" Se essa rua, se essa rua fosse minha,
eu mandava, eu mandava ladrilhar,
com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante,
só pro meu, só pro meu amor passar..."
( Cantiga de Roda ).
Meu caminho é acidentado, íngreme, quem quiser percorrê-lo, pode se machucar.
Sei que é preciso tenacidade, determinação, prá chegar à mim.
Não sou fácil, não sou leitura dinâmica, dou trabalho.
Quem achar que pode passar os olhos, rapidamente, por mim, vai ficar na leitura rasa e sou prá leitor atento.
Sou estiva, sou complexa, sou mulher.
Não faço jogos, nem sei jogar.
O que se vê é o que se tem.
Não levo desaforo prá casa, compro briga e pago à vista.
Tento ficar longe dos atritos, mas não fujo da raia.
Respeito na mesma medida em que sou respeitada.
Não sou caminho do meio, sou estrada de mão única.
Se vou, vou com certezas, detesto contra mão.
Erro algumas entradas, mas sempre acho a saída.
Tenho declives perigosos, em contrapartida tenho aclives suaves.
Não forço a marcha, reconheço o limite de velocidade que o momento pede.
Se eu pudesse mudar minha paisagem, seria uma estrada em linha reta, infinita e bem pavimentada, prá que pudesse ser percorrida em segurança, com o horizonte claro, a música perfeita, o tempo ideal.
Seria ensolarada, talvez estrelada, seria viagem de férias.
Seria brisa, não ventania. Seria refúgio seguro.
Teria relva em mim para o seu descanso.
E teria retorno, possibilidade de acertar o caminho errado.
" Se eu fosse essa rua,
se eu fosse...
mas não sou".
sábado, 8 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
SENHORA DE SI
Era de amanhecer e anoitecer.
Pela manhã, despertava com a noite nos olhos, com o corpo entorpecido, com a mente adormecida.
Limpava os vestígios da vigília, nutria o desejo.
De manhã, era de servir a mesa, alimentar o corpo.
Respirava sol, esquentava a pele, se preparava.
Era senhora, de dia. Mantinha o prumo, domava a loucura, exercia a sensatez.
Varria o tapete, lavava as taças, secava as lágrimas.
À tarde, começava a anoitecer.
Abria o bar, trocava a pele.
Banhava o corpo, prendia os cabelos, se buscava no espelho.
Os olhos, antes semicerrados, se abriam, deixavam a luz e o brilho entrar.
Pintava a boca e bordava o corpo.
Era quando a outra chegava, de mansinho.
Primeiro, menina, desnudando o corpo, revelando mistérios, aprendendo a se transformar.
Depois, mulher, não mais a que servia a mesa, mas a que devorava a vida.
Quando a noite chegava, estava desperta.
Inspirava lua, expirava vento.
Livre da senhora do dia, podia ser a dona da noite.
E, finalmente, soltava os cabelos e a fera.
Desfazia a cama e os nós.
Pisava no tapete limpo pela senhora, deixava pegadas de fogo, marcava a pele com dentes e língua.
A lucidez, varria. A alma, lavava. A pele, ardia. O desejo, queimava.
Mordia o lábio, cravava as unhas, aguava o corpo.
Fazia chover, guardava o segredo, confessava pecados.
Descobria caminhos, invertia a ordem.
Enchia as taças, bebia o vinho e lambia o mel.
O sal do dia era esquecido, as lágrimas viravam suor.
Despudorava, enlouquecia.
De dia, vagava em território conhecido.
À noite, cavalgava sem destino.
E chegava ao seu lugar.
Quando amanhecia, guardava a noite.
De dia, anoitecia.
À noite, vivia.
Pela manhã, despertava com a noite nos olhos, com o corpo entorpecido, com a mente adormecida.
Limpava os vestígios da vigília, nutria o desejo.
De manhã, era de servir a mesa, alimentar o corpo.
Respirava sol, esquentava a pele, se preparava.
Era senhora, de dia. Mantinha o prumo, domava a loucura, exercia a sensatez.
Varria o tapete, lavava as taças, secava as lágrimas.
À tarde, começava a anoitecer.
Abria o bar, trocava a pele.
Banhava o corpo, prendia os cabelos, se buscava no espelho.
Os olhos, antes semicerrados, se abriam, deixavam a luz e o brilho entrar.
Pintava a boca e bordava o corpo.
Era quando a outra chegava, de mansinho.
Primeiro, menina, desnudando o corpo, revelando mistérios, aprendendo a se transformar.
Depois, mulher, não mais a que servia a mesa, mas a que devorava a vida.
Quando a noite chegava, estava desperta.
Inspirava lua, expirava vento.
Livre da senhora do dia, podia ser a dona da noite.
E, finalmente, soltava os cabelos e a fera.
Desfazia a cama e os nós.
Pisava no tapete limpo pela senhora, deixava pegadas de fogo, marcava a pele com dentes e língua.
A lucidez, varria. A alma, lavava. A pele, ardia. O desejo, queimava.
Mordia o lábio, cravava as unhas, aguava o corpo.
Fazia chover, guardava o segredo, confessava pecados.
Descobria caminhos, invertia a ordem.
Enchia as taças, bebia o vinho e lambia o mel.
O sal do dia era esquecido, as lágrimas viravam suor.
Despudorava, enlouquecia.
De dia, vagava em território conhecido.
À noite, cavalgava sem destino.
E chegava ao seu lugar.
Quando amanhecia, guardava a noite.
De dia, anoitecia.
À noite, vivia.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
A VOLTA
Pois é. Mordi a língua.
Voltei a este espaço, em busca de escape.
Tenho vontade de escrever e como escrevo, basicamente, prá mim, pensei:
Quer saber, ninguém vai desconfiar que retomei o blog.
Voltei, mais para desentulhar as palavras que se aglomeravam em minha cabeça.
Gosto de reler o que escrevi, tentando retomar a emoção daquele momento.
Na maioria das vezes, me surpreendo negativamente, me pergunto: Como foi que escrevi isso? Por que? Que raio de exposição é essa?
Bem, me exponho à mim mesma, então...
A vida tem caminhado de uma maneira estranha e eu ando estranha.
Ando me estranhando com ela.
Viver tem sido um desafio, de uns tempos prá cá.
Não que eu reclame, nem tenho esse direito, a vida continua me dando o que eu preciso prá acrescentar entendimento, paciência, resiliência, aprendizado.
Mas ela podia me dar um refresco, de vez em quando.
Não sou uma pessoa de desistir, então vivo no eterno apanhar e prosseguir.
Por vezes, tenho vontade de me encolher e deixar a ventania passar, mas fico na vontade.
Turbilhões varreram minha vida em pouco tempo, um atrás do outro, e confesso, foi duro me manter em pé. Mas consegui, nem sei como.
Marcas sempre vão ficar, para o bem ou para o mal.
Mas, no balanço geral, ando fechando direito as colunas do haver e do dever.
Sei que deixei feridos pelo caminho, eu mesma ando coberta de hematomas existenciais.
Mas, fazendo a releitura dos últimos tempos, não reescreveria nada, faria tudo de novo.
O que me dá força prá continuar é que eu sei quem sou e o que suporto nesse corpinho e alma frágeis na aparência. Não sei o que quero, mas adquiri a certeza do que não quero.
E o que eu menos quero na vida é sofrer, sofrer é prá iniciante, eu sou senior e nesse estágio é mais fácil resolver qualquer pendenga.
Com essa consciência, consigo levantar de minha cama de zinco.
Tombos, acidentes, dificuldades, todos temos, não seria diferente comigo, a forma de lidar com eles é que é particular, de cada um.
Acho que, nesse aspecto, aprendi. Controlo a impulsividade e me dou um tempo para analisar o que seja melhor, não necessariamente o mais fácil.
Mas ando esperançada, sei que o melhor ainda está por vir. E virá!
Vida, louca vida, dizia Cazuza. E nesse hospício, não quero saber se sou a louca que se acha médica ou a médica que está enlouquecendo. Vou surtando, deixo a loucura me pegar de frente, porque os loucos tem a prerrogativa da doença mental.
E o que é a sanidade, senão uma loucura disfarçada?
Então...
Voltei, e espero que essa volta seja o reencontro com minha insanidade contida ou com minha lucidez escondida.
Voltei a este espaço, em busca de escape.
Tenho vontade de escrever e como escrevo, basicamente, prá mim, pensei:
Quer saber, ninguém vai desconfiar que retomei o blog.
Voltei, mais para desentulhar as palavras que se aglomeravam em minha cabeça.
Gosto de reler o que escrevi, tentando retomar a emoção daquele momento.
Na maioria das vezes, me surpreendo negativamente, me pergunto: Como foi que escrevi isso? Por que? Que raio de exposição é essa?
Bem, me exponho à mim mesma, então...
A vida tem caminhado de uma maneira estranha e eu ando estranha.
Ando me estranhando com ela.
Viver tem sido um desafio, de uns tempos prá cá.
Não que eu reclame, nem tenho esse direito, a vida continua me dando o que eu preciso prá acrescentar entendimento, paciência, resiliência, aprendizado.
Mas ela podia me dar um refresco, de vez em quando.
Não sou uma pessoa de desistir, então vivo no eterno apanhar e prosseguir.
Por vezes, tenho vontade de me encolher e deixar a ventania passar, mas fico na vontade.
Turbilhões varreram minha vida em pouco tempo, um atrás do outro, e confesso, foi duro me manter em pé. Mas consegui, nem sei como.
Marcas sempre vão ficar, para o bem ou para o mal.
Mas, no balanço geral, ando fechando direito as colunas do haver e do dever.
Sei que deixei feridos pelo caminho, eu mesma ando coberta de hematomas existenciais.
Mas, fazendo a releitura dos últimos tempos, não reescreveria nada, faria tudo de novo.
O que me dá força prá continuar é que eu sei quem sou e o que suporto nesse corpinho e alma frágeis na aparência. Não sei o que quero, mas adquiri a certeza do que não quero.
E o que eu menos quero na vida é sofrer, sofrer é prá iniciante, eu sou senior e nesse estágio é mais fácil resolver qualquer pendenga.
Com essa consciência, consigo levantar de minha cama de zinco.
Tombos, acidentes, dificuldades, todos temos, não seria diferente comigo, a forma de lidar com eles é que é particular, de cada um.
Acho que, nesse aspecto, aprendi. Controlo a impulsividade e me dou um tempo para analisar o que seja melhor, não necessariamente o mais fácil.
Mas ando esperançada, sei que o melhor ainda está por vir. E virá!
Vida, louca vida, dizia Cazuza. E nesse hospício, não quero saber se sou a louca que se acha médica ou a médica que está enlouquecendo. Vou surtando, deixo a loucura me pegar de frente, porque os loucos tem a prerrogativa da doença mental.
E o que é a sanidade, senão uma loucura disfarçada?
Então...
Voltei, e espero que essa volta seja o reencontro com minha insanidade contida ou com minha lucidez escondida.
terça-feira, 29 de maio de 2012
ÚLTIMA VIAGEM
À quem interessar possa.
Com essa pretensiosa introdução, despeço-me desse veículo.
É a última viagem que faço nesse trem-bala chamado blog.
Adorei passear por aqui, mas como tudo na vida é transitório, também meu blog padece desse mal.
Foi uma viagem inesquecível, daquelas que a gente lembra com carinho.
Escrevi o que via, percebia, sentia. Fiz um blog sem mentiras, do meu jeito. Mostrei meu avesso. Deixei fluir, em linguagem direta, sem rebuscados, histórias da vida real.
Mas como a vida real não dá IBOPE, e eu, infelizmente, não tenho o dom de iludir, entendi que o que escrevo não se encaixa no mundo virtual.
Vou continuar escrevendo, para mim e para quem gosta de saber o que penso, mas privadamente.
Talvez volte no tempo e mande cartas para velhos amigos, aqueles que sei o endereço de moradia.
Ainda gosto desse ritual.
Quem passou sem se deter, não se identificou, mas tentou. Obrigada.
Quem voltou, de vez em quando, veio buscar um pouco de realidade. Espero que tenha encontrado.
Quem frequentou com mais assiduidade, e quero deixar claro, pouquíssimos, conto em dois dedos da mão esquerda, que é a do coração, sabia quem eu era. E vai continuar sabendo.
Não tive seguidores, tive amigos e era para eles que escrevia. Todos próximos, conhecidos, mais que amados, reverenciados.
Tentei dar o melhor que podia, espero ter conseguido.
Convoquei todas as minhas personagens ao último vagão desse trem que agora parte, por uma razão: em vez de descermos na estação mais próxima e nos perdermos, ficaremos, juntas, em um desvio desativado da ferrovia. Há a possibilidade de sermos resgatadas em um livro.
Mas nosso vagão será desengatado do trem-bala.
O mundo virtual será a sociedade do futuro, onde não haverá necessidade de contato pessoal, onde tudo se resolverá pragmaticamente, sem envolvimento, sem emoção.
Viver é mais complicado.
Viver é perigoso, dizia, Guimarães Rosa!
Viver é etcetera, ele, de novo!
E é esse etcetera que me interessa.
As relações interpessoais serão substituídas por telas, onde as pessoas se apresentarão e interagirão por webcam. Ninguém precisará sair de casa para se relacionar com alguém.
Como será beijar virtualmente? Beijo tem encaixe, movimento, gosto. Mas, como tudo é possível, talvez inventem uma ferramenta que reproduzirá essas sensações.
Não sei amar por webcam, nem fazer amigos, assim.
Não me considero capaz de escolher, entre milhares de fotos, aquele que vou ter como amigo.
Não evolui à ponto de me privar do contato pessoal, do toque, do olhar.
Sinto falta do junto, chorar junto, sorrir junto, brincar junto, só assim faz sentido.
Então, como me considero inapropriada para frequentar esse ambiente... os incomodados que se retirem!
Agradeço muitíssimo à quem se interessou pelo que eu tinha a dizer.
Quem sabe esses são, também, órfãos da vida real. Ou nostálgicos. Ou arqueólogos de emoções, nem tão antigas, assim.
Mas chegou a hora de desengatar esse último vagão, aquele que sobrecarregava, inutilmente, essa moderna locomotiva.
Essa foi a última viagem.
É hora do adeus.
Com essa pretensiosa introdução, despeço-me desse veículo.
É a última viagem que faço nesse trem-bala chamado blog.
Adorei passear por aqui, mas como tudo na vida é transitório, também meu blog padece desse mal.
Foi uma viagem inesquecível, daquelas que a gente lembra com carinho.
Escrevi o que via, percebia, sentia. Fiz um blog sem mentiras, do meu jeito. Mostrei meu avesso. Deixei fluir, em linguagem direta, sem rebuscados, histórias da vida real.
Mas como a vida real não dá IBOPE, e eu, infelizmente, não tenho o dom de iludir, entendi que o que escrevo não se encaixa no mundo virtual.
Vou continuar escrevendo, para mim e para quem gosta de saber o que penso, mas privadamente.
Talvez volte no tempo e mande cartas para velhos amigos, aqueles que sei o endereço de moradia.
Ainda gosto desse ritual.
Quem passou sem se deter, não se identificou, mas tentou. Obrigada.
Quem voltou, de vez em quando, veio buscar um pouco de realidade. Espero que tenha encontrado.
Quem frequentou com mais assiduidade, e quero deixar claro, pouquíssimos, conto em dois dedos da mão esquerda, que é a do coração, sabia quem eu era. E vai continuar sabendo.
Não tive seguidores, tive amigos e era para eles que escrevia. Todos próximos, conhecidos, mais que amados, reverenciados.
Tentei dar o melhor que podia, espero ter conseguido.
Convoquei todas as minhas personagens ao último vagão desse trem que agora parte, por uma razão: em vez de descermos na estação mais próxima e nos perdermos, ficaremos, juntas, em um desvio desativado da ferrovia. Há a possibilidade de sermos resgatadas em um livro.
Mas nosso vagão será desengatado do trem-bala.
O mundo virtual será a sociedade do futuro, onde não haverá necessidade de contato pessoal, onde tudo se resolverá pragmaticamente, sem envolvimento, sem emoção.
Viver é mais complicado.
Viver é perigoso, dizia, Guimarães Rosa!
Viver é etcetera, ele, de novo!
E é esse etcetera que me interessa.
As relações interpessoais serão substituídas por telas, onde as pessoas se apresentarão e interagirão por webcam. Ninguém precisará sair de casa para se relacionar com alguém.
Como será beijar virtualmente? Beijo tem encaixe, movimento, gosto. Mas, como tudo é possível, talvez inventem uma ferramenta que reproduzirá essas sensações.
Não sei amar por webcam, nem fazer amigos, assim.
Não me considero capaz de escolher, entre milhares de fotos, aquele que vou ter como amigo.
Não evolui à ponto de me privar do contato pessoal, do toque, do olhar.
Sinto falta do junto, chorar junto, sorrir junto, brincar junto, só assim faz sentido.
Então, como me considero inapropriada para frequentar esse ambiente... os incomodados que se retirem!
Agradeço muitíssimo à quem se interessou pelo que eu tinha a dizer.
Quem sabe esses são, também, órfãos da vida real. Ou nostálgicos. Ou arqueólogos de emoções, nem tão antigas, assim.
Mas chegou a hora de desengatar esse último vagão, aquele que sobrecarregava, inutilmente, essa moderna locomotiva.
Essa foi a última viagem.
É hora do adeus.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
CURTO CIRCUITO
Que nome dar ao que sinto?
Que coisa que desaquieta deve de ter nome.
Como chamar esse tic tac na cabeça,
bomba armada com precisão de tempo?
Meu coração taquicardiado, precisa de explicação.
Se desse nome ao que sinto, daria definição.
Meu sangue se aligeira na veia, corre sem destino,
depressa demais pro meu entendimento.
Meu corpo tenso,
procura essa palavra que vai trazer a descontração.
Mas que palavra é essa que me falta?
Quais letras tem precisão de dar as mãos e formar a resposta?
No vasto leque de emoções, a todas já dei nome.
Nenhuma é a que sinto.
Olho prá frente e enxergo o dentro, isso tem que ter nome.
Sigo adiante, em linha reta, mas meu eu ziguezagueia prá trás,
vivo voltando ao antes.
Apuro os ouvidos, meu escutar está fraco, só escuta uma voz.
Essa, sim, tem nome.
Mas não é desse nome que falo,
esse eu já sei quem é.
Sei que quem provocou esse sem nome,
foi esse que nome tem.
Tudo foge ao meu controlar,
preciso achar esse nome,
esse oculto, esse que vai clarear.
Esse nome escapa do dicionário,
que já li que nem bula de remédio.
Procurei nas entrelinhas, nos efeitos colaterais,
esse nome se esconde só prá me agoniar.
Minha pele me rejeita,
não quer o meu tocar.
Minha boca não se abre ao falar,
falo com o pensamento, ninguém consegue escutar.
E tanto pensamento, não consigo dar vazão,
eles embaralham as idéias,
vão prá lá e se arrependem,
voltam prá cá e não se entendem.
Andam brigando por espaço,
amontoadas em meu pensar.
Meu entendimento está sem pernas, não avança,
desaprendeu a lógica.
Que a lógica só vai voltar,
quando o nome que busco, descobrir minha cabeça.
Acho que esse nome se perdeu dentro de alguma gaveta
ou entre as dobras da coberta em que me escondo de mim.
Se eu não achar esse nome, se ele se perder do meu sentir,
se o nome que sei, não der nome ao que eu não sei,
então sou caso perdido.
Vou ter que viver com o achamento
que essa coisa sem nome só acontece em mim,
porisso nem nome tem.
Então, vou batizar o sem nome com o teu.
Aí, o sentimento vai ter definhação.
Que coisa que desaquieta deve de ter nome.
Como chamar esse tic tac na cabeça,
bomba armada com precisão de tempo?
Meu coração taquicardiado, precisa de explicação.
Se desse nome ao que sinto, daria definição.
Meu sangue se aligeira na veia, corre sem destino,
depressa demais pro meu entendimento.
Meu corpo tenso,
procura essa palavra que vai trazer a descontração.
Mas que palavra é essa que me falta?
Quais letras tem precisão de dar as mãos e formar a resposta?
No vasto leque de emoções, a todas já dei nome.
Nenhuma é a que sinto.
Olho prá frente e enxergo o dentro, isso tem que ter nome.
Sigo adiante, em linha reta, mas meu eu ziguezagueia prá trás,
vivo voltando ao antes.
Apuro os ouvidos, meu escutar está fraco, só escuta uma voz.
Essa, sim, tem nome.
Mas não é desse nome que falo,
esse eu já sei quem é.
Sei que quem provocou esse sem nome,
foi esse que nome tem.
Tudo foge ao meu controlar,
preciso achar esse nome,
esse oculto, esse que vai clarear.
Esse nome escapa do dicionário,
que já li que nem bula de remédio.
Procurei nas entrelinhas, nos efeitos colaterais,
esse nome se esconde só prá me agoniar.
Minha pele me rejeita,
não quer o meu tocar.
Minha boca não se abre ao falar,
falo com o pensamento, ninguém consegue escutar.
E tanto pensamento, não consigo dar vazão,
eles embaralham as idéias,
vão prá lá e se arrependem,
voltam prá cá e não se entendem.
Andam brigando por espaço,
amontoadas em meu pensar.
Meu entendimento está sem pernas, não avança,
desaprendeu a lógica.
Que a lógica só vai voltar,
quando o nome que busco, descobrir minha cabeça.
Acho que esse nome se perdeu dentro de alguma gaveta
ou entre as dobras da coberta em que me escondo de mim.
Se eu não achar esse nome, se ele se perder do meu sentir,
se o nome que sei, não der nome ao que eu não sei,
então sou caso perdido.
Vou ter que viver com o achamento
que essa coisa sem nome só acontece em mim,
porisso nem nome tem.
Então, vou batizar o sem nome com o teu.
Aí, o sentimento vai ter definhação.
ENQUANTO VOCÊ DORME
Enquanto você dorme, eu ardo. Ao seu lado, em vigília, ardo.
O sono faz com que você abandone a alma. Eu, Mefistófelis à espreita, quero possui-la.
Você, desprotegido, inconsciente, passeia em sonhos, sorri. Prá quem? me pergunto.
Enquanto você dorme, se afasta. Me deixa seu corpo indefeso e eu quero seus pensamentos.
Enquanto você descansa, me esquece. Eu não durmo para não te perder.
Enquanto você dorme, eu amo. Amo a respiração pesada, o corpo vulnerável, os movimentos espontâneos. Amo você, enquanto você dorme.
Queria poder entrar em seus sonhos, ser a protagonista de todos eles. Queria viver dentro deles, dentro de você.
Queria que fossemos um, assim, eu poderia dormir.
Sonharíamos o mesmo sonho, juntos, abandonaríamos a alma, que seria uma só.
Mas, enquanto você dorme, eu velo seu sono, esperando seu despertar.
E quando você despertar, eu poderei, finalmente, dormir.
Porque nos meus sonhos, sei que vou te encontrar.
O sono faz com que você abandone a alma. Eu, Mefistófelis à espreita, quero possui-la.
Você, desprotegido, inconsciente, passeia em sonhos, sorri. Prá quem? me pergunto.
Enquanto você dorme, se afasta. Me deixa seu corpo indefeso e eu quero seus pensamentos.
Enquanto você descansa, me esquece. Eu não durmo para não te perder.
Enquanto você dorme, eu amo. Amo a respiração pesada, o corpo vulnerável, os movimentos espontâneos. Amo você, enquanto você dorme.
Queria poder entrar em seus sonhos, ser a protagonista de todos eles. Queria viver dentro deles, dentro de você.
Queria que fossemos um, assim, eu poderia dormir.
Sonharíamos o mesmo sonho, juntos, abandonaríamos a alma, que seria uma só.
Mas, enquanto você dorme, eu velo seu sono, esperando seu despertar.
E quando você despertar, eu poderei, finalmente, dormir.
Porque nos meus sonhos, sei que vou te encontrar.
CLANDESTINO
A varanda era grande, com sofás confortáveis, mesas espalhadas, plantas e flores bem distribuídas.
Tinha balanços, desses bem antigos, que remetem à vida de fazenda, à simplicidade da existência.
Tinha velas que ela acendia à noite, luzes trêmulas acompanhando o pisca-pisca dos vagalumes.
Tinha a paisagem exuberante, vales, matas, lagos, montanhas.
Tinha a privacidade da distância de quilômetros, até o vizinho mais próximo.
Tinha a quietude quebrada somente por aves, micos, cães e gatos.
Tinha um céu azul , imaculado, durante o dia e uma tenda negra com luzes minúsculas, durante a noite.
Tinha a companhia de livros escolhidos, para espantar a solidão.
E de música erudita, para não quebrar a harmonia.
Tinha alimento e coberta que aqueciam o estômago e o corpo.
As noites eram geladas, naquela varanda, mas ela não se importava, gostava de frio.
Se enroscava em uma grossa manta de lã, encolhia-se no canto do sofá e deixava-se abraçar pela paz. Sentia-se parte da natureza.
Quando seus olhos cansavam de tanta beleza, fechava-os, assim a retinha na memória.
Apagando a imagem, apreende-se o significado.
E, como a lente de uma máquina, abria e fechava os olhos, captava a foto do instante fugaz.
Passava os dias caminhando com seu cão, única companhia e ouvinte, seus segredos bem guardados por um animal. Trocava afagos por lambidas de gratidão.
Quando cansava, sentava em uma pedra, tirava as botas e pisava na vegetação, buscando energia naquele solo úmido e frio.
O tempo escorria por si, passava sem chance de retornar. Tempo é a única coisa na vida que não volta.
Deitava sobre a pedra e olhava aquele céu, a luminosidade cegava.
Seu cãozinho aconchegava-se, não sei se aquecendo à si mesmo ou à ela.
Nos dias mais quentes, banhava-se nua na cachoeira que formava uma bacia. Ali, podia nadar.
Seu corpo se mostrava vivo, arrepiava-se com o choque térmico, um misto de desconforto e prazer.
Descargas elétricas a faziam tremer, mergulhava e, de olhos abertos, via o nada em volta.
Emergia, buscava o ar, expandia os pulmões, respirava a pureza.
Então, se tocava, se acariciava, fantasiava que mãos conhecidas e não as suas, desbravavam seu corpo, conquistavam seu mais íntimo recanto, implodiam suas defesas, explodiam suas represas e faziam jorrar sua fonte de prazer.
Em um desses dias, voltou à casa com o corpo acalmado, mas uma inquietude interior não a deixava sossegar.
À noite, sozinha naquela imensidão, lembranças invadiram seu refúgio, fantasmas assombraram, perguntas assolaram e a falta pesou, soterrou o coração em fuga. Não havia mais onde se esconder.
Passara todo esse tempo, tentando esquecer de si mesma, dele, da dor da separação.
Tentara se bastar, fugindo da tentação de voltar.
Acreditara que a distância se encarregaria de suavizar a perda.
Toda essa beleza e paz em volta e nunca se sentira tão infeliz.
Adormeceu sob um luar deslumbrante, inapropriado para o momento.
No dia seguinte, enquanto tentava livrar-se da ressaca emocional, sentiu a inutilidade de se esconder, de embriagar-se.
Dois telefonemas bastaram prá que o coração disparasse desgovernado. Telefonemas inesperados, descuidados, provocaram à volta ao lugar inicial.
Atordoada, despreparada, surpreendida, sentou no balanço e, como uma criança, se acalentou, abraçando o que restou dele: um casaco que viajou clandestino em seu carro. Esquecido, como ela.
Tinha balanços, desses bem antigos, que remetem à vida de fazenda, à simplicidade da existência.
Tinha velas que ela acendia à noite, luzes trêmulas acompanhando o pisca-pisca dos vagalumes.
Tinha a paisagem exuberante, vales, matas, lagos, montanhas.
Tinha a privacidade da distância de quilômetros, até o vizinho mais próximo.
Tinha a quietude quebrada somente por aves, micos, cães e gatos.
Tinha um céu azul , imaculado, durante o dia e uma tenda negra com luzes minúsculas, durante a noite.
Tinha a companhia de livros escolhidos, para espantar a solidão.
E de música erudita, para não quebrar a harmonia.
Tinha alimento e coberta que aqueciam o estômago e o corpo.
As noites eram geladas, naquela varanda, mas ela não se importava, gostava de frio.
Se enroscava em uma grossa manta de lã, encolhia-se no canto do sofá e deixava-se abraçar pela paz. Sentia-se parte da natureza.
Quando seus olhos cansavam de tanta beleza, fechava-os, assim a retinha na memória.
Apagando a imagem, apreende-se o significado.
E, como a lente de uma máquina, abria e fechava os olhos, captava a foto do instante fugaz.
Passava os dias caminhando com seu cão, única companhia e ouvinte, seus segredos bem guardados por um animal. Trocava afagos por lambidas de gratidão.
Quando cansava, sentava em uma pedra, tirava as botas e pisava na vegetação, buscando energia naquele solo úmido e frio.
O tempo escorria por si, passava sem chance de retornar. Tempo é a única coisa na vida que não volta.
Deitava sobre a pedra e olhava aquele céu, a luminosidade cegava.
Seu cãozinho aconchegava-se, não sei se aquecendo à si mesmo ou à ela.
Nos dias mais quentes, banhava-se nua na cachoeira que formava uma bacia. Ali, podia nadar.
Seu corpo se mostrava vivo, arrepiava-se com o choque térmico, um misto de desconforto e prazer.
Descargas elétricas a faziam tremer, mergulhava e, de olhos abertos, via o nada em volta.
Emergia, buscava o ar, expandia os pulmões, respirava a pureza.
Então, se tocava, se acariciava, fantasiava que mãos conhecidas e não as suas, desbravavam seu corpo, conquistavam seu mais íntimo recanto, implodiam suas defesas, explodiam suas represas e faziam jorrar sua fonte de prazer.
Em um desses dias, voltou à casa com o corpo acalmado, mas uma inquietude interior não a deixava sossegar.
À noite, sozinha naquela imensidão, lembranças invadiram seu refúgio, fantasmas assombraram, perguntas assolaram e a falta pesou, soterrou o coração em fuga. Não havia mais onde se esconder.
Passara todo esse tempo, tentando esquecer de si mesma, dele, da dor da separação.
Tentara se bastar, fugindo da tentação de voltar.
Acreditara que a distância se encarregaria de suavizar a perda.
Toda essa beleza e paz em volta e nunca se sentira tão infeliz.
Adormeceu sob um luar deslumbrante, inapropriado para o momento.
No dia seguinte, enquanto tentava livrar-se da ressaca emocional, sentiu a inutilidade de se esconder, de embriagar-se.
Dois telefonemas bastaram prá que o coração disparasse desgovernado. Telefonemas inesperados, descuidados, provocaram à volta ao lugar inicial.
Atordoada, despreparada, surpreendida, sentou no balanço e, como uma criança, se acalentou, abraçando o que restou dele: um casaco que viajou clandestino em seu carro. Esquecido, como ela.
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