou me estrepar.
Como uma mosquinha atraída pela aranha, caio na teia e fico presa. É uma dureza, depois, me desvencilhar da cilada que eu pressenti. Confio nos meus instintos mas, mais de uma vez, meu cérebro não acompanhou minha intuição. Vou morrer sem acertar esses ponteiros.
Minha visão já não é a mesma, literalmente falando. Óculos de leitura dão uma ajuda considerável. Mas enxergo além do que vejo, não sei se é pretensão ou se leio, mesmo, o que não é visto. A verdade é que, quase sempre, enxergo o outro com raio x. Não tenho controle sobre isso. Quando percebo, já estou analisando, até porque o corpo fala e desmente muitas palavras ditas. Eu percebo, não me pergunte como.
A contradição é transparente, prá mim. Chega a ser aflitivo, querer me desconectar da lucidez.
O olfato é um sentido canino, em mim. Vou longe na lembrança de cheiros que me lembram alguém, algum lugar, minha memória emotiva é ativada e desembesta a me remeter à coisas que quero, às vezes, esquecer. Farejo, esse é o verbo, sou uma perdigueira, me guio pelo olfato. Por isso, adoro um bom perfume, suave, discreto, insinuante. Como um cão, odeio odores fortes. Cheiro de limpeza, de capim depois da chuva, de terra molhada, de maresia, são afrodisíacos. Odores desagradáveis agridem meu olfato.
A audição é o sentido que me dá alegria ou tristeza, prazer ou angústia, sou, reconhecidamente, emprenhada pelos ouvidos. Adoro música, em um volume suportável, que eu possa ouvir sem arrebentar os tímpanos, que permita conversa sem gritos. Amo as palavras e o que é feito com elas.
Tomo cuidado com o que digo, quero ser entendida, as palavras precisam de objetivo, mesmo quando jogadas fora, se é essa a intenção. Sou uma boa ouvinte. Tenho prazer em buscar a palavra exata, a que encaixa, a palavra redonda, sem arestas ou que dê margem à outra interpretação que não seja àquela que me fez dizê-la. Mesmo as metáforas precisam de clareza. Uma única palavra pode destruir um encantamento. Por exemplo: "Queria te encontrar mas...". Não, por favor, o "mas" quebrou o fluxo, depois do "mas" pode dizer o que quiser- e pode até ser "eu te amo"- os ouvidos fecham e a boca amarga. Palavra mal encaixada não se diz e, principalmente, faz com que não se ouça o restante.
Por fim, o tato. Ah, o tato é tudo. Com ele vamos ao céu. Os desprovidos dele são grosseiros. Tatear, descobrir, desbravar, buscar o prazer, a sensação, desenhar com a ponta dos dedos, experimentar texturas, fazer a química acontecer, devagar, saboreando a reação.
Fora o ter tato ao lidar com o outro, mas esse é outro tato.
A eterna procura do amor tem todos os seis sentidos e mais um agregado. Esse estranho no ninho dos sentidos se chama confiança.
Confiar em que todos eles vão te levar à alguma concretude e que, se um deles falhar, ainda assim será possível se equilibrar entre os outros.
Mas, preste muita atenção ao que o sexto soprar em seu ouvido. Geralmente, ele está certo!
Aí, não adianta ter intimidade com os outros sentidos.
Quando o sexto sentido gritar: ENCRENCA!, corra, porque os outros sentidos vão tentar iludir e trapacear, fingir que é alarme falso.
Embora com quatro sentidos apuradíssimos e um meio capenga, é o sexto sentido que me guia na vida.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
DAS AFETAÇÕES
Amar. Verbo transitivo.
E, por ser transitório, efêmero.
Conjugado por duas pessoas, unindo uma à outra.
Diz-se que amar emburrece, embrutece, enlouquece.
Prefiro o amor que aquece, protege, amansa.
Sou romântica, por fim admito.
Amar é uma benção particular, uma oração codificada, um canto gregoriano, a liturgia dos amantes, uma celebração do encontro. Hosana nas alturas!
As afetações românticas, infelizmente, trazem consigo outras afetações contrastantes.
Ciúme, posse, desconfiança, medo, cobranças, exigências descabidas e, então, o efêmero acontece.
Seria ingênuo acreditar que o amor não traz transtorno emocional.
O ajuste entre as pessoas afetadas é processual e, no processo, pode-se perder a segurança inicial.
Personalidades distintas, vidas diferentes, hábitos incompatíveis se misturam ao amor e enfraquecem a confiança.
Lutar pelo que se quer fica mais difícil, quando entram em campo os soldados das defesas.
Defendemos o direito à individualidade, às opiniões, às vontades e necessidades.
Exigimos respeito à essas afetações, entrega, como se, do dia para à noite, fosse possível trocar de pele, de história.
Boicotamos as possibilidades por absoluta irracionalidade.
Se pensarmos que, ao amar o outro, abrimos mão de nos amarmos, não existe afetação, existe carência. E carência não conjuga com o verbo amar.
Se estou sendo amada, como posso estar carente?
Se continuo carente, não confio nesse amor.
Se não confio, cobro, brigo por espaço e, nessa luta, desisto.
É mais fácil amar do que ser amada.
Quando amo, despejo afeto, escolho as palavras que me façam ser melhor entendida, tenho cuidado, respeito, carinho, procuro não magoar, tento equilibrar os desacertos, não invado, peço licença prá entrar e repartir o espaço emocional que conquistamos. Mas eu sou assim, o outro é assado.
Quando sou amada sou cobrada por essa afetação, como se fosse culpada por ter feito alguém gostar de mim, como se não quisesse e eu obrigasse a querer, sou responsável pelo amor que o outro sente.
Cai no padrão de suas escolhas e, consequentemente, de suas experiências. Não se dá a chance de mudar e viver outro tipo de amor, mais maduro, menos urgente, mais sério e, talvez, mais prazeroso.
Amar sem obrigações, amar só pelo prazer de estar, ter, ficar com quem se quer
Amor acontece, é química, não é premeditado.
Amar não escolhe, a única escolha é ficar ou não com esse amor.
Eu prefiro ficar mas entendo quem não tenha capacidade de lidar com as faltas que o amor traz.
Falta de ar, falta de presença constante, falta de coragem de se entregar, de se atirar do penhasco, de dançar um tango argentino e, talvez, gostar.
Dividir essa afetação, distribuir aos amigos e contagiar quem está em volta, percebendo, intuindo o amor emanado, é um sinal de generosidade que só o amar verdadeiramente é capaz de emitir.
Condicionar amor unicamente a presença física é diminuir o próprio afeto. Este resiste à ausência, à falta, até à morte.
Amar, ensina. Amar, não prende. Amar, conforta. Amar, não julga. Amar, não ofende.
Amar, por fim, dignifica e pacifica.
Amar é verbo. Transitivo ou transitório somos nós, até que me provem o contrário.
E, por ser transitório, efêmero.
Conjugado por duas pessoas, unindo uma à outra.
Diz-se que amar emburrece, embrutece, enlouquece.
Prefiro o amor que aquece, protege, amansa.
Sou romântica, por fim admito.
Amar é uma benção particular, uma oração codificada, um canto gregoriano, a liturgia dos amantes, uma celebração do encontro. Hosana nas alturas!
As afetações românticas, infelizmente, trazem consigo outras afetações contrastantes.
Ciúme, posse, desconfiança, medo, cobranças, exigências descabidas e, então, o efêmero acontece.
Seria ingênuo acreditar que o amor não traz transtorno emocional.
O ajuste entre as pessoas afetadas é processual e, no processo, pode-se perder a segurança inicial.
Personalidades distintas, vidas diferentes, hábitos incompatíveis se misturam ao amor e enfraquecem a confiança.
Lutar pelo que se quer fica mais difícil, quando entram em campo os soldados das defesas.
Defendemos o direito à individualidade, às opiniões, às vontades e necessidades.
Exigimos respeito à essas afetações, entrega, como se, do dia para à noite, fosse possível trocar de pele, de história.
Boicotamos as possibilidades por absoluta irracionalidade.
Se pensarmos que, ao amar o outro, abrimos mão de nos amarmos, não existe afetação, existe carência. E carência não conjuga com o verbo amar.
Se estou sendo amada, como posso estar carente?
Se continuo carente, não confio nesse amor.
Se não confio, cobro, brigo por espaço e, nessa luta, desisto.
É mais fácil amar do que ser amada.
Quando amo, despejo afeto, escolho as palavras que me façam ser melhor entendida, tenho cuidado, respeito, carinho, procuro não magoar, tento equilibrar os desacertos, não invado, peço licença prá entrar e repartir o espaço emocional que conquistamos. Mas eu sou assim, o outro é assado.
Quando sou amada sou cobrada por essa afetação, como se fosse culpada por ter feito alguém gostar de mim, como se não quisesse e eu obrigasse a querer, sou responsável pelo amor que o outro sente.
Cai no padrão de suas escolhas e, consequentemente, de suas experiências. Não se dá a chance de mudar e viver outro tipo de amor, mais maduro, menos urgente, mais sério e, talvez, mais prazeroso.
Amar sem obrigações, amar só pelo prazer de estar, ter, ficar com quem se quer
Amor acontece, é química, não é premeditado.
Amar não escolhe, a única escolha é ficar ou não com esse amor.
Eu prefiro ficar mas entendo quem não tenha capacidade de lidar com as faltas que o amor traz.
Falta de ar, falta de presença constante, falta de coragem de se entregar, de se atirar do penhasco, de dançar um tango argentino e, talvez, gostar.
Dividir essa afetação, distribuir aos amigos e contagiar quem está em volta, percebendo, intuindo o amor emanado, é um sinal de generosidade que só o amar verdadeiramente é capaz de emitir.
Condicionar amor unicamente a presença física é diminuir o próprio afeto. Este resiste à ausência, à falta, até à morte.
Amar, ensina. Amar, não prende. Amar, conforta. Amar, não julga. Amar, não ofende.
Amar, por fim, dignifica e pacifica.
Amar é verbo. Transitivo ou transitório somos nós, até que me provem o contrário.
sexta-feira, 23 de março de 2012
TECELÃ
Embaixo do tapete,
por baixo dos panos,
acima de nós,
além de mim.
Não é poeira,
não há maneira
de esconder.
Decidir é escolher,
escolher é negar,
negar um de dois,
perder ou ganhar.
Abrir mão,
fechar questão,
mirar o alvo,
acertar o erro.
Ter e não ver,
que querer não é poder,
e podendo, desistir, não fazer.
Molhar a boca,
piscar o olho,
morder a língua,
e soprar segredos.
Trincar os dentes,
cravar as unhas,,
e sorver a última gota
do teu cálice.
Me embriagar.
E o ópio,
e o vício,
e a droga,
a adição do outro.
Bater de frente,
cruzar fronteira,
romper barreira,
perder o rumo.
Desviar do caminho,
chutar as pedras,
mandar às favas
a razão.
Nosso caminho dá no mesmo lugar.
Ser tua,
ser meu,
ser minha
e ser só.
Meu gozo,
minha paixão,
minha virtude e
minha perdição.
Somos um, entrelaçados,
somos um mais um,
separados.
Venha, seja meu.
Sou sua e
vou, contigo,
ser nós.
Debaixo do tapete,
existe nossa história.
Embaixo do tapete,
tecemos nossa vida.
por baixo dos panos,
acima de nós,
além de mim.
Não é poeira,
não há maneira
de esconder.
Decidir é escolher,
escolher é negar,
negar um de dois,
perder ou ganhar.
Abrir mão,
fechar questão,
mirar o alvo,
acertar o erro.
Ter e não ver,
que querer não é poder,
e podendo, desistir, não fazer.
Molhar a boca,
piscar o olho,
morder a língua,
e soprar segredos.
Trincar os dentes,
cravar as unhas,,
e sorver a última gota
do teu cálice.
Me embriagar.
E o ópio,
e o vício,
e a droga,
a adição do outro.
Bater de frente,
cruzar fronteira,
romper barreira,
perder o rumo.
Desviar do caminho,
chutar as pedras,
mandar às favas
a razão.
Nosso caminho dá no mesmo lugar.
Ser tua,
ser meu,
ser minha
e ser só.
Meu gozo,
minha paixão,
minha virtude e
minha perdição.
Somos um, entrelaçados,
somos um mais um,
separados.
Venha, seja meu.
Sou sua e
vou, contigo,
ser nós.
Debaixo do tapete,
existe nossa história.
Embaixo do tapete,
tecemos nossa vida.
ECOS
Por que destruir pontes? Pelo simples fato de que não se pode atravessá-las?
Por que queimar navios? Por não poder navegar?
Por que fechar portas? Por precisar de permissão prá entrar?
A raiva que move o erro, também, pode precipitar a mágoa.
Nada é certo, tampouco definitivo. A vida acontece.
Por que julgar o proceder do outro sem conhecer a causa?
Minutos, horas, não dão argumentos consistentes prá fazer juízo do outro.
O caminhar é construído pela estrada que se apresenta, ora reta e tranquila, ora acidentada, difícil.
Quando acha que sabe de tudo, aí é que nada sabe. Mas julga.
Não sabe dos tropeços, da agonia, da solidão.
Não sabe das alegrias, das compensações, da força que precisa ter prá continuar.
Mais fácil é, de fora, determinar a falha, de caráter, de vontade, de dignidade.
Quantas vezes nos pegamos criticando as atitudes do outro, nos dizendo que jamais faríamos o que o outro faz.
Acontece que teríamos que calçar os sapatos do outro e caminhar pela mesma rota traçada pela escolha alheia. Certa ou errada, foi a vida acontecendo e exigindo respostas imediatas.
Minha história foi escrita por mim e não quero dizer que acertei todas as questões apresentadas.
Quer dizer que, no momento em que acontecia, não havia como prever a conta do futuro.
Sou produto das minhas opções, outras escolhas fariam outra história, talvez mais fácil.
Mas não há como retroceder, vivo com as sobras do passado, tento sobreviver, existir no presente.
Não sou egoísta à ponto de fazer sòmente o que me interessa. Não sou uma ilha.
Vidas se interligam à minha e tenho que ter cuidado e respeito, devo equilibrar desejos e necessidades, tentando adaptar meu espaço e, se necessário, cedê-lo.
Não esqueci de mim mas não consigo negar assistência à quem precisa.
Uma conversa, um olhar, um sorriso, às vezes é tão pouco que não me tira nenhum pedaço.
Às vezes é muito mais, é uma presença constante, uma mão segurando o eternizado momento de fraqueza, uma impossibilidade de se negar apoio. É a vida apresentando a conta.
Mas nada, nada, nada, dá o direito, à quem quer que seja, de julgar e condenar uma pessoa pelas escolhas feitas e tentar crucificar alguém por erros cometidos em situações improváveis mas, absolutamente, reais.
A realidade é a soma de todos os erros e acertos`. É transformar a perda em recompensa.
Talvez eu não tenha tido a habilidade de lidar com as dificuldades e, como não sabia contorná-las, assumia e seguia.
Crescer, dói.
Amadurecer com enganos, tira a alegria de estar no mundo.
Envelhecer, pacifica.
Apesar de todos os pesares, do amor próprio ferido, da dignidade fraturada, da vontade subjugada, da possível submissão, não tenho o direito de me arrepender e não posso permitir que me julguem por um passado que só eu vivi.
Mesmo não tendo me acompanhado no meu caminho, não tendo presenciado minhas lutas interiores, não tendo me conhecido, mesmo assim, sou julgada.
Eu me credito um pouco de aceitação e respeito pelo que fiz de mim.
Não procuro entendimento ou compreensão, mas não aceito julgamento sumário por quem não é capaz de lidar com a humanidade de ser.
Simples, é simples, assim. Ser humano.
Pior, ainda, é abrir seu "livro" interior, sua vida, e ser traída e apedrejada por ser quem é. Por fazer o que é preciso. Por ser, talvez, chantageada.
Ainda que eu fosse indigna, uma fraude, um desastre emocional, ainda assim, mereceria, pelo menos, atenção.
Recuso advogado de defesa e recuso, também, juiz tendencioso, eu sou meu próprio juiz e não preciso me defender. É a mim que devo me reportar. É comigo que tenho que me entender.
Nada devo e nada cobro, a não ser que me deixem respirar meu próprio ar, contaminado, que seja.
Sem inquisição, sem tribunal de exceção, sem execução sumária.
E, por fim, em última instância, cito Nelson Rodrigues:
Perdoa-me por me traíres!
Por que queimar navios? Por não poder navegar?
Por que fechar portas? Por precisar de permissão prá entrar?
A raiva que move o erro, também, pode precipitar a mágoa.
Nada é certo, tampouco definitivo. A vida acontece.
Por que julgar o proceder do outro sem conhecer a causa?
Minutos, horas, não dão argumentos consistentes prá fazer juízo do outro.
O caminhar é construído pela estrada que se apresenta, ora reta e tranquila, ora acidentada, difícil.
Quando acha que sabe de tudo, aí é que nada sabe. Mas julga.
Não sabe dos tropeços, da agonia, da solidão.
Não sabe das alegrias, das compensações, da força que precisa ter prá continuar.
Mais fácil é, de fora, determinar a falha, de caráter, de vontade, de dignidade.
Quantas vezes nos pegamos criticando as atitudes do outro, nos dizendo que jamais faríamos o que o outro faz.
Acontece que teríamos que calçar os sapatos do outro e caminhar pela mesma rota traçada pela escolha alheia. Certa ou errada, foi a vida acontecendo e exigindo respostas imediatas.
Minha história foi escrita por mim e não quero dizer que acertei todas as questões apresentadas.
Quer dizer que, no momento em que acontecia, não havia como prever a conta do futuro.
Sou produto das minhas opções, outras escolhas fariam outra história, talvez mais fácil.
Mas não há como retroceder, vivo com as sobras do passado, tento sobreviver, existir no presente.
Não sou egoísta à ponto de fazer sòmente o que me interessa. Não sou uma ilha.
Vidas se interligam à minha e tenho que ter cuidado e respeito, devo equilibrar desejos e necessidades, tentando adaptar meu espaço e, se necessário, cedê-lo.
Não esqueci de mim mas não consigo negar assistência à quem precisa.
Uma conversa, um olhar, um sorriso, às vezes é tão pouco que não me tira nenhum pedaço.
Às vezes é muito mais, é uma presença constante, uma mão segurando o eternizado momento de fraqueza, uma impossibilidade de se negar apoio. É a vida apresentando a conta.
Mas nada, nada, nada, dá o direito, à quem quer que seja, de julgar e condenar uma pessoa pelas escolhas feitas e tentar crucificar alguém por erros cometidos em situações improváveis mas, absolutamente, reais.
A realidade é a soma de todos os erros e acertos`. É transformar a perda em recompensa.
Talvez eu não tenha tido a habilidade de lidar com as dificuldades e, como não sabia contorná-las, assumia e seguia.
Crescer, dói.
Amadurecer com enganos, tira a alegria de estar no mundo.
Envelhecer, pacifica.
Apesar de todos os pesares, do amor próprio ferido, da dignidade fraturada, da vontade subjugada, da possível submissão, não tenho o direito de me arrepender e não posso permitir que me julguem por um passado que só eu vivi.
Mesmo não tendo me acompanhado no meu caminho, não tendo presenciado minhas lutas interiores, não tendo me conhecido, mesmo assim, sou julgada.
Eu me credito um pouco de aceitação e respeito pelo que fiz de mim.
Não procuro entendimento ou compreensão, mas não aceito julgamento sumário por quem não é capaz de lidar com a humanidade de ser.
Simples, é simples, assim. Ser humano.
Pior, ainda, é abrir seu "livro" interior, sua vida, e ser traída e apedrejada por ser quem é. Por fazer o que é preciso. Por ser, talvez, chantageada.
Ainda que eu fosse indigna, uma fraude, um desastre emocional, ainda assim, mereceria, pelo menos, atenção.
Recuso advogado de defesa e recuso, também, juiz tendencioso, eu sou meu próprio juiz e não preciso me defender. É a mim que devo me reportar. É comigo que tenho que me entender.
Nada devo e nada cobro, a não ser que me deixem respirar meu próprio ar, contaminado, que seja.
Sem inquisição, sem tribunal de exceção, sem execução sumária.
E, por fim, em última instância, cito Nelson Rodrigues:
Perdoa-me por me traíres!
domingo, 18 de março de 2012
CARTA A UM DESCONHECIDO
Meu caro amigo.
Não sei quem você é, sei que preciso de você.
Queria te dizer de mim, queria saber de você, de sua vida, de seus sonhos.
Queria ser aquela que compartilha momentos bons, ser a que protege de momentos maus.
Queria conhecer quem me tira o sono, me faz ficar desperta, me acompanha na vigília.
Tenho você em mim, dentro de mim.
Tenho uma vida tranquila e centrada. Ou tinha.
Tenho histórias prá contar e tempo prá ouvir outras narrativas, novas, estimulantes.
Queria te conhecer.
Queria encontrar esse amigo que habita meu imaginário, que entra, sem ser esperado, no meu espaço tão duramente preservado, que invade meu tempo, que rouba minha solidão ao me fazer companhia.
Queria, meu amigo, dar voz e corpo a uma sombra que surgiu.
Queria desfrutar essa comunhão, essa aproximação.
O fato de você não existir no meu mundo, me faz querer viajar por outros, buscando o que nos seja comum.
Na verdade, não deveria conhecê-lo, não quero quebrar a força que me mantém, não quero perder o juízo. Ou será que já perdi?
Você se tornou o ideal e inatingível, a possibilidade remota e perseguida, o motivo e a razão.
Criei esse amigo, fui criada por ele. Esse amigo me entende, estimula, acompanha e preenche, me afoga em esperança.
Gosto de saber que você existe, gosto de te procurar em pessoas impossíveis.
Me impulsiona saber que essa procura pode ter fim, ao achá-lo.
Saiba, querido amigo, que sua casa é minha cabeça, ninguém entra ou sai dela sem minha permissão.
Entenda que te protejo porque você mora em mim, em um território escriturado, com aviso de "Não transpassem".
Amigo querido, você e eu nos pertencemos porque somos estranhos, sem passado, talvez sem futuro.
Nos aproximamos porque estamos afastados, porque somos a possível impossibilidade.
Somos amigos porque não nos conhecemos, porque não temos interferências, ruídos, porque imaginamos, criamos, e mantemos laços estreitos de afeto, desatamos nós antes de serem apertados, respiramos através das letras.
Não sei quem você é. Você me escapa entre os dedos, não aprendi a retê-lo.
Murmuramos entre nós, dialogamos mentalmente, já nos pertencemos.
E, ao pensar em você, construo um lugar, o mais próximo possível da felicidade.
E tenho muito tempo, ainda, prá encontrar a alegria que guardamos prá nós.
Com você, posso ser outra.
Meu mundo se expande, meu afeto me espanta, tua presença, ausente, me acompanha. Tenho alguém, mesmo não te tendo.
Tenho a certeza de ter achado, no meu último momento, o que esperei a vida inteira.
Simples, assim.
Com amor...
Não sei quem você é, sei que preciso de você.
Queria te dizer de mim, queria saber de você, de sua vida, de seus sonhos.
Queria ser aquela que compartilha momentos bons, ser a que protege de momentos maus.
Queria conhecer quem me tira o sono, me faz ficar desperta, me acompanha na vigília.
Tenho você em mim, dentro de mim.
Tenho uma vida tranquila e centrada. Ou tinha.
Tenho histórias prá contar e tempo prá ouvir outras narrativas, novas, estimulantes.
Queria te conhecer.
Queria encontrar esse amigo que habita meu imaginário, que entra, sem ser esperado, no meu espaço tão duramente preservado, que invade meu tempo, que rouba minha solidão ao me fazer companhia.
Queria, meu amigo, dar voz e corpo a uma sombra que surgiu.
Queria desfrutar essa comunhão, essa aproximação.
O fato de você não existir no meu mundo, me faz querer viajar por outros, buscando o que nos seja comum.
Na verdade, não deveria conhecê-lo, não quero quebrar a força que me mantém, não quero perder o juízo. Ou será que já perdi?
Você se tornou o ideal e inatingível, a possibilidade remota e perseguida, o motivo e a razão.
Criei esse amigo, fui criada por ele. Esse amigo me entende, estimula, acompanha e preenche, me afoga em esperança.
Gosto de saber que você existe, gosto de te procurar em pessoas impossíveis.
Me impulsiona saber que essa procura pode ter fim, ao achá-lo.
Saiba, querido amigo, que sua casa é minha cabeça, ninguém entra ou sai dela sem minha permissão.
Entenda que te protejo porque você mora em mim, em um território escriturado, com aviso de "Não transpassem".
Amigo querido, você e eu nos pertencemos porque somos estranhos, sem passado, talvez sem futuro.
Nos aproximamos porque estamos afastados, porque somos a possível impossibilidade.
Somos amigos porque não nos conhecemos, porque não temos interferências, ruídos, porque imaginamos, criamos, e mantemos laços estreitos de afeto, desatamos nós antes de serem apertados, respiramos através das letras.
Não sei quem você é. Você me escapa entre os dedos, não aprendi a retê-lo.
Murmuramos entre nós, dialogamos mentalmente, já nos pertencemos.
E, ao pensar em você, construo um lugar, o mais próximo possível da felicidade.
E tenho muito tempo, ainda, prá encontrar a alegria que guardamos prá nós.
Com você, posso ser outra.
Meu mundo se expande, meu afeto me espanta, tua presença, ausente, me acompanha. Tenho alguém, mesmo não te tendo.
Tenho a certeza de ter achado, no meu último momento, o que esperei a vida inteira.
Simples, assim.
Com amor...
quinta-feira, 8 de março de 2012
DE CORPO INTEIRO / RETRATO
Um olhar, enviesado.
Um sorriso, desconfiado.
Um tocar, atrapalhado.
Um gostar, envergonhado.
Um carinho, represado.
Um beijo, abortado.
Um corpo, acalorado.
Frases, mal formuladas.
Palavras, profanadas.
Ações, mal cuidadas.
Silêncio.
Mente, inquieta.
Alma, retorcida.
Dores.
Querer e não saber,
se quer o que sabe que tem.
Saber que o que se quer,
tem um preço, ao se ter.
Pagar prá ver ou
ter sem pagar?
Nascer e morrer
e, no meio, viver.
E nessa vida, no meio,
responder, afirmar, sentir, amar.
Ser menina, ser mulher,
ser louca e recatada,
ser perdida e procurada,
ser cama e mesa,
ser o que nem sabe que é.
Enxergar, não só ver.
Ouvir, não só escutar.
Dizer, não só falar.
Percorrer a estrada do corpo,
buscando a explosão que destrói represas,
que causa enchentes e desatinos.
E sorrindo, morrer um pouco, de tanto prazer.
Um sorriso, desconfiado.
Um tocar, atrapalhado.
Um gostar, envergonhado.
Um carinho, represado.
Um beijo, abortado.
Um corpo, acalorado.
Frases, mal formuladas.
Palavras, profanadas.
Ações, mal cuidadas.
Silêncio.
Mente, inquieta.
Alma, retorcida.
Dores.
Querer e não saber,
se quer o que sabe que tem.
Saber que o que se quer,
tem um preço, ao se ter.
Pagar prá ver ou
ter sem pagar?
Nascer e morrer
e, no meio, viver.
E nessa vida, no meio,
responder, afirmar, sentir, amar.
Ser menina, ser mulher,
ser louca e recatada,
ser perdida e procurada,
ser cama e mesa,
ser o que nem sabe que é.
Enxergar, não só ver.
Ouvir, não só escutar.
Dizer, não só falar.
Percorrer a estrada do corpo,
buscando a explosão que destrói represas,
que causa enchentes e desatinos.
E sorrindo, morrer um pouco, de tanto prazer.
terça-feira, 6 de março de 2012
IMENSIDÃO
A natureza é sábia.
Nos dá o sol, a chuva, estrelas, lua, fauna e flora, belezas em por do sol, raios e trovões, mares, lagos, águas que se transformam em ondas, gelo, quedas d'água que nos presenteiam com arco-íris. Nos dá dias e noites, nos dá a dimensão do que somos diante dela: figurantes em seu cenário.
A natureza é avassaladora com seus terremotos, tsunamis, furacões, tempestades, avalanches e nos mostra quão impotentes somos diante de sua fúria.
Sabemos que temos que nos curvar e admitir a fragilidade humana.
A natureza é uma força incontrolável e inesperada, trapaceia as previsões da ciência que quer domá-la. Exerce seu poder transformador e muda o que quiser, sem nenhuma chance de controle.
Fazendo parte da natureza, também temos nossos dias de fúria, de lago tranquilo, de terremotos existenciais, de geleiras sólidas, de estrelas cadentes.
A lua nos determina ciclos, as estrelas nos apontam caminhos.
A microscópica situação humana é irrelevante diante de tamanha força.
É só isso que sou, um grão de areia sem nenhuma importância.
E, só porisso, tento inventar meu mundo, construir minha natureza.
Assim, quem sabe, encontre um outro mundo, construido por outra pessoa, onde seja possível descontrolar as marés.
E deixar que as águas rolem, que o tempo mude, que a árvore cresça, que o ar envolva.
Nos dá o sol, a chuva, estrelas, lua, fauna e flora, belezas em por do sol, raios e trovões, mares, lagos, águas que se transformam em ondas, gelo, quedas d'água que nos presenteiam com arco-íris. Nos dá dias e noites, nos dá a dimensão do que somos diante dela: figurantes em seu cenário.
A natureza é avassaladora com seus terremotos, tsunamis, furacões, tempestades, avalanches e nos mostra quão impotentes somos diante de sua fúria.
Sabemos que temos que nos curvar e admitir a fragilidade humana.
A natureza é uma força incontrolável e inesperada, trapaceia as previsões da ciência que quer domá-la. Exerce seu poder transformador e muda o que quiser, sem nenhuma chance de controle.
Fazendo parte da natureza, também temos nossos dias de fúria, de lago tranquilo, de terremotos existenciais, de geleiras sólidas, de estrelas cadentes.
A lua nos determina ciclos, as estrelas nos apontam caminhos.
A microscópica situação humana é irrelevante diante de tamanha força.
É só isso que sou, um grão de areia sem nenhuma importância.
E, só porisso, tento inventar meu mundo, construir minha natureza.
Assim, quem sabe, encontre um outro mundo, construido por outra pessoa, onde seja possível descontrolar as marés.
E deixar que as águas rolem, que o tempo mude, que a árvore cresça, que o ar envolva.
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