segunda-feira, 10 de outubro de 2011

DE SALTO ALTO

Não tenho medo de ser ridícula, tenho medo de ser patética.
Não ligo se o salto quebrar na hora mais inconveniente, me incomoda descer do salto e me esborrachar.
Quando espero muito e não acho nada, me enraiveço. Aprendi que acreditar pode ser bom mas pode ser, também, estupidez.
Acredito, de verdade, que todo mundo é capaz de ser generoso, amável, mas sei que todos nós temos demônios controlados, reprimidos, escondidos.
Alguns desses diabinhos são simpáticos, travessos, outros são violentos, perigosos e, por vezes, indomáveis.
Eles habitam um lugar escuro e esquecido, até serem libertados das masmorras.
Geralmente nos apoiamos em algum fator que "independe da nossa vontade" para liberá-los.
Temos desculpas clássicas para escudar o descontrole: bebemos além da conta, sofremos calados por tanto tempo que a panela destampou, aguentamos provocações, engolimos maus tratos, tudo desculpa para o demônio aflorar. Acontece, meus amigos, que soltamos os bichos porque queremos e aí, vamos combinar, arquemos com as consequências sem culpar ninguém.
Todo mundo tem o direito de mostrar suas imperfeições, somos humanos, caramba! Erramos, enganamos, mentimos, despistamos, traímos, faz parte do pacote que somos.
Por que teríamos que ser santos? Não somos. Alguns que foram canonizados, sofreram horrores e isso me parece uma patologia. Nada contra os santos, sou até devota de um, mas, cá prá nós, salvaram a humanidade? Que nada, tá cada vez pior.
Mae West, uma atriz que foi um escândalo prá sua época - diga-se de passagem que não sou daquele tempo, embora já tenha uma longa estrada- enfim, essa mulher sem amarras dizia: "Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda"! Preciso traduzir?
Não tenho pudores em me expor, mas não permito que me exponham sem meu consentimento. Sou transparente até o momento que embaçam a minha vida, aí, colega, é cada um por si e eu vou botar meu exército no campo de batalha. Não procuro conflito, mas não fujo da raia. Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Tento não machucar quem não merece, às vezes escapa, mas procuro não fazer mal aos outros. A culpa católica me cobra noites de insônia. Tenho pesadelos, me assisto ardendo nas brasas do inferno, isso quando consigo dormir. Como não quero perder uma noite de sono, evito a chateação.
Não sou boazinha, é que não gosto de estar presa a nenhuma emoção que me faça mal. Simples assim. Se me faz mal agir de determinada forma, não ajo em benefício próprio. E ainda faço um favor ao outro, poupando o melodrama. Parece insensibilidade, né? Egoísmo, talvez? Que tal mudar o foco? Olhar o outro e não a mim mesma? Mas, diga lá, se eu não cuidar da minha sanidade, quem vai cuidar? Elementar, meu caro Watson.
Posso estar muito enganada e, se for assim, minha vida inteira foi um grande erro, mas tenho cá prá mim a quase certeza de que quem não pensa em si, antes de pensar no outro, está fadado a ser um mártir. E um chato!
Esse negócio de doar-se sempre, dar sem medida, se entregar e reforçar o ego alheio só funciona na literatura, nas novelas, filmes e afins. Isso é ficção. Porque, meu caro amigo, se você não tiver uma boa provisão de amor próprio, o fundo do poço será raso prá seu mergulho. Se nada me derem de volta, serei um balão vazio, não vou subir. Como saco vazio não fica em pé...
Tive grandes paixões em minha vida mas a falta delas não me fez desmoronar. Sofri o tempo necessário, vivi o luto, perdi quando ainda não tinha acabado prá mim. E daí? Morri por causa disso? Entrei para um convento, me despedi da vida, de mim? Nananinanão. Ressurgi mais forte, mais preparada prá sofrer menos, entendi que é assim mesmo, não existe tempo igual, amor igual, intensidade igual, nada é igual entre pessoas. Se eu amava mais do que era amada, não questionava, não pretendia que o outro me desse o que não conseguia, aceitava ou não, mas não perdia a consciência de mim, jamais precisei do olhar, do carinho e da atenção do outro prá ser quem sou.
Não sou exemplo, eu sei, não tenho exemplos, não me espelho em ninguém porque minhas experiências são distintas, mantenho um instinto de sobrevivência feroz. Graças ao bom Deus!
No dia em que me virem sendo capacho de alguém, seja quem for, assistirem alguém limpando os pés em mim, me internem porque já estarei em avançado estágio de loucura.
Sou suscetível, como todo mundo, de vez em quando dobro os joelhos com o soco que me atinge, vejo estrelas como em um desenho animado, visualizo aquele "POW" no balão do quadrinho, o olho fecha de tão inchado, o sangue escapa das veias, não minimizo a dor da pancada, sinto. Mas, pera lá, vou engatinhar? Já passei desta fase. Se não sou quadrúpede tenho que ficar em pé, até a próxima porrada. Não desvio, não, aprendo a cair em solo mais macio. Da próxima, me levanto mais rápido.
Portanto, não se engane, a vida é uma sucessão de trombadas, e a palhaça aqui aprendeu a dar cambalhotas.
Ser ridícula ou ser patética? Se o "amor é o ridículo da vida", sou ridícula.
Ser patética é esperar que alguém me ame por meu amor ainda não ter terminado, me humilhar mendigando um carinho forçado, fazer o objeto do meu amor sentir pena de mim e me oferecer a última gota do meu próprio veneno, aquele que vai matar em mim qualquer possibilidade de me respeitar. Definitivamente, patética, não fui, não sou, nem serei, mesmo.
E entre quebrar o salto e descer do salto, prefiro quebrar. Um bom sapateiro resolve um salto quebrado. Já descer do salto, diminui a estatura.
Como sou bastante alta por dentro...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PALCO

O grande barato de ser atriz, ou de ter sido, é poder viver outras vidas. Melhor, poder criar outras vidas, participar de outras histórias que não sejam a minha.
Mesmo que vivesse 1.800 anos, jamais conseguiria experimentar tantas emoções, enfrentar tantos perigos, ser mil, ser tantas, ser outra.
O ofício do ator é dar corpo e voz as palavras do autor, é, também, sentir e pensar como a personagem.
Uma personagem é construída pelo que diz, pelo que as outras personagens dizem dela, pelo contexto da história, pela busca do conhecimento dessa vida, pelo entendimento e aceitação dessa pessoa que pode ser antagônica. É emprestar nosso corpo e voz para que ela se materialize.
O ator é, um pouco, deus, mesmo que em minúsculas. Cria, constrói, inventa, tenta, molda.
Como uma cebola, ao contrário, vai acrescentando camadas. Uma a uma. Coloca emoção, constrói uma história prá apoiar essa vida que será contada, inventa um passado que possa servir de base a esse ser, tenta se colocar em seu lugar, se molda, se coloca disponível para que essa personagem possa se manifestar, não julga suas ações, empresta seu corpo e suas emoções prá que ela seja, enfim, de carne e osso.
Ser ator é ser mágico, equilibrista, domador, trapezista. É ser todas as dores e alegrias, todos os risos e todas as lágrimas. É viver o inimaginável e, ainda assim, se fazer acreditar.
Que outra profissão permite que você saia de si? Perca o autocontrole e ache o outro?
De tanto viver outras vidas, passa a entender a sua, enxerga em cada história da vida real uma riqueza, mesmo que, aparentemente, seja uma vida banal. Nenhuma é.
De tanto ouvir o que os autores querem dizer, começa a perceber outras possibilidades, outros ângulos e treina a percepção do outro. Enriquece a própria vida.
Aceita a diferença, encontra o tom na peça e na vida, desenvolve a sensibilidade, controla seu tempo interior, respeita o espaço do outro, se coloca em risco e se resgata, ou é resgatado.
Algumas vezes é dolorosamente incômoda essa profissão, principalmente quando a trajetória da personagem se mistura a nossa, alfineta nossa memória emotiva, chacoalha e ultrapassa o limite que nos impomos. Ainda assim, prevalece a personagem, muitas vezes com posição contrária a nossa, nos ensinando a respeitar a visão do outro, mesmo que não concordemos.
Outras vezes, lutamos contra as evidências colocadas por elas, buscamos um desvio prá aproximá-las do que somos, tentamos facilitar nosso caminho, mas elas nos puxam as rédeas e nos recolocam no caminho delas.
A ficção tem que ter sentido, mesmo que não aceitemos. Ela tem começo, meio e fim escritos, acabados, determinados. Nada vai acontecer diferente do que está lá. Diferente da vida real, onde não sabemos o que vem depois, onde nada pode ter sentido, onde só podemos esperar o que vai acontecer e reagir ao acontecimento.
Esse é o mistério da vida, ficção não tem mistério, tá tudo lá, você sabe o que será, mas a mágica é caminhar sobre os pés da personagem, visitar emoções diferentes, histórias impossíveis, viver uma pessoa incomum, ser bandido, herói, santa, prostituta, se afastar da sua realidade e, por algumas horas, brincar de sair de si e passear em outra vida.
Honestamente, nada se compara a isso.
Nenhuma personagem é igual a outra, pode ser parecida, mas tem sua própria história, seu passado e temos que trazer sua bagagem até o momento em que a representamos.
É louco esse negócio de ser ator, embaralha suas crenças, mexe com arquétipos, derruba suas defesas, desafia seus medos, desperta emoções que, talvez, não queiramos acordar. Acrescenta, às suas experiências, mil anos vividos através de mil vidas.
O que sou, devo à minha profissão.
Sei que muitas pessoas acham que o ator representa sempre, não sabem se estão, de fato, mostrando quem são ou se estão representando um papel, em outras palavras, fingindo. Fernando Pessoa já disse tudo sobre o fingidor. Bom, elas nunca saberão com absoluta certeza e quem sou eu prá desfazer a intriga, pelo contrário, quero mais é que duvidem. Não ter nenhuma certeza é melhor do que acreditar no visível.
Não creia no que vê, procure enxergar o invisível, tente entender o subtexto, nem sempre o que é dito é o que se sente, na ficção e na vida real. Não decore o papel, improvise, deixe o sangue ferver, retese os músculos, respire fundo, invente, recrie. Seja protagonista da sua história.
Afinal, não é isso que somos? Atores representando um papel, usando uma máscara social?
Nosso palco é a vida e depende de nós escolher a máscara que se vai usar, a da tragédia ou a da comédia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

SALVANDO O DOMINGO

Domingo é dia de preguiça, dia de procurar o que fazer e, na maioria das vezes, fazer besteira.
E lá estava eu, bestando às onze da manhã, tomando café no sujinho com o amigo de sempre.
Olhávamos em volta, buscando assunto, tentando preencher o silêncio.
- Olha lá, aquela ali.
- Qual?
- Aquela de óculos escuros.
- Aquela de verde?
- É, coitada.
- Por que, coitada?
- Deve ter passado uma noite de cão, não aguenta nem encarar a manhã.
- Ou chorou a noite toda ou não teve forças prá tirar a maquiagem. Deve estar com olheiras de noite mal dormida.
- Ou, se não tirou a maquiagem, deve estar com cara de urso panda.
- Tô achando que levou um pé na bunda.
- Pode ser, mas que viveu intensamente a noite passada, lá isso viveu.
- É. Melhor um pé na bunda que nada.
-É.
Silêncio. Sopro o café prá esfriar um pouco. Odeio extremos, muito quente, muito frio, muito ou pouco qualquer coisa.
Meu amigo suspira e pede um croissant com muita manteiga.
- Para de entupir as veias com gordura.
- Se não entupir com gordura, vou entupir com o que?
- Você tá precisando de exercício, melhora o astral.
- Falou a rainha da academia.
- Sério, ajuda.
- Se ajudasse, não estaríamos aqui, matando o que nos mata.
- O tempo.
- É.
Silêncio.
- Reparou naquele cara de terno?
- Às onze da manhã de um domingo?
- Deve ser algum segurança.
- Ou vai a algum evento importante.
- E passa, antes, num sujinho prá tomar café?
- Pode ser.
- Não pode, não. Definitivamente, trabalha em segurança. Ou vai trabalhar, ou acabou de sair do plantão.
- Talvez. Agora ele vai prá casa, tirar o terno, botar uma bermuda e um chinelão e sentar na frente da televisão até cair no sono.
- Isso se as crianças e a mulher deixarem.
- Por que não deixariam?
- Porque é domingo, dia consagrado à família.
- Dia de descanso.
- Dia de lazer.
- Dia de curar ressaca.
- Dia de merda.
- É.
O tempo passa, lentamente, em silêncio.
- O que você vai fazer, hoje?
- Sei lá. O de sempre. Ler o jornal, almoçar por aí, voltar prá casa, ler um livro.
- Acho que vou pegar um cinema.
- Domingo?
- Não?
- Se você quer chateação, é um bom programa. Fila, sala cheia, pipoca, barulho de papel de bala, celular. Boa escolha.
- É. Acho melhor, não.
- É.
- E praia?
- Socorro!
- É, tem criança espirrando areia em volta, cachorro, churrasquinho, frescobol.
- Uma corrida de obstáculos.
- Uma chateação só.
- Prá que existe domingo?
- Prá gente pensar na vida.
- Ou prá pensar na vida que os outros levam.
- Ou prá inventar uma vida para os outros.
- Ou prá ficar falando besteira.
- Entra domingo, sai domingo, e a vida continua igual.
- Queria me apaixonar.
- Você e a torcida do Flamengo.
- Junto com a do Corintians.
- Pois é. Vai sonhando.
- Eu poderia me apaixonar.
- E eu poderia ganhar o Nobel da imbecilidade.
- Cruzes, você, realmente, se leva a sério.
- Né, não?
- Tem razão, você é um imbecil.
- Obrigado. Concordamos em alguma coisa.
- Acho que vou dar uma caminhada, respirar, suar.
- Excretar a cana da noite passada?
- Nem bebi.
- Nem um pouco?
- Nada.
- Tá explicado.
- O que?
- O desânimo.
- Bebida não me anima.
- Mas anestesia.
- Parece um alcoólatra, falando assim.
- Melhor um alcoólatra conhecido que um alcoólico anônimo.
- Não tem graça nenhuma.
- Eu sei.
- Vamos lá prá casa, eu preparo uma macarronada e vemos uns filmes.
- Tá doida? Teu macarrão é "unidos, venceremos" e teus filmes são umas xaropadas europeias. Tô fora.
- Então, tá. Passa o domingo gemendo, resmungando, praguejando.
- Vou à missa.
- Você é ateu!
- E você é à toa.
- Cretino!
- Rabugenta!
- Cínico!
- Mal amada!
- Ai, Deus, o que seria do domingo sem você na minha vida?
- Um tédio.
- Continua um tédio, mas com você.
- Só por essa declaração, eu vou prá sua casa, mas eu cozinho e, enquanto você vê seus filminhos, eu tiro um cochilo no sofá.
- Vai parecer um casal de meia idade.
- A não ser que você queira algum benefício extra.
- E se eu quiser?
- Vou ser seu objeto de prazer.
- Convencido. Quem disse que você me dá prazer?
- Se não dou, você sabe fingir bem.
- Então, vamos lá, tentar aproveitar esse dia.
- Salvar o domingo.
- Ainda acabo gostando desse dia.
- Prometo dar o melhor de mim.
- É melhor dar mesmo, prá fazer valer a amizade.
- Todo domingo é a mesma coisa.
- Ainda bem que somos amigos com benefícios.
- Salva a secura da semana.
- Seu Zé, fecha a conta.
- Que o domingo tá fechado!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SER X TER

Ando sofrendo de um terrível sentimento de exclusão.
Não saberia determinar quando esse mal começou, sei que estou contaminada e não sei o que fazer.
Percebi que, quando estou entre amigos, não consigo me encaixar no grupo, não sou capaz de acompanhar a conversa. Minhas opiniões não são relevantes, sequer entendo sobre o que estão falando.
Pouquissimas pessoas deste círculo prestam atenção em mim, pra falar a verdade, acho que nenhuma.
Pertenço a uma classe decadente, a das pessoas que valorizam ser ao invés de ter.
Não sei ser rasa, superficial, às vezes peso a mão, eu sei. Peso quando aprofundo a discussão sobre, por exemplo, Louboutin ou Manolo. Entendo que os pés que calçam um ou outro, são simplesmente pés que sustentam um corpo imbuído de intelecto, pele, ossos, músculos, um ser que se sustenta sobre dois pés, que evoluiu, que pensa e decide. Entedio os outros porque a discussão é sobre valor de mercado e não sobre valor essencial.
Não sei nada sobre valor agregado, capital de giro, mercado de luxo, sei que a grande questão é o que fazer com as pessoas que não se importam em usar uma roupa qualquer, sem levar em conta sua grife.
Roupa é pra proteger a pele do calor ou do frio e a sociedade da nudez que poderia afrontar.
Aí, inventaram que o poder está em ter marcas caras e visíveis. Pra isso colocaram etiquetas, logos, símbolos que demonstrem o poder econômico.
E é um tal de Chanel pra cá, Dior pra lá, Louis Vuitton, Versace, quanto mais grifado o closet mais importante o proprietário dos penduricalhos. E são, simplesmente coisas, não determinam as pessoas, ao contrário, esvaziam as possibilidades de ser. É aí que fico inconveniente, que me torno inferior.
Não tenho closet, tenho armário, não tenho grife, tenho roupas confortáveis, algumas atuais, que me vestem, não carrego a compulsão de aparecer pelo que uso, sou e é isso que me importa.
Alguns diriam que sou assim porque não posso bancar luxos supérfluos, mas já pude e, nem assim, pagava pela vitrine que podia mostrar. Sempre ouvi que dinheiro não aceita desaforo e acho um desaforo classificar as pessoas pelo número de grifes que carregam no corpo.
Hoje em dia, se você não tem um carro imponente, uma casa montada pelo mais caro decorador, roupas exclusivas e caras, enfim, um exterior de dar inveja, você é um zero à esquerda.
Você se mata de trabalhar (em algumas "profissões", roubar), prá fazer parte dos grupos de destaque, pertencer a "alta roda", ser visível pelo que tem.
Deixe que eu me apresente: não sou rica, não me endivido prá mostrar a sola vermelha do meu sapato, penso (logo, existo), não discrimino nem julgo uma pessoa pelo que veste ou pelo que tem. Gosto de gente que me estimule o raciocínio, que troque conhecimento, sabedoria, cultura, que não tenha o olhar viciado em estereótipos, que procure arrancar do, aparentemente, nada, uma partícula de personalidade, de individualidade (no bom sentido), que se destaque da manada.
Você nada é sem ser. Ter não vai fazer diferença, se você não for. Ser é definitivo, ter é transitório.
Não tenho nada e quando me for, nada é o que vou levar.
Em compensação, quando a velha senhora me pegar a mão, deixarei o que fui, o que disse, o que plantei, o que pensei.
Não posso mudar a maneira de pensar dos "amigos", eles são materialistas e se reconhecem pelo que têm. Não deixo de gostar deles pelo que são, mas, quando nos reunimos, sinto essa terrível sensação de exclusão, por não ter os bens que eles acham que é importante, por ser diferente, ser gauche, como dizia o poeta, por não poder aprofundar um bom debate, por não ser entendida. Acho que eles me vêem como uma pessoa excêntrica, o bichinho de estimação deles, a pobrezinha que só consegue usufruir os prazeres da vida através deles, uma pequena obra de caridade dessa fraternidade.
No fundo, acho uma pena eles não usarem o poder do dinheiro pra melhorar suas perspectivas, comprar livros e instrução, obras de arte, apurar o olhar, enxergar que tudo o que, realmente, pertence à eles é a soma do que cultivam dentro de si, que o ter, é simplesmente o que podem comprar e acumular. Eles poderiam se tornar decoradores de seus interiores.
Sou inferior em posses, sou tremendamente inferior em bens aparentes, mas tenho outras prioridades, tenho alguns bens que acumulei: livros, que me ajudaram a preencher e saciar minha ignorância, filmes que me sensibilizaram e me mostraram outras possibilidades, pessoas que me ensinaram a ser e pensar diferente, pessoas que servem pra somar, nunca pra excluir.
As grifes vão continuar dominando mas jamais poderão superar um ser que é, independente do que aparenta ser, por não poder ter.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

NARCOLEPSIA

- Vou te pedir um favor.
- Fala, coração.
- Prá começar, tenho nome, odeio essa coisa de " docinho, amor, benzinho".
- Não sabia, desculpe.
- Agora, já sabe.
- Não vou dar mais apelidos carinhosos mas, depois, não reclama.
- Se eu quiser reclamar, reclamo, sim.
- Credo, que bicho te mordeu? Acordou do lado errado da cama?
- Acordei com dois pés esquerdos e não enche o saco que eu nem tenho.
- Qual é? Tá de TPM?
- Tô, mas é Tensão Pós Matrimônio.
- Mas nós não somos casados!
- Exato.
- Não entendi.
- Parece que estamos casados há séculos!
- E... lá vamos nós. Despeja, vai.
- Tá vendo? É disso que eu estou falando.
- Filha de Deus, me dá uma pista, não tô entendendo nada.
- Não conversamos mais, não namoramos mais, agora tudo é menos.
- Mas não é assim mesmo? Com a relação mais estável, a gente relaxa e acalma.
- Acalma, nada, entra no piloto automático.
- Tá bom, o que você quer?
- Não se trata do que eu quero, não quero nada.
- Peraí, fiquei perdido.
- Novidade.
- O que você quer dizer com isso? Que eu sou sem noção? É isso?
- Tô dizendo que você precisa de um GPS prá te mostrar onde você está!
- Tô aqui, em pé, na cozinha, com você, porra!
- Tá vendo? Você é literal e se irrita com qualquer coisa!
- Para com os rodeios, diz logo qual é. E quem tá irritada é você.
- É você!
- Eu o quê?
- Lembra o que você fez, ontem à noite?
- O que eu fiz?
- Não lembra?
- Pelamordedeus. Eu lembro que cheguei antes de você, tomei banho, liguei a televisão enquanto te esperava, vi um jogo qualquer e você chegou.
- Depois, tô falando de quando eu já estava em casa, não me interessa o que você fez antes, mas depois, DEPOIS!
- Não grita que eu não sou surdo.
- Mas só ouve o que quer.
- Olha só, se você quer me acusar de alguma coisa, fala logo. Não vou ficar tentando acertar a loteria.
- Enquanto EU preparava o jantar, EU dava um jeito na casa, EU servia a mesa, EU lavava a louça, você cochilava no sofá!
- Tava cansado. É crime?
- Cansado do que?
- Cacete, trabalhei o dia inteiro.
- E eu? Ah, é, tinha esquecido, seu trabalho é mais importante do que o meu.
- Isso tudo é porque cochilei?
- Não, isso você faz todo santo dia.
- Isso o que? Cochilar ou essa outra coisa que não sei o que é?
- Essa outra coisa, cochilar só desencadeia o processo.
- Desisto. Ou você desembucha, ou paramos por aqui.
- Paramos o que? A conversa ou a relação?
- Tudo tem que ter dois lados, ou isso ou aquilo? Não dá prá ser mais simples?
 Facilita aí, vai.
- Facilito, sim. Lembra que eu disse que ia te pedir um favor?
- Quando?
- Hoje, agora. Antes de dizer bom dia.
- Você não deu bom dia.
- Pois é, meu bom dia foi "vou te pedir um favor". Na realidade, não vou te pedir nada, vou é dar uma ordem.
- Como disse? Você vai me dar uma o que?
- ORDEM!  Tem mais, ou você acata ou roda.
- Tô com a sensação que vou rodar, porque nem minha mãe me dá ordem. Mas, diga lá, só prá conferir.
- Digo, sim, e preste bastante atenção: quando estiver muito cansado, o que vem acontecendo com frequencia, não encoste sua arma engatilhada em mim.
- Tem a ver com transar comigo?
- Tem a ver com transar e você pegar no sono.
- Quer dizer que não posso dormir depois de transar?
- Não pode dormir é DURANTE e EM CIMA de mim!
- Tá bom, eu fico embaixo, assim você não reclama.
- Tem toda razão.
- Não tenho?
- Tem, meu caro. A porta da rua é a serventia da casa. RODA!


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O PATO E A FORMIGA.

Pato!
Finalmente, descobri a origem do homem.
Não estou me referindo a raça humana, falo do gênero masculino.
Alguém já reparou que o homem espirra água prá todo lado?
No banheiro, por exemplo.
Quando escovam os dentes, o espelho recebe as rebarbas de água com pasta de dente.
Ao fazerem a barba, o entorno da cuba fica ensopado de creme de barbear, pelos e, claro, água.
O chão, também, recebe seu quinhão quando lavam o rosto ou as mãos.
Chuveiro é pouco prá reter a água do banho, sobra sempre para o lado de fora, de preferência, fora do tapete.
Até o vaso sanitário parece pequeno prá eles, pinguinhos esguicham para fora do limite e gotejam direto para o chão.
Tem coisa pior na vida do que entrar no banheiro após ter sido usado por um homem?
Às vezes, tentam nos ajudar com a louça que se avoluma na pia. Começam lavando a louça e terminam escorregando nas poças que se formam no chão da cozinha.
A pobre da pia vira uma lagoa prestes a transbordar.
Parece que não têm percepção do rastro que deixam, que são cobertos de penas impermeáveis, é só se sacudirem que ficam secos e o que estiver em volta encharcado.
Quem não tem um espécime em casa? Seja pai, marido, namorado, colega, algum deles já passou em nossas vidas.
Não há coisa mais irritante do que ter que secar as enchentes sempre que se aproximam de qualquer coisa líquida. É como enxugar gelo. Você vira as costas e, pimba, lá vamos nós, de novo, limpar a lagoa que o patinho deixou.
Depois de extensa pesquisa, exaustiva análise, estudos avançados, cheguei a conclusão que o gênero masculino é desprovido de sensibilidade à água.
Eles até tocam nela, mas ela bate neles e é repelida como se batessem em vidro, escorre ou se espalha sem que o dito cujo perceba a tsunami que provoca.
Uma amiga diz que é porque o homem tem quem limpe sua sujeira, que é cultural. A mulher se dispõe, desde priscas eras, a cuidar da casa e do seu animalzinho de estimação.
Vem cá, se eu tivesse um animal prá cuidar, com certeza seria um de quatro patas, não uma ave de duas.
Reparem bem, o pato sempre se sacode e espalha a água ao seu redor, já que suas penas não as retém.
O pior é que não há jeito de treinar o patinho, seu cérebro não registra "não espalhar água". É tarefa impossível!
Quando leio que água é um bem finito, que há que se economizar, que vai faltar, que o desperdício vai acabar com ela, tento fazer minha parte. Mas de que adianta tanta preocupação se, ao entrar no banheiro, vejo exatamente o contrário. Se quando olho prá pia e para o chão vejo litros dela se espalhando, à toa.
Tenho pesadelos, sonho que vou acordar e estarei boiando na piscina que se tornou minha casa.
E acordo gritando: "olha a água!".
Comecei a desenvolver a "síndrome de final de semana". É quando o trabalho triplica, porque eles vão ficar mais tempo em casa, consequentemente, mais água prá secar.
Sexta feira já começo a rezar prá que aquilo termine logo.
E se reclamo, ainda sou implicante. Mas se não limpo sou relaxada.
Trabalho só aparece quando não é feito. Se você mantém tudo limpo e organizado, não tem do que reclamar. Só que as coisas não se fazem, são feitas.
A roupa não se limpa sòzinha, alguém as lava. As camas não são feitas quando você pisca os olhos e o pó não desaparece quando mexe o narizinho.
Casa é trabalho eterno e desgastante porque, além de não ser valorizado, não aparece quando é feito.
E essas avezinhas, tão bonitinhas, são as maiores causadoras do stress.
Na outra encarnação quero ser "pato".
Cansei de ser formiga.



terça-feira, 19 de julho de 2011

APRENDIZ

Apague a luz. Deite ao meu lado.
Hoje eu vou guiar teu desejo. Você vai procurar o meu.
O único sentido que não vamos usar é a visão.
Vamos ser cegos por algumas horas, buscar os outros quatro sentidos que achamos que usamos entre nós.
Comece lendo meu corpo nas pontas de seus dedos. Desvende meus poros, sinta meus pelos, percorra meus braços, meu ventre, meu rosto. Sinta em minhas costas o caminho que vai do pescoço até o cóccix. Sabia que tenho covinhas em minhas ancas? Tente gravar o que seu tato lê.
Segure minha mão, meus seios, apalpe meu quadril, aperte meus braços, minhas pernas, sinta.
Agora, apure o olfato, como um animal, me cheire. Cheire meu pescoço, minhas reentrâncias, cheire o ar que se desprende de mim, perceba o aroma que só eu tenho.
Eu sei o seu. Você cheira a mato, a folha que recém caiu, cheira a terra depois da chuva.
Qual é o meu? Descubra.
Ouça. Me ouça. Qual a frequência dos meus suspiros, meus gemidos, quantos decibéis têm meus gritos?
Entro no seu prazer pelo som? Você entra no meu pelo riso alto, pelo som gutural. Você cerra os dentes e deixa passar o ar entre eles, como um assovio.
Prove meu gosto, desenhe com a língua seu nome em minha pele, escolha o lugar. Sinta o sal que tenho no suor e o sabor adocicado de minha seiva. Conheço teu gosto agridoce quando o prazer explode. Detenha-se, conheça, explore.
Faço com você o que nunca fiz, permito que me conheça.
Quando apagamos a visão, entendemos o que o outro quer. Essa é a grande vantagem dos cegos, enxergar além do que os olhos vêem. Porque ver e enxergar são duas coisas distintas.
Ver é captar a imagem, enxergar é entender o que vê. Na ponta dos dedos se enxerga melhor.
Ouvir, também, é diferente de escutar. Escutar fica na superfície, ouvir é mais profundo. Escuto qualquer coisa, ouço o que me interessa.
Comer não é degustar. Como prá sobreviver, degusto o que me dá prazer. Prove meu sabor.
Propus essa expedição porque  quero que você conquiste seus sentidos, anule a razão e se perca na intensidade do desejo, não só físico.
Não facilite a entrega, não apresse o gozo, não menospreze o prazer. Prolongue o desejo.
Caminhe na ponta dos dedos, libere o tato.
Defina o perfume que exalamos, juntos, use a memória olfativa.
Tenho lembrança de outros perfumes, gravei o teu.
Onde estiver, com ou sem você, vou lembrar do teu cheiro.
E o gosto? Posso provar milhões de sabores, o teu será único.
Quero que você me descubra e me faça especial.
Você vai se lembrar de mim, vai sentir que não me visitou, viveu em mim.
Vai me associar a cheiros que virão de fora, maresia, terra molhada, alguma fruta, qualquer flor.
Vai me ouvir no som do rio correndo, da onda batendo, do vento uivando ou do que me represente em sua memória.
E sua lingua vai guardar o gosto que só eu tenho e só você sabe qual é.
E quando sua sensibilidade estiver apurada, talvez eu te mostre um caminho que só as mulheres conhecem, a intuição.
Mas o sexto sentido só vai aflorar quando todos os outros puderem ser usados sem treino, espontâneamente.
Porisso, vamos às aulas, comecemos do início.
Tente ser um aluno aplicado, o que estou ensinando não é só prá mim, é prá depois de mim, também.
No escuro, você vai entender o que significa estar com quem se quer.
Vem, me dê sua mão. Apague a luz.