domingo, 18 de março de 2012

CARTA A UM DESCONHECIDO

Meu caro amigo.
Não sei quem você é, sei que preciso de você.
Queria te dizer de mim, queria saber de você, de sua vida, de seus sonhos.
Queria ser aquela que compartilha momentos bons, ser a que protege de momentos maus.
Queria conhecer quem me tira o sono, me faz ficar desperta, me acompanha na vigília.
Tenho você em mim, dentro de mim.
Tenho uma vida tranquila e centrada. Ou tinha.
Tenho histórias prá contar e tempo prá ouvir outras narrativas, novas, estimulantes.
Queria te conhecer.
Queria encontrar esse amigo que habita meu imaginário, que entra, sem ser esperado, no meu espaço tão duramente preservado, que invade meu tempo, que rouba minha solidão ao me fazer companhia.
Queria, meu amigo, dar voz e corpo a uma sombra que surgiu.
Queria desfrutar essa comunhão, essa aproximação.
O fato de você não existir no meu mundo, me faz querer viajar por outros, buscando o que nos seja comum.
Na verdade, não deveria conhecê-lo, não quero quebrar a força que me mantém, não quero perder o juízo. Ou será que já perdi?
Você se tornou o ideal e inatingível, a possibilidade remota e perseguida, o motivo e a razão.
Criei esse amigo, fui criada por ele. Esse amigo me entende, estimula, acompanha e preenche, me afoga em esperança.
Gosto de saber que você existe, gosto de te procurar em pessoas impossíveis.
Me impulsiona saber que essa procura pode ter fim, ao achá-lo.
Saiba, querido amigo, que sua casa é minha cabeça, ninguém entra ou sai dela sem minha permissão.
Entenda que te protejo porque você mora em mim, em um território escriturado, com aviso de "Não transpassem".
Amigo querido, você e eu nos pertencemos porque somos estranhos, sem passado, talvez sem futuro.
Nos aproximamos porque estamos afastados, porque somos a possível impossibilidade.
Somos amigos porque não nos conhecemos, porque não temos interferências, ruídos, porque imaginamos, criamos, e mantemos laços estreitos de afeto, desatamos nós antes de serem apertados, respiramos através das letras.
Não sei quem você é. Você me escapa entre os dedos, não aprendi a retê-lo.
Murmuramos entre nós, dialogamos mentalmente, já nos pertencemos.
E, ao pensar em você, construo um lugar, o mais próximo possível da felicidade.
E tenho muito tempo, ainda, prá encontrar a alegria que guardamos prá nós.
Com você, posso ser outra.
Meu mundo se expande, meu afeto me espanta, tua presença, ausente, me acompanha. Tenho alguém, mesmo não te tendo.
Tenho a certeza de ter achado, no meu último momento, o que esperei a vida inteira.
Simples, assim.
Com amor...

quinta-feira, 8 de março de 2012

DE CORPO INTEIRO / RETRATO

Um olhar, enviesado.
Um sorriso, desconfiado.
Um tocar, atrapalhado.
Um gostar, envergonhado.
Um carinho, represado.
Um beijo, abortado.
Um corpo, acalorado.

Frases, mal formuladas.
Palavras, profanadas.
Ações, mal cuidadas.
Silêncio.

Mente, inquieta.
Alma, retorcida.
Dores.

Querer e não saber,
se quer o que sabe que tem.
Saber que o que se quer,
tem um preço, ao se ter.

Pagar prá ver ou
ter sem pagar?

Nascer e morrer
e, no meio, viver.

E nessa vida, no meio,
responder, afirmar, sentir, amar.

Ser menina, ser mulher,
ser louca e recatada,
ser perdida e procurada,
ser cama e mesa,
ser o que nem sabe que é.

Enxergar, não só ver.
Ouvir, não só escutar.
Dizer, não só falar.

Percorrer a estrada do corpo,
buscando a explosão que destrói represas,
que causa enchentes e desatinos.

E sorrindo, morrer um pouco, de tanto prazer.

terça-feira, 6 de março de 2012

IMENSIDÃO

A natureza é sábia.
Nos dá o sol, a chuva, estrelas, lua, fauna e flora, belezas em por do sol, raios e trovões, mares, lagos, águas que se transformam em ondas, gelo, quedas d'água que nos presenteiam com arco-íris. Nos dá dias e noites, nos dá a dimensão do que somos diante dela: figurantes em seu cenário.
A natureza é avassaladora com seus terremotos, tsunamis, furacões, tempestades, avalanches e nos mostra quão impotentes somos diante de sua fúria.
Sabemos que temos que nos curvar e admitir a fragilidade humana.
A natureza é uma força incontrolável e inesperada, trapaceia as previsões da ciência que quer domá-la. Exerce seu poder transformador e muda o que quiser, sem nenhuma chance de controle.
Fazendo parte da natureza, também temos nossos dias de fúria, de lago tranquilo, de terremotos existenciais, de geleiras sólidas, de estrelas cadentes.
A lua nos determina ciclos, as estrelas nos apontam caminhos.
A microscópica situação humana é irrelevante diante de tamanha força.

É só isso que sou, um grão de areia sem nenhuma importância.
E, só porisso, tento inventar meu mundo, construir minha natureza.
Assim, quem sabe, encontre um outro mundo, construido por outra pessoa, onde seja possível descontrolar as marés.
E deixar que as águas rolem, que o tempo mude, que a árvore cresça, que o ar envolva.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ÚLTIMA CHAMADA

"Queima total! Grande liquidação!
Aproveite os preços de ocasião!
Venda com descontos de até 99 por cento!"
Resolvi fechar minha lojinha de possibilidades.
Com o estoque encalhado, fiquei sem capital de giro.
Minha mercadoria está com validade vencida e não consigo parar de ter novas idéias sem ter mercado prá desová-las.
Considerei a possibilidade de passar o ponto mas não há interessados.
Aliás, não sei como ter contato pessoal com outro ser humano.
Porisso, desisti de procurar.
Não existe mais possibilidade aplicável.
Sempre achei que o contato entre pessoas, olho no olho, cara a cara, fosse o principal motivo de dar chance à química de se manifestar, a causa de se fazer amigos, amores, laços.
Dei de cara com um muro quase intransponível, o mundo virtual.
Meus amigos, conquistados com abraços, sorrisos e corpo presente, agora se manifestam através de emails, facebucando a relação.
Telefone, voz, só em em caso de emergência.
Até a morte é comunicada virtualmente!
A insensibilidade parece ser a maneira de se preservar da dor, da compaixão.
Tudo virou postagem. Tudo é em tempo real e impessoal.
Como conversar sobre uma aflição? Como perceber que, do outro lado da tela, existe uma pessoa que se preocupa, que dispõe do seu tempo prá ouvir, que seja, o seu apelo?
Todos viraram amigos virtuais. O que isso quer dizer? Que você me conhece, que temos afinidades, que conquistamos um ao outro?
Vejo pessoas procurando em sites de relacionamento, um ser compatível com seus desejos.
Como se fosse possível acreditar que alguém vai expor outra coisa que não o pedido.
"Quero uma loura, com 1,70 m, dentes perfeitos, independente, carinhosa, paciente, que me aceite e compreenda minhas imperfeições." Do outro lado, responde através das teclas, uma morena baixinha, carente, com prótese nos dentes, sub empregada e desesperada prá encontrar alguém que possa se relacionar, nem que seja virtualmente.
"Sou um homem carinhoso, bem resolvido financeiramente, atlético mas muito tímido, temeroso de me quererem pelo que sou, exteriormente." Então, tá! Esse homem estaria solto no mercado das carnes? Me engana que eu gosto!
Perceber essa busca solitária me atormenta, me deixa louca da vida, me põe de frente com as impossibilidades, eu que acredito nas possibilidades.
Inventamos quem queremos ser, sem ter o trabalho de procurarmos ser.
Trocamos de máscara segundo a vontade do internauta.
Certa vez, testando até onde a invenção pode levar a imaginação do outro, coloquei um perfil - falso, como quase todos- em que me dizia loura NATURAL (sou morena), alta (meço 1,63), magra (isso eu sou), enfim, todos os predicados exigidos pelos pretendentes da rede. Conclusão, 73 interessados. Só rindo. Setenta e tres idiotas que acreditaram na própria fantasia.
Um amigo entregou os pontos à internet e resolveu buscar um par. Mas, espertamente, marcou o encontro - óbvio que se colocou como o último biscoito do pacote, coisa que, definitivamente, ele não é-  foi ao encontro com roupas diferentes do que ele tinha dito que ia, chegou bem mais cedo e esperou que a escolhida chegasse. Preciso narrar o que aconteceu? Tá bom, eu conto. A pretendida se vendeu como modelo de mulher perfeita, corpo irretocável, bonita, inteligente, essas coisas que viraram chavão no imaginário da grande maioria dos homens, e a coitada era, simplesmente uma mulher comum, nem bonita, nem feia, nem alta, nem nada daquilo que ela dizia ser. Se era inteligente, ele não ficou prá saber. Provavelmente, não era.  Não se exporia à mentira que criara prá encontrar um engano. Quando ele viu aquela mulher, ele entendeu que a vulnerabilidade dos dois levou a um erro de pessoa, nada era verdadeiro ali, a intenção, ela e, muito menos, ele.
Me dizem, os facebucados, que têm 543.921 amigos. Ahan! Como? Que tempo têm prá estabelecer contato mais aprofundado prá reconhecer um único amigo? Como chamar de amigo alguém que está se relacionando através de um teclado? Na solidão, cada vez maior, de seu quarto ou escritório?
Onde mãos não se tocam, não se trocam sorrisos, afetos, carinhos, onde o som da voz não é ouvido?
Ou pensam que pressionando as teclas estão trocando carícias?
Só cego usa as digitais prá reconhecer e acarinhar o outro, desenvolveram a sensibilidade ao toque. Sentem o outro através do leve toque mas, mesmo eles, precisam do contato pessoal. E dizem que, por essa deficiência, são os melhores amantes. Porque imaginam o outro, são sensíveis aos cheiros, gostos e, delicadamente, usam as mãos no outro. Preciso provar essa tese.
Meu balcão de afetos está repleto de carinhos sem uso, novos, na caixa, têm até manual de instrução para aqueles que esqueceram como funciona, mas, infelizmente, não há quem queira comprar.
A cestinha de conquistas está meio empoeirada mas, com uma soprada de interesse, elas voltam ao brilho original.
Minha loja de contato e possibilidades está com as prateleiras cheias de amores esquecidos, de carinhos mofados, de possíveis relações perdidas e de cumplicidade desbotada.
Como, no mundo real, não há interessados na compra, resolvi, ou dar de graça, sem esperar nada em troca, ou deixar, em inventário, prá uma próxima geração que se interesse em pesquisar, como arqueólogos de emoções, como era possível, há pouco tempo atrás, procurar a felicidade ou a dor, convivendo, tocando, de corpo presente, sem mentiras ou fantasias.
Essa é uma chamada final, os interessados em uma vida com luz, sons, gente, saiam de suas tocas, onde preservam suas solidões achando que estão interagindo com o mundo, e descubram o que é viver de verdade.
Queria que fosse possível uma reinauguração.
Mas acho que esse é mais um item inútil na minha fracassada negociação com esse novo mundo de relações vazias.
Pena!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

FUGA

Não é que eu seja exigente, sou seletiva.
Tentam me vender gato por lebre e acham que vou engolir.
Não aceito que me empurrem, goela abaixo, menos do que me devem.
Sei que, às vêzes, tenho mais do que preciso, mais afeto, mais paciência, mais jogo de cintura, mais espaço e, em determinadas ocasiões, menos, muito menos.
Acham que amar basta mas, meu caro, amar não basta. Em todos os sentidos.
Amar não é determinar o que o outro merece. Amor é verbo conjugado a dois, sem esquecer que o parceiro é um indivíduo e não metade. Não sou meia pessoa, não sou sombra de ninguém.
Não admito que sombreem minha vida, assim como não permito que qualquer pessoa se deite em minha sombra.
Nunca enganei ninguém, o que se vê é o que se tem. Nunca fui de jogar prá ganhar, sempre fui transparente.
Amar é laço, não é nó.
Se apertam o nó, falta oxigênio e sem respirar, morro.
Todo início de relação deveria ser o momento de usar o manual de instrução:
1° passo: Não esqueça que o produto é frágil, cuidado quando manusear!
2° passo: Quando o aparelho super aquecer, se afaste por algum tempo para que ele esfrie.
3° passo: Não deve ser usado diariamente para não haver desgaste.
4° passo: Use com moderação e atenção para mantê-lo em perfeito funcionamento.
5° passo: Quando precisar de assistência técnica, talvez seja o momento de trocá-lo.
6° passo: Em caso de troca, mantenha distância do antigo.
Isso evitaria muita dor de cabeça.
Desconfiei que nosso produto estava deteriorando quando começou o cuidado extremado, o interrogatório, o controle.
Saiba que nem a mim dou satisfações do que faço. Se não é imoral nem ilegal, faço.
Nunca te trai e confesso que você merecia. Acontece que não sou assim, não sei começar nada sem terminar e enterrar o que passou. Até porque, o próximo não tem que pagar as penas do anterior. Se vou prá uma relação, vou zerada. Seria um desperdício de tempo e energia ficar cobrando os erros de uma outra pessoa. Cada relação tem um código, escrito pelos que estão nela, acordado pelas partes.
Ainda não nasceu quem me diga o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer. Não sou maluca nem impulsiva, uso meu cérebro e os limites dos outros prá perceber até onde posso ir sem arrombar a porta da privacidade.
Respeito silêncios e sumiços, melhor não falar quando não se tem nada prá dizer, bem melhor sumir quando falta espaço, quando o garrote sufoca.
Não sou criança prá que me digam onde posso ir, com quem devo estar. Sou criança quando me divirto, quando escancaro o riso e brinco, gosto de brincar.
Sou responsável por mim e não sou deficiente emocional, não preciso de bengala prá apoiar meus desacertos. São meus e deles eu cuido.
Mas, também, não sou analista de plantão prá que despejem em meus ouvidos as agruras de uma vida muito mal resolvida.
Não que a minha seja sem problemas, ela é cheia deles, mas, por favor, estar com alguém deveria ser mais prazeroso e menos enfadonho e repetitivo.
Todo mundo tem seu dia de raios e trovões, cansei de me ensopar nas minhas tempestades emocionais, me lanhei em relações espinhosas, sangrei com cortes secos, mas lambia minhas feridas e esperava cicatrizar sem alugar um incauto qualquer.
Não uso afeto como peça de reposição, sai um entra outro. Não sofro dessa carência, graças a Deus.
E aprendi a sair com elegância em qualquer situação, chutando ou sendo chutada.
Você foi propaganda enganosa, vendeu o que não tinha, mostrou o produto maquiado.
Foi o próprio "médico e monstro", início gentil, divertido, atencioso, e se transformou quando me envolvi e confiei.
Sou difícil de ser enganada mas você conseguiu. Que ator! Que talento desperdiçado!
Como não sou platéia, sequer aplaudo.
Se vale o conselho, não pese a mão na próxima, deixe espaço prá respirar, enterre os fantasmas de outras que passaram em sua vida, enxergue com outros olhos seu próximo amor, faça com que ele seja leve, suave, escolha ser feliz, despreocupado. Ninguém fica com ninguém, se não quiser, não adianta forçar, perde o encanto, perde o prazer, a espontaneidade, perde a razão de amar.
Construa uma vida com espaço suficiente prá dois, deixe portas e janelas abertas, assim, vendo que se tem liberdade, sempre se escolhe ficar.
Eu escolhi partir e, ao sair, espero ter fechado prá sempre a porta estreita por onde escapei.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

HO! HO! HO!

Só um minutinho, vou lá na esquina e já volto!
É o que dá vontade de fazer, em fim de ano.
Juro que tenho ganas, todo bendito ano, de sumir em 1° de dezembro e só voltar depois do carnaval!
Rapaz, é muita pressão!
A fúria assassina de presentes, visitas ao shopping, lembrancinhas de última hora, preparação de ceia, obrigação de estar feliz - e não interessa se você É feliz ou não- receber com sorrisos quem você sabe que vai sair falando mal de tudo - desde o peru que estava mal temperado até o presente que vai ser repassado prá ajudante do lar- trabalhar que nem uma égua puxando carroça, e, ainda por cima, ter que se preparar prá receber em alto estilo: unhas e cabelos bem feitos, roupa impecável, perfume suave e muito guaraná em pó prá segurar o antes e o depois da ceia.
Finda a noite, resta a cozinha em frangalhos, exatamente como seu corpinho, pés doendo por causa daquela sandália ma-ra-vi-lho-sa mas absolutamente imprópria prá quem vai ficar em pé a noite toda.
Ai, que vontade de chorar quando olho prá pia e vejo que a noite vai ser um pouquinho mais longa do que eu queria.
Completada a organização, depois de duas horas limpando e guardando louças, rearrumando a geladeira prá caber toda a sobra, dando uma geral na casa - vício que herdei de minha mãe que dizia: "Casa tem que dormir arrumada, vai que passa mal à noite e tem que chamar um médico? Imagina a vergonha!" - preparo-me prá dormir.
Tomo um longo banho - com direito a sais e espuma, que eu mereço - ligo o ar condicionado, porque Natal nos trópicos só perde prá sauna à vapor e me deito.
Cadê o sono?
A agitação foi tamanha que o sono se perdeu no caminho.
Rolo prá cá, rolo prá lá, pego um livro, ligo a televisão - potente sonífero prá mim - e nada.
Nesse maldito instante, a cabeça começa a funcionar à mil.
_"Xô, pensamento, vou imaginar uma página em branco" e vejo, literalmente, uma ...página em branco, e a infeliz não vai embora!
Quando, enfim, caio no sono, toca o despertador. Desorientada desligo o celular, segundos depois a campainha da porta toca e eu soco o despertador. A campainha soa, novamente, aí me dou conta de que são algumas pessoas que voltaram para o "enterro dos ossos".
Pulo da cama, visto qualquer coisa que está à mão, abro a porta e dou de cara com aqueles que acabaram de sair. Foram prá casa e encontraram tudo limpo e em ordem, deitaram, dormiram, fofocaram sobre a noite passada e voltaram prá recomeçar.
A zumbi, apatetada pela noite mal dormida, vai recomeçar a função que mal terminou.
Sem falar nas saias justas que, infalivelmente, acontecem.
Família é um poço de histórias mal resolvidas.
Tem a mulher do irmão que se porta como uma rainha e tem que ter tudo à mão, não se levanta nem prá esfriar a cadeira, as crianças que infernizam com seus gritos e choros e não se pode reclamar porque os pais se ofendem, a tia solteirona e seus achaques prá chamar atenção, o primo que fala como se estivesse brigando e tem sempre razão, diga a asneira que disser, tem o tio super, hiper animado que, depois de algumas doses, resvala na grosseria e constrange a mulher, a prima gostosa que conta prá quem queira ouvir - e também prá quem não queira - suas conquistas e os destroços humanos que deixa pelo caminho e os irmãos que cobram qualquer coisa e sempre, aconteça o que acontecer, relembram a infância e as "artes" que EU fazia. Eles eram perfeitos, eu era a atrapalhada que só fazia bobagem. Ai, Deus, dai-me...
Fico observando e tendo a impressão que, não importa o ano, é sempre a mesma coisa: a mesma conversa, os mesmos conflitos, as mesmas pessoas, como se, naquela data, descongelassem e repetissem a mesma situação.
A tarde passava em câmera lenta, até que, repentinamente, aconteceu algo novo e desconcertante.
Uma tia, a constrangida, levantou-se, bateu com a colher na taça e pediu a atenção de todos.
_"Silêncio, por favor. Quero aproveitar esse momento em que a família está quase toda presente para fazer um comunicado. Sei que alguns vão se surpreender, outros meio que esperavam mas não acreditavam que, um dia, fosse acontecer. Depois de 33 anos engolindo um sapo gigante, resolvi - e estou dizendo, em primeira mão, ao interessado - dar uma banana pro panaca do meu marido".
Silêncio sepulcral!
O tio, que até então era o idiota da corte, arregalou os olhos e perdeu a fala.
Começou o zum zum zum, pessoas falavam, gesticulavam, perguntavam, completamente atônitos por aquele banho de água fria.
A tia, impassível, bateu novamente no copo até a sala silenciar.
_" Vocês sempre souberam que eu fiz uma péssima escolha. Suportei esse projeto de anta, mais por não querer dar o braço à torcer, confesso. Tá certo, 33 anos foi um pouco demais. Mas tivemos filhos e a vida foi passando. Esperei que ele percebesse minha insatisfação e fizesse alguma coisa prá mudar. Mas tudo que eu conseguia era mais piadinhas e mais constrangimento. Até que, ontem, bêbado e sem noção, como sempre, ele teve o descaramento de me presentear com a notícia que faltava prá entornar o chopp".
O tio perdeu o sangue, ficou branco como a página que eu imaginei na minha insônia, foi escorregando pela parede com a mão no peito e caiu sentado no chão.
Todos correram prá acudir. A tia, impávida, não se mexeu.
Meu irmão dizia que ele estava infartando, minha irmã dizia que era aneurisma, as crianças, bem... as crianças sumiram, retiradas pela cunhada-rainha.
_"Liga prá algum médico".
_"Que médico, nada, vamos levar direto pro hospital."
_"Tosse, tio, eu li que ajuda!"
_"Desabotoa a calça dele."
_"Abana, ele está sem ar."
_"Isso era hora de acertar contas com o coitado?"
_ "Não podia esperar até chegar em casa?"
Tudo dito ao mesmo tempo.
Arrastaram o homem para o hospital mais próximo, onde ficou em observação.
A casa esvaziou, sobramos eu e minha tia.
Ficamos ali, procurando o que fazer, esperando alguma notícia.
Enquanto ela bebericava, calmamente, eu e o meu TOC limpávamos a casa. Em momentos de aflição eu desando a arrumar, lavar, esfregar, organizar, essas coisas sãs.
Depois de uma eternidade, o telefone toca e nos informam que ele está bem, não havia nada no coração, provavelmente tinha sido uma manifestação de pânico, a tal da síndrome.
Nos olhamos por algum tempo, até que tomei coragem e perguntei qual era, afinal, a tal notícia.
Minha tia deu um sorriso enigmático e disse:
_"Mais uma vez, ele conseguiu arrebatar a platéia e me deixou sem audiência."
_"Como assim, tia? Ele passou mal!"
_"Previsível, vindo  dele."
_"Tá bom, não vou me meter nessa briga."
_"E qual é a graça de contar, logo à você, a bomba que ele me atirou? Você não é uma fonte confiável."
_"Eu não sou...por que?"
_"Minha querida, quando contamos um segredo à alguém e pedimos reserva, quer dizer que queremos que todos saibam mas não pela nossa boca. Você não conta seus segredos nem para o travesseiro, como vai espalhar o meu?"
_"Mas não era segredo, tanto que você disse que ia fazer um "comunicado oficial."
_"Exato. Só que, se eu contar só a você, vai morrer aí."
_"E se ele, realmente, tivesse tido um piripaque e morresse?"
_"Seria a glória! Teria uma platéia muito maior no enterro. Faria um discurso de levantar defunto. Ele iria se contorcer por toda a eternidade. Taí, seria o momento ideal."
_"Nossa, tia, você tem uma mágoa sem tamanho!"
_"Minha querida, ele não perde por esperar. Você acha que eu vou perder a oportunidade de dar o troco?"
_"Não entendi", respondi.
_"Vingança é um prato que se come frio. Nem que eu tenha que esperar mais um ano. No próximo Natal, quando estivermos novamente reunidos na sua casa, vocês saberão. Quem aguentou 33 anos, aguenta 34. Da vergonha ele não escapa!".
 E mais não disse.
Pegou a bolsa e foi embora.
A sala me pareceu maior do que era, realmente. O ar, pesado de silêncio.
Deus, ai, Deus, todo poderoso, quem não aguenta outro Natal sou eu.
Ainda mais, depois desta ameaça de destruição.
Zonza e abestalhada, começo a falar em voz alta.
"Pai nosso, estais aí no céu?
Perdoai essas ofensas e perdoai, também, os que ofendem ou são ofendidos.
Não me deixeis cair na tentação da curiosidade e livrai-me, por favor, do Natal.
Amém!"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O VIOLONCELO

Admiro quem toca um instrumento, qualquer um.
Mais que admiração, tenho inveja. Assumo.
Adoraria ter aprendido música.
Aprendi canto orfeônico e achei um saco, até porque não tenho voz nem volume prá cantar.
Minha voz está mais prá sussurrar do que prá trinar. De passarinho não tenho nada, sequer a afinação. Ficava lá, abrindo e fechando a boca, enganando as notas.
Aprendi um pouco de piano quando não devia, não tinha maturidade e nem foi minha escolha.
Hoje, percebo a oportunidade perdida. Acontece.
Tinha aulas em casa e, como não era o que queria, seduzia o maestro com todo tipo de elogios.
Elogiava suas mãos, pedia que ele tocasse prá mim, fazia cara de enlevo e ele se entusiasmava.
Eu tinha nove anos e já brincava de atriz.
O maestro, que devia ser um pianista frustrado, tinha em mim a platéia que ele precisava e, sem saber, me apresentando aos clássicos, me fez gostar de Chopin, Mozart, Rachmaninoff, Tchaikowski, meu favorito. Despertou em mim outras possibilidades, outra sonoridade, me mostrou o adágio, o allegro e outras variações. 
Meus pais jogaram dinheiro fora, eu não saia das escalas, em compensação meu gosto musical ficou mais exigente, mais sofisticado, mais apurado.
Mas, ainda assim, não aprendi a ler música ou tocar o instrumento que queria: cello.
Meus queridos pais preferiram entulhar a sala com um piano a me dar um violoncelo.
Eles diziam que cello não era instrumento para moças, que era pesado prá carregar e exigia força.
Pergunto: piano se carrega nas costas? É leve? Achamos piano em qualquer lugar? Preconceito!
E qual instrumento é mais feminino do que o cello?
É um instrumento que exige que você o abrace, que seu corpo encoste nele, que seus dedos o façam vibrar, que cobram  energia e, às vezes, suavidade. Seu som é grave, meio abafado, forte, potente. As pernas entreabertas envolvem, seguram e sentem a música reverberar pelo corpo. O rosto se encosta na madeira como que oferecendo o ouvido ao segredo.
Quando tocado com arco, há que se ter delicadeza, cuidado prá não romper os fios do arco ou as cordas do cello.
O cello é a analogia perfeita do amar o outro, cuidar do outro, extrair do outro, com cuidado, seu melhor som. É o calor do aconchego, o prazer do toque, a repercussão do grave que vibra e quebra geleiras provocando avalanche.
É um instrumento para poucos, escolhidos por ele. Tenho prá mim que ele é sábio, se mistura a orquestra prá não chamar atenção sobre o seu poder de sedução, cello é um perigo!
Perigo prá quem ousar se aproximar, perigo prá quem tentar entrelaçar suas pernas nele e pretender domá-lo.
Cello é prá pessoas que têm coragem de encarar a estiva que ele exige, de dedicar horas à perfeição, de se perder no abraço que ele cobra.
O corpo dói ao carregá-lo, cansa com o esforço que se faz prá tirar dele o prazer escondido nas cordas, sua de exaustão ao término da sinfonia.
Melhor parar por aqui, não sei mais se estou falando de violoncelo ou se já fui parar em outra dimensão.
Percebi, nesse instante, que o que eu queria era ser abraçada, ouvida, tocada, cuidada por alguém que conseguisse criar música em mim.
Cello, céu, violoncelo, vasconcellos, eu, violoncellos.
Rendo-me às evidências: o que eu queria, mesmo, era ser um violoncelo!