Me despia com o olhar.
Encostava os lábios em meu pescoço, eu tombava a cabeça.
Soltava meus cabelos e sussurava em meu ouvido: te amo.
Meu corpo respondia: sou tua.
Abraçava-o, encostava meu rosto em seus ombros, meu coração batia em seu peito.
Tirávamos devagar as roupas, um do outro, enquanto acariciávamos cada centímetro que era desnudado.
Pegava-me no colo, eu envolvia sua cintura com minhas pernas.
Rodopiávamos, assim abraçados e ríamos. E nos beijávamos.
De olhos abertos, olhando o dentro, procurando os segredos escondidos no fundo dos olhos.
E íamos mais fundo no dentro do outro, até sermos um dentro do outro.
Pelos olhos se começa a paixão, depois se espalha pelo corpo todo.
Teu mapa, percorria com minha boca, tua língua percorria o meu.
Tuas mãos em concha sobre meus seios, minhas mãos prendiam teus braços.
Teus dedos acariciavam minha pele, provocavam arrepios e inundações.
Enquanto me beijavas os seios, te beijava a cabeça.
Enquanto te beijava o ventre, me beijavas as costas.
Nossas narinas dilatavam, nossa respiração acelerava.
Nossos corpos trocavam calor, nossas línguas trocavam desejos.
Tinhamos a intimidade dos despudorados, tinhamos a delicadeza dos tímidos.
Tinhamos a generosidade do afeto, tinhamos a fúria da urgência.
Provávamos nossos gostos, sentíamos nossos cheiros, trincávamos os dentes e ríamos. Ríamos muito, juntos.
Meu coração batia por todo meu corpo, teu coração batia dentro de mim, éramos um só corpo, um só coração, uma só vida e um só instante de eternidade.
Sentia teu prazer, me davas o meu. Nos beijávamos, felizes, esgotados.
E o mundo parava, testemunhando a completude de nosso amor.
Abria os olhos prá te ver, hoje, fecho-os prá te lembrar.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
PAS DE UN
Um, dois... vinte e oito... setenta e nove...mil e seis...mil trezentos e quarenta e três...dois mil novecentos e noventa e nove, três mil carneirinhos contados em, aproximadamente, vinte e sete minutos. E nada do maldito sono aparecer.
Esses carneirinhos atrapalharam, não conseguia parar de contar!
Via-os pulando a cerquinha, um a um, em fileira.
O três mil e um já estava à postos quando abri os olhos e disse: chega, assim já é demais!
O pobre deve ter ficado congelado no salto abortado.
Me senti culpada por não ter dado à ele a chance de se exibir.
Acho que a falta de sono está me deixando maluca, me sentir culpada por um carneiro imaginado!
Olho o relógio pela milionésima vez e só passaram dois minutos desde a última olhada.
Levanto da cama, pego um livro chatérrimo e uma cerveja gelada.
Já que não bebo, o efeito seria rápido: livro porcaria + cerveja= sono instantâneo.
Cheguei à página oitenta, bebi duas cervejas e não aconteceu absolutamente nada.
Resolvo dançar, cansar o corpo. Coloco "O lago dos cisnes", calço minhas sapatilhas de ponta, já que fui bailarina. Minha memória corporal me traz de volta, pliés, jetés, fouetés, pas de burres, pas de chats, piruetas, arabesques. Meus braços e pernas adquirem vida própria. E danço "O Quebra Nozes", "Copélia", coreografias memorizadas. Meu corpo excitado responde com adrenalina e danço como se não houvesse amanhã. Suo, alongo, tiro as sapatilhas e massageio meus pés. Poder dançar, depois de tantos anos, o corpo obedecer, sem muita dificuldade, me alegra. E alegria, vocês sabem, tira o sono. Má idéia testar capacidade física nessa hora.
Tomo um banho quente, pelando, dizem que ajuda...aos outros, seres normais. Eu, como sou anormal, só consegui ficar cheirosa. Menos mal. Gosto de mim cheirosa. E eu estava insuportávelmente cheirosa.
Não aguentei ficar em casa, tinha que sair.
Me preparei como se fosse a uma festa. Me maquiei, prendi os cabelos, botei meu vestido vermelho, colado ao corpo, saltos altos, perfume suave, entrei no carro, música em alto volume, janelas abertas, senti o frescor da noite.
Respirei profundamente, exalei suavemente o ar quente que saia de minha boca. Beijei a noite.
Rodei um bom tempo, na solidão da alta madrugada.
Tão bom ter a cidade só prá mim. Ruas vazias, nenhum trânsito.
O dia começava a amanhecer, a cidade estava prestes a despertar, hora de voltar.
Entro em casa com as sandálias balançando em dois dedos, afago meu cachorro, tomo café, tiro a maquiagem, o vestido e nua, me deito. As cobertas me envolvem, me aquecem, me acariciam.
Engano o sono, atrasando o relógio. Voltei à uma hora da manhã, roubei cinco horas do tempo.
Não perdi o sono, ganhei uma noite de puro prazer, solitário, é verdade, mas não se pode ter tudo.
Esses carneirinhos atrapalharam, não conseguia parar de contar!
Via-os pulando a cerquinha, um a um, em fileira.
O três mil e um já estava à postos quando abri os olhos e disse: chega, assim já é demais!
O pobre deve ter ficado congelado no salto abortado.
Me senti culpada por não ter dado à ele a chance de se exibir.
Acho que a falta de sono está me deixando maluca, me sentir culpada por um carneiro imaginado!
Olho o relógio pela milionésima vez e só passaram dois minutos desde a última olhada.
Levanto da cama, pego um livro chatérrimo e uma cerveja gelada.
Já que não bebo, o efeito seria rápido: livro porcaria + cerveja= sono instantâneo.
Cheguei à página oitenta, bebi duas cervejas e não aconteceu absolutamente nada.
Resolvo dançar, cansar o corpo. Coloco "O lago dos cisnes", calço minhas sapatilhas de ponta, já que fui bailarina. Minha memória corporal me traz de volta, pliés, jetés, fouetés, pas de burres, pas de chats, piruetas, arabesques. Meus braços e pernas adquirem vida própria. E danço "O Quebra Nozes", "Copélia", coreografias memorizadas. Meu corpo excitado responde com adrenalina e danço como se não houvesse amanhã. Suo, alongo, tiro as sapatilhas e massageio meus pés. Poder dançar, depois de tantos anos, o corpo obedecer, sem muita dificuldade, me alegra. E alegria, vocês sabem, tira o sono. Má idéia testar capacidade física nessa hora.
Tomo um banho quente, pelando, dizem que ajuda...aos outros, seres normais. Eu, como sou anormal, só consegui ficar cheirosa. Menos mal. Gosto de mim cheirosa. E eu estava insuportávelmente cheirosa.
Não aguentei ficar em casa, tinha que sair.
Me preparei como se fosse a uma festa. Me maquiei, prendi os cabelos, botei meu vestido vermelho, colado ao corpo, saltos altos, perfume suave, entrei no carro, música em alto volume, janelas abertas, senti o frescor da noite.
Respirei profundamente, exalei suavemente o ar quente que saia de minha boca. Beijei a noite.
Rodei um bom tempo, na solidão da alta madrugada.
Tão bom ter a cidade só prá mim. Ruas vazias, nenhum trânsito.
O dia começava a amanhecer, a cidade estava prestes a despertar, hora de voltar.
Entro em casa com as sandálias balançando em dois dedos, afago meu cachorro, tomo café, tiro a maquiagem, o vestido e nua, me deito. As cobertas me envolvem, me aquecem, me acariciam.
Engano o sono, atrasando o relógio. Voltei à uma hora da manhã, roubei cinco horas do tempo.
Não perdi o sono, ganhei uma noite de puro prazer, solitário, é verdade, mas não se pode ter tudo.
domingo, 27 de maio de 2012
À MINHA IRMÃ
Era linda.
Sempre chamou atenção pela beleza. Beleza clássica, incomum.
Mas era triste, de uma tristeza que doía em quem a conhecia.
Nunca soube o que fazer da vida, não aprendeu a ser.
Era grande, alta e larga, e tão pequena, desprotegida.
Tentava não ocupar espaço, tentava ser invisível.
Não queria contaminar os outros com sua dor.
Dor existencial, dor de tanta solidão.
Amava tudo, amava todos, não escolhia, amava.
Se foi amada, nunca soube, nunca ouviu.
Era generosa, doava-se, talvez na intenção de sair de si, de viver no outro.
Ria e se escondia no riso, forçava felicidade.
Gostava de sair, esperando esbarrar em possibilidades, pequenas que fossem.
Fantasiava com essa vida emprestada.
-Quando eu for..., quando eu tiver..., quando eu puder..., e outros quandos que nunca vieram.
Nunca, foi seu quando.
Atava-se às filhas prá não ficar à deriva.
Dava todo seu amor estocado à elas, à neta, aos amigos, à família.
Perdia sua identidade, mesclava-se, sumia.
Tinha essa beleza triste, sofrida, machucada por tanto nada que teve.
Seus olhos mostravam a descrença, poucas vezes brilharam.
Perdeu tempo, contando os dias.
Perdeu dias, contando as horas de inquietação.
Perdeu horas tentando entender onde estava seu erro.
E seu erro era não acreditar que merecia ser feliz.
Era, essencialmente boa, uma bondade que chegava a incomodar.
Acreditava em tudo e a todos perdoava, herança paterna.
Carregava-se como um fardo, pesava-lhe existir.
Se despediu da vida assim que nasceu, nenhum mistério nisso, nos dirigimos à morte desde que saímos do ventre materno.
Mas tentamos sobreviver com planos, metas, sonhos. Ela, não.
Fingia com seus "quando" que estava presente à vida.
Tinha uma melancolia atávica, entranhada em seu DNA.
E de dor em dor, dia após dia, esperou.
Esperou o amor, o abraço, o aconchego, esperou o sentido de sua vida.
E a vida passou por ela sem notar sua presença.
Sempre chamou atenção pela beleza. Beleza clássica, incomum.
Mas era triste, de uma tristeza que doía em quem a conhecia.
Nunca soube o que fazer da vida, não aprendeu a ser.
Era grande, alta e larga, e tão pequena, desprotegida.
Tentava não ocupar espaço, tentava ser invisível.
Não queria contaminar os outros com sua dor.
Dor existencial, dor de tanta solidão.
Amava tudo, amava todos, não escolhia, amava.
Se foi amada, nunca soube, nunca ouviu.
Era generosa, doava-se, talvez na intenção de sair de si, de viver no outro.
Ria e se escondia no riso, forçava felicidade.
Gostava de sair, esperando esbarrar em possibilidades, pequenas que fossem.
Fantasiava com essa vida emprestada.
-Quando eu for..., quando eu tiver..., quando eu puder..., e outros quandos que nunca vieram.
Nunca, foi seu quando.
Atava-se às filhas prá não ficar à deriva.
Dava todo seu amor estocado à elas, à neta, aos amigos, à família.
Perdia sua identidade, mesclava-se, sumia.
Tinha essa beleza triste, sofrida, machucada por tanto nada que teve.
Seus olhos mostravam a descrença, poucas vezes brilharam.
Perdeu tempo, contando os dias.
Perdeu dias, contando as horas de inquietação.
Perdeu horas tentando entender onde estava seu erro.
E seu erro era não acreditar que merecia ser feliz.
Era, essencialmente boa, uma bondade que chegava a incomodar.
Acreditava em tudo e a todos perdoava, herança paterna.
Carregava-se como um fardo, pesava-lhe existir.
Se despediu da vida assim que nasceu, nenhum mistério nisso, nos dirigimos à morte desde que saímos do ventre materno.
Mas tentamos sobreviver com planos, metas, sonhos. Ela, não.
Fingia com seus "quando" que estava presente à vida.
Tinha uma melancolia atávica, entranhada em seu DNA.
E de dor em dor, dia após dia, esperou.
Esperou o amor, o abraço, o aconchego, esperou o sentido de sua vida.
E a vida passou por ela sem notar sua presença.
ALERTA
Insônia,
inapetência,
taquicardia,
ansiedade,
pensamento obsessivo,
sudorese,
estômago habitado por borboletas,
tensão,
stress.
Definitivamente, amar faz mal à saúde.
inapetência,
taquicardia,
ansiedade,
pensamento obsessivo,
sudorese,
estômago habitado por borboletas,
tensão,
stress.
Definitivamente, amar faz mal à saúde.
COMIGO ME DESAVIM
Andei brigada comigo. Me desaforando. Me chamando prá briga.
Estava de mal comigo. Me dei os dedos mindinhos, como quando era criança e trocava de mal com o amigo.
Não me olhava no espelho, não queria nem ver a minha cara.
Me chateei comigo, me disse coisas bem rudes e nem me desculpei.
Me chamei de burra, eu que sou até inteligente.
Me destratei, me xinguei, me aborreci prá valer, comigo.
Esqueci que sou minha amiga e me falei verdades cruas.
Me disse: quem é você prá acreditar no amor? Você já passou da idade!
Me respondi: mas amor tem idade prá acontecer?
E me falei, sem piedade: isso é coisa de gente jovem! Repara nas suas rugas.
Não bastava me repreender, tinha que me derrubar.
Briguei comigo porque me aventurei no amor, acreditei ser possível que alguém me amasse.
- Pera lá, me disse. Com tanta mulher bonita, jovem, esperando pelo amor, você realmente acredita que vai acontecer com você?
Tímidamente, me respondi: por que, não? O amor não escolhe, surpreende.
Me olhei com cenho franzido, e de minha boca sairam palavras que me atingiram o estômago como um soco.
- Você se ilude. Coisa de mulher de meia idade. Quer se sentir viva prá enganar a morte!
Confesso, baqueei.
Era isso que tínhamos? Pretexto prá tentar negociar com a morte? Últimos estertores? Último desejo? Extrema unção?
Tentei reagir, me dizendo que: não, não foi isso que eu tive, não pode ter sido só isso!
Me ataquei, de novo: deixe de ser besta, você foi usada e descartada. Rei morto, rei posto! Alguma dúvida? Aposto que, nesse momento, outra já tomou o seu lugar. Existem milhões como você, disponíveis, loucas prá serem enganadas, prá acreditarem que são especiais. Burra!
Me esfreguei na cara a impossibilidade de ser recortada e destacada na vida de alguém.
Briguei comigo, já nem sabia quem era a que atacava ou a que defendia. Era eu, comigo, misturando papéis. Saí no tapa. Desferi golpes baixos, chutei minhas canelas, me puxei pelos cabelos.
Me cobri de hematomas, sangrei meus lábios, feri meus brios e arrebentei meu amor próprio.
Fui ré e juíza, vítima e algoz, me embaralhei comigo.
Passei uma semana sem me falar, por fim achei que aquela desavença tinha que acabar.
Me procurei prá conversar comigo.
De início me fiz de ofendida, relutei em aceitar as pazes.
Tinha me dito coisa cruéis, me descuidei da delicadeza que podia ter tido, me tratei como uma qualquer, e não sou, sou eu, tinha que ter me tratado com mais cuidado. Me bati e apanhei de mim, perdi a elegância, perdi as estribeiras, perdi o juízo.
Fui ao espelho, me olhei dentro dos olhos, fixamente, me encarei sem máscara, sem defesa, éramos eu e eu mesma, nos reencontrando.
Me disse: ele dizia que meus olhos era o que ele mais gostava em mim.
Me respondi: porque você o enxergava, de verdade.
Falei-me: não me maltrate, me ajude. Ainda dói.
Toquei meu rosto refletido no espelho, me acariciei e chorei comigo.
Você tinha razão, me disse. Eu quis sonhar, voar alto, esquecer de mim, me entregar.
Me abracei e me perdoei por ter sido, por algum tempo, a mentira que criei prá mim.
Ainda estou estremecida comigo, juntando os pedaços que arranquei de mim.
Mas vou sair das cordas, da lona, do ringue.
E quando estiver inteira, vou viajar comigo.
Me prometi não me trair nunca mais, me comprometi a recolher e guardar as asas que achei que me pertenciam.
Hoje eu sei que asas são prá pássaros, gente como eu, que não pode voar, tem que cuidar do chão onde pisa e evitar escorregões.
Na minha idade, posso quebrar o fêmur!
Estava de mal comigo. Me dei os dedos mindinhos, como quando era criança e trocava de mal com o amigo.
Não me olhava no espelho, não queria nem ver a minha cara.
Me chateei comigo, me disse coisas bem rudes e nem me desculpei.
Me chamei de burra, eu que sou até inteligente.
Me destratei, me xinguei, me aborreci prá valer, comigo.
Esqueci que sou minha amiga e me falei verdades cruas.
Me disse: quem é você prá acreditar no amor? Você já passou da idade!
Me respondi: mas amor tem idade prá acontecer?
E me falei, sem piedade: isso é coisa de gente jovem! Repara nas suas rugas.
Não bastava me repreender, tinha que me derrubar.
Briguei comigo porque me aventurei no amor, acreditei ser possível que alguém me amasse.
- Pera lá, me disse. Com tanta mulher bonita, jovem, esperando pelo amor, você realmente acredita que vai acontecer com você?
Tímidamente, me respondi: por que, não? O amor não escolhe, surpreende.
Me olhei com cenho franzido, e de minha boca sairam palavras que me atingiram o estômago como um soco.
- Você se ilude. Coisa de mulher de meia idade. Quer se sentir viva prá enganar a morte!
Confesso, baqueei.
Era isso que tínhamos? Pretexto prá tentar negociar com a morte? Últimos estertores? Último desejo? Extrema unção?
Tentei reagir, me dizendo que: não, não foi isso que eu tive, não pode ter sido só isso!
Me ataquei, de novo: deixe de ser besta, você foi usada e descartada. Rei morto, rei posto! Alguma dúvida? Aposto que, nesse momento, outra já tomou o seu lugar. Existem milhões como você, disponíveis, loucas prá serem enganadas, prá acreditarem que são especiais. Burra!
Me esfreguei na cara a impossibilidade de ser recortada e destacada na vida de alguém.
Briguei comigo, já nem sabia quem era a que atacava ou a que defendia. Era eu, comigo, misturando papéis. Saí no tapa. Desferi golpes baixos, chutei minhas canelas, me puxei pelos cabelos.
Me cobri de hematomas, sangrei meus lábios, feri meus brios e arrebentei meu amor próprio.
Fui ré e juíza, vítima e algoz, me embaralhei comigo.
Passei uma semana sem me falar, por fim achei que aquela desavença tinha que acabar.
Me procurei prá conversar comigo.
De início me fiz de ofendida, relutei em aceitar as pazes.
Tinha me dito coisa cruéis, me descuidei da delicadeza que podia ter tido, me tratei como uma qualquer, e não sou, sou eu, tinha que ter me tratado com mais cuidado. Me bati e apanhei de mim, perdi a elegância, perdi as estribeiras, perdi o juízo.
Fui ao espelho, me olhei dentro dos olhos, fixamente, me encarei sem máscara, sem defesa, éramos eu e eu mesma, nos reencontrando.
Me disse: ele dizia que meus olhos era o que ele mais gostava em mim.
Me respondi: porque você o enxergava, de verdade.
Falei-me: não me maltrate, me ajude. Ainda dói.
Toquei meu rosto refletido no espelho, me acariciei e chorei comigo.
Você tinha razão, me disse. Eu quis sonhar, voar alto, esquecer de mim, me entregar.
Me abracei e me perdoei por ter sido, por algum tempo, a mentira que criei prá mim.
Ainda estou estremecida comigo, juntando os pedaços que arranquei de mim.
Mas vou sair das cordas, da lona, do ringue.
E quando estiver inteira, vou viajar comigo.
Me prometi não me trair nunca mais, me comprometi a recolher e guardar as asas que achei que me pertenciam.
Hoje eu sei que asas são prá pássaros, gente como eu, que não pode voar, tem que cuidar do chão onde pisa e evitar escorregões.
Na minha idade, posso quebrar o fêmur!
sábado, 26 de maio de 2012
PEDRA SOBRE PEDRA
"No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho..."
Carlos Drumond de Andrade.
E, apesar disso, temos que prosseguir.
Tropeçando, pulando, pisando, desviando, retirando, ignorando, valorizando, cada um escolhe como lidar com as dificuldades que surgem.
Eu, particularmente, paro e lido com ela.
Em alguns casos, é pura perda de tempo, em outros é parada obrigatória.
Há casos em que as pedras são colocadas como armadilhas, um teste de resistência.
Quando a pedra é muito grande, pode fazer estragos consideráveis.
Mas como fingir que ela não está ali? Não consigo, tenho que me deter diante dela.
Pedras grandes demandam mais tempo, a remoção é mais demorada.
Mas, como água, vou de encontro à ela, suavemente, até tirar-lhe as arestas.
Envolvo-a em um abraço, até penetrar nela, criando fragilidade, porosidade.
Enfrento de dentro prá fora, mergulho na escuridão, buscando a fresta de luz que me guiará prá sair do outro lado.
Só assim, consigo remover a pedra no meu caminho.
Não digo que é fácil, digo que é necessário.
Não aceito que pedras bloqueiem minha estrada, mas não ignoro.
Vou catando pedras como quem cata feijão.
Cozinhando as dificuldades, me alimentando de soluções.
Assim é a vida, entre pedras, até encontrar um diamante.
Uns acham, outros perdem, a maioria não consegue distinguir o que é um e o que é outro.
Não sou gemóloga, não tenho facilidade de reconhecer um diamante, mas não descarto as pedras, recolho-as, guardo-as, se não tiverem valor, coleciono-as.
Assim como debulho o feijão, garimpo pedras, não importa o tamanho, sempre terão serventia.
Ao menos, me provarão que não me acovardei diante do mais forte.
E me lembrarei sempre que, antes de Carlos Drumond, Fernando Pessoa dizia:
"Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia, vou fazer um castelo..."
FACES
Essa sou eu, solar.
Por mais que a noite queira se impor,
meu sol volta a brilhar.
Essa sou eu, fruta madura,
macia por dentro, protegida
por casca dura.
Essa sou eu, primavera,
onde flores renascem
sem longa espera.
Essa sou eu, esperança,
cuidando de mim,
escolhendo a lembrança.
Essa sou eu, viajante,
não importa o caminho,
sigo adiante.
Essa sou eu, combatente
de lutas inúteis que
me tornam resistente.
Essa sou eu, transparente,
cristal por mim lapidado,
e porisso, diferente.
Essa sou eu, minha seta,
meu arco, meu alvo,
minha própria meta.
Essa sou eu, a que acredita
que a vida é mais do que
a que me foi dita.
Essa sou eu, curandeira,
que lambe as próprias feridas,
e se faz, de novo, inteira.
Essa sou eu, feiticeira,
criando poções, magias,
fazendo de mim o que queira.
Essa sou eu, destemida,
sem passado, sem futuro,
sendo o presente da vida.
Assinar:
Postagens (Atom)