Era linda.
Sempre chamou atenção pela beleza. Beleza clássica, incomum.
Mas era triste, de uma tristeza que doía em quem a conhecia.
Nunca soube o que fazer da vida, não aprendeu a ser.
Era grande, alta e larga, e tão pequena, desprotegida.
Tentava não ocupar espaço, tentava ser invisível.
Não queria contaminar os outros com sua dor.
Dor existencial, dor de tanta solidão.
Amava tudo, amava todos, não escolhia, amava.
Se foi amada, nunca soube, nunca ouviu.
Era generosa, doava-se, talvez na intenção de sair de si, de viver no outro.
Ria e se escondia no riso, forçava felicidade.
Gostava de sair, esperando esbarrar em possibilidades, pequenas que fossem.
Fantasiava com essa vida emprestada.
-Quando eu for..., quando eu tiver..., quando eu puder..., e outros quandos que nunca vieram.
Nunca, foi seu quando.
Atava-se às filhas prá não ficar à deriva.
Dava todo seu amor estocado à elas, à neta, aos amigos, à família.
Perdia sua identidade, mesclava-se, sumia.
Tinha essa beleza triste, sofrida, machucada por tanto nada que teve.
Seus olhos mostravam a descrença, poucas vezes brilharam.
Perdeu tempo, contando os dias.
Perdeu dias, contando as horas de inquietação.
Perdeu horas tentando entender onde estava seu erro.
E seu erro era não acreditar que merecia ser feliz.
Era, essencialmente boa, uma bondade que chegava a incomodar.
Acreditava em tudo e a todos perdoava, herança paterna.
Carregava-se como um fardo, pesava-lhe existir.
Se despediu da vida assim que nasceu, nenhum mistério nisso, nos dirigimos à morte desde que saímos do ventre materno.
Mas tentamos sobreviver com planos, metas, sonhos. Ela, não.
Fingia com seus "quando" que estava presente à vida.
Tinha uma melancolia atávica, entranhada em seu DNA.
E de dor em dor, dia após dia, esperou.
Esperou o amor, o abraço, o aconchego, esperou o sentido de sua vida.
E a vida passou por ela sem notar sua presença.
domingo, 27 de maio de 2012
ALERTA
Insônia,
inapetência,
taquicardia,
ansiedade,
pensamento obsessivo,
sudorese,
estômago habitado por borboletas,
tensão,
stress.
Definitivamente, amar faz mal à saúde.
inapetência,
taquicardia,
ansiedade,
pensamento obsessivo,
sudorese,
estômago habitado por borboletas,
tensão,
stress.
Definitivamente, amar faz mal à saúde.
COMIGO ME DESAVIM
Andei brigada comigo. Me desaforando. Me chamando prá briga.
Estava de mal comigo. Me dei os dedos mindinhos, como quando era criança e trocava de mal com o amigo.
Não me olhava no espelho, não queria nem ver a minha cara.
Me chateei comigo, me disse coisas bem rudes e nem me desculpei.
Me chamei de burra, eu que sou até inteligente.
Me destratei, me xinguei, me aborreci prá valer, comigo.
Esqueci que sou minha amiga e me falei verdades cruas.
Me disse: quem é você prá acreditar no amor? Você já passou da idade!
Me respondi: mas amor tem idade prá acontecer?
E me falei, sem piedade: isso é coisa de gente jovem! Repara nas suas rugas.
Não bastava me repreender, tinha que me derrubar.
Briguei comigo porque me aventurei no amor, acreditei ser possível que alguém me amasse.
- Pera lá, me disse. Com tanta mulher bonita, jovem, esperando pelo amor, você realmente acredita que vai acontecer com você?
Tímidamente, me respondi: por que, não? O amor não escolhe, surpreende.
Me olhei com cenho franzido, e de minha boca sairam palavras que me atingiram o estômago como um soco.
- Você se ilude. Coisa de mulher de meia idade. Quer se sentir viva prá enganar a morte!
Confesso, baqueei.
Era isso que tínhamos? Pretexto prá tentar negociar com a morte? Últimos estertores? Último desejo? Extrema unção?
Tentei reagir, me dizendo que: não, não foi isso que eu tive, não pode ter sido só isso!
Me ataquei, de novo: deixe de ser besta, você foi usada e descartada. Rei morto, rei posto! Alguma dúvida? Aposto que, nesse momento, outra já tomou o seu lugar. Existem milhões como você, disponíveis, loucas prá serem enganadas, prá acreditarem que são especiais. Burra!
Me esfreguei na cara a impossibilidade de ser recortada e destacada na vida de alguém.
Briguei comigo, já nem sabia quem era a que atacava ou a que defendia. Era eu, comigo, misturando papéis. Saí no tapa. Desferi golpes baixos, chutei minhas canelas, me puxei pelos cabelos.
Me cobri de hematomas, sangrei meus lábios, feri meus brios e arrebentei meu amor próprio.
Fui ré e juíza, vítima e algoz, me embaralhei comigo.
Passei uma semana sem me falar, por fim achei que aquela desavença tinha que acabar.
Me procurei prá conversar comigo.
De início me fiz de ofendida, relutei em aceitar as pazes.
Tinha me dito coisa cruéis, me descuidei da delicadeza que podia ter tido, me tratei como uma qualquer, e não sou, sou eu, tinha que ter me tratado com mais cuidado. Me bati e apanhei de mim, perdi a elegância, perdi as estribeiras, perdi o juízo.
Fui ao espelho, me olhei dentro dos olhos, fixamente, me encarei sem máscara, sem defesa, éramos eu e eu mesma, nos reencontrando.
Me disse: ele dizia que meus olhos era o que ele mais gostava em mim.
Me respondi: porque você o enxergava, de verdade.
Falei-me: não me maltrate, me ajude. Ainda dói.
Toquei meu rosto refletido no espelho, me acariciei e chorei comigo.
Você tinha razão, me disse. Eu quis sonhar, voar alto, esquecer de mim, me entregar.
Me abracei e me perdoei por ter sido, por algum tempo, a mentira que criei prá mim.
Ainda estou estremecida comigo, juntando os pedaços que arranquei de mim.
Mas vou sair das cordas, da lona, do ringue.
E quando estiver inteira, vou viajar comigo.
Me prometi não me trair nunca mais, me comprometi a recolher e guardar as asas que achei que me pertenciam.
Hoje eu sei que asas são prá pássaros, gente como eu, que não pode voar, tem que cuidar do chão onde pisa e evitar escorregões.
Na minha idade, posso quebrar o fêmur!
Estava de mal comigo. Me dei os dedos mindinhos, como quando era criança e trocava de mal com o amigo.
Não me olhava no espelho, não queria nem ver a minha cara.
Me chateei comigo, me disse coisas bem rudes e nem me desculpei.
Me chamei de burra, eu que sou até inteligente.
Me destratei, me xinguei, me aborreci prá valer, comigo.
Esqueci que sou minha amiga e me falei verdades cruas.
Me disse: quem é você prá acreditar no amor? Você já passou da idade!
Me respondi: mas amor tem idade prá acontecer?
E me falei, sem piedade: isso é coisa de gente jovem! Repara nas suas rugas.
Não bastava me repreender, tinha que me derrubar.
Briguei comigo porque me aventurei no amor, acreditei ser possível que alguém me amasse.
- Pera lá, me disse. Com tanta mulher bonita, jovem, esperando pelo amor, você realmente acredita que vai acontecer com você?
Tímidamente, me respondi: por que, não? O amor não escolhe, surpreende.
Me olhei com cenho franzido, e de minha boca sairam palavras que me atingiram o estômago como um soco.
- Você se ilude. Coisa de mulher de meia idade. Quer se sentir viva prá enganar a morte!
Confesso, baqueei.
Era isso que tínhamos? Pretexto prá tentar negociar com a morte? Últimos estertores? Último desejo? Extrema unção?
Tentei reagir, me dizendo que: não, não foi isso que eu tive, não pode ter sido só isso!
Me ataquei, de novo: deixe de ser besta, você foi usada e descartada. Rei morto, rei posto! Alguma dúvida? Aposto que, nesse momento, outra já tomou o seu lugar. Existem milhões como você, disponíveis, loucas prá serem enganadas, prá acreditarem que são especiais. Burra!
Me esfreguei na cara a impossibilidade de ser recortada e destacada na vida de alguém.
Briguei comigo, já nem sabia quem era a que atacava ou a que defendia. Era eu, comigo, misturando papéis. Saí no tapa. Desferi golpes baixos, chutei minhas canelas, me puxei pelos cabelos.
Me cobri de hematomas, sangrei meus lábios, feri meus brios e arrebentei meu amor próprio.
Fui ré e juíza, vítima e algoz, me embaralhei comigo.
Passei uma semana sem me falar, por fim achei que aquela desavença tinha que acabar.
Me procurei prá conversar comigo.
De início me fiz de ofendida, relutei em aceitar as pazes.
Tinha me dito coisa cruéis, me descuidei da delicadeza que podia ter tido, me tratei como uma qualquer, e não sou, sou eu, tinha que ter me tratado com mais cuidado. Me bati e apanhei de mim, perdi a elegância, perdi as estribeiras, perdi o juízo.
Fui ao espelho, me olhei dentro dos olhos, fixamente, me encarei sem máscara, sem defesa, éramos eu e eu mesma, nos reencontrando.
Me disse: ele dizia que meus olhos era o que ele mais gostava em mim.
Me respondi: porque você o enxergava, de verdade.
Falei-me: não me maltrate, me ajude. Ainda dói.
Toquei meu rosto refletido no espelho, me acariciei e chorei comigo.
Você tinha razão, me disse. Eu quis sonhar, voar alto, esquecer de mim, me entregar.
Me abracei e me perdoei por ter sido, por algum tempo, a mentira que criei prá mim.
Ainda estou estremecida comigo, juntando os pedaços que arranquei de mim.
Mas vou sair das cordas, da lona, do ringue.
E quando estiver inteira, vou viajar comigo.
Me prometi não me trair nunca mais, me comprometi a recolher e guardar as asas que achei que me pertenciam.
Hoje eu sei que asas são prá pássaros, gente como eu, que não pode voar, tem que cuidar do chão onde pisa e evitar escorregões.
Na minha idade, posso quebrar o fêmur!
sábado, 26 de maio de 2012
PEDRA SOBRE PEDRA
"No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho..."
Carlos Drumond de Andrade.
E, apesar disso, temos que prosseguir.
Tropeçando, pulando, pisando, desviando, retirando, ignorando, valorizando, cada um escolhe como lidar com as dificuldades que surgem.
Eu, particularmente, paro e lido com ela.
Em alguns casos, é pura perda de tempo, em outros é parada obrigatória.
Há casos em que as pedras são colocadas como armadilhas, um teste de resistência.
Quando a pedra é muito grande, pode fazer estragos consideráveis.
Mas como fingir que ela não está ali? Não consigo, tenho que me deter diante dela.
Pedras grandes demandam mais tempo, a remoção é mais demorada.
Mas, como água, vou de encontro à ela, suavemente, até tirar-lhe as arestas.
Envolvo-a em um abraço, até penetrar nela, criando fragilidade, porosidade.
Enfrento de dentro prá fora, mergulho na escuridão, buscando a fresta de luz que me guiará prá sair do outro lado.
Só assim, consigo remover a pedra no meu caminho.
Não digo que é fácil, digo que é necessário.
Não aceito que pedras bloqueiem minha estrada, mas não ignoro.
Vou catando pedras como quem cata feijão.
Cozinhando as dificuldades, me alimentando de soluções.
Assim é a vida, entre pedras, até encontrar um diamante.
Uns acham, outros perdem, a maioria não consegue distinguir o que é um e o que é outro.
Não sou gemóloga, não tenho facilidade de reconhecer um diamante, mas não descarto as pedras, recolho-as, guardo-as, se não tiverem valor, coleciono-as.
Assim como debulho o feijão, garimpo pedras, não importa o tamanho, sempre terão serventia.
Ao menos, me provarão que não me acovardei diante do mais forte.
E me lembrarei sempre que, antes de Carlos Drumond, Fernando Pessoa dizia:
"Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia, vou fazer um castelo..."
FACES
Essa sou eu, solar.
Por mais que a noite queira se impor,
meu sol volta a brilhar.
Essa sou eu, fruta madura,
macia por dentro, protegida
por casca dura.
Essa sou eu, primavera,
onde flores renascem
sem longa espera.
Essa sou eu, esperança,
cuidando de mim,
escolhendo a lembrança.
Essa sou eu, viajante,
não importa o caminho,
sigo adiante.
Essa sou eu, combatente
de lutas inúteis que
me tornam resistente.
Essa sou eu, transparente,
cristal por mim lapidado,
e porisso, diferente.
Essa sou eu, minha seta,
meu arco, meu alvo,
minha própria meta.
Essa sou eu, a que acredita
que a vida é mais do que
a que me foi dita.
Essa sou eu, curandeira,
que lambe as próprias feridas,
e se faz, de novo, inteira.
Essa sou eu, feiticeira,
criando poções, magias,
fazendo de mim o que queira.
Essa sou eu, destemida,
sem passado, sem futuro,
sendo o presente da vida.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
DE BABEL E DE MARFIM
Caminhava olhando para os pés, queixo colado ao peito, como se nada mais pudesse ver de novo.
Não olhava para os lados, o periférico sumira, envolto em certezas arraigadas.
Todo entorno, já sabido, igual.
Sonhos, todos já sonhados e não realizados. Vida, contemplada pelas janelas dos olhos.
Nada restava, igual ou diferente, além do conhecido.
Caminhava distraída, envolvida em sua solidão, já amiga.
Tinha a si mesma, como companheira e cúmplice, no desperdício da existência.
Todas as paisagens apagadas, todos os sentimentos domados, todas as vontades e esperanças adormecidas, todo o corpo anestesiado e toda a tristeza que carregava, empurravam aquela mulher frágil para o cotidiano, mecânico e previsível.
Caminhava sabendo o futuro, pitonisa de sua sorte, prevendo guerras interiores, embates fratricidas, recriações de si mesma e demolições de cada torre erguida. As de Babel e as de Marfim.
Á cada passo, incorporava uma falta, de si, de algo, de alguém.
O caminho parecia, à cada dia, mais longo, mais difícil, mais íngreme. Cadafalso.
Nada esperava, nada mais desejava, senão o fim daquele caminho tortuoso.
Nada esperando, aconteceu o inesperado.
Olhando seus próprios pés, vislumbrou outro vulto, uma sombra que caminhava ao seu lado.
Ouviu ruídos de outra respiração, sentiu o calor de outro corpo.
Apressou o ritmo de suas passadas, acreditando estar imaginando para si, uma companhia.
Passos apressados a acompanharam e se aproximaram.
Tentou resistir àquela visão, apertando os olhos, cravando as unhas na palma da mão.
Assustada, ergueu a cabeça, abriu os olhos, fosse o que fosse, seria passageiro.
E lá estava ele, você, olhando sorridente, ofegante, estendendo a mão, convidando para dar um passeio em outra vida.
Com medo de que fosse uma trapaça de seu desejo inconfesso, rejeitou a oferta, buscando, na negação, seu refúgio.
Ele, você, postou-se á frente do caminho, cortou qualquer desvio, impôs sua presença.
Mostrou que o caminho que ele, você, escolhera era mais largo, com novas paisagens, novas cores e perfumes. Mostrou que a vida podia ser diferente, acompanhada.
Tomou-lhe as mãos de conforto, encheu-as de afeto, levou-a prá dançar, levitar, sentir.
Deixaram para trás todas as correntes que aprisionavam, todos os muros que escondiam e todos os carcereiros que ela criara.
Ele, você, deu alma ao corpo frágil, envolveu com suas asas aquela mulher que não sabia voar.
Ele, que era passageiro, não passou. Você, ficou.
Não olhava para os lados, o periférico sumira, envolto em certezas arraigadas.
Todo entorno, já sabido, igual.
Sonhos, todos já sonhados e não realizados. Vida, contemplada pelas janelas dos olhos.
Nada restava, igual ou diferente, além do conhecido.
Caminhava distraída, envolvida em sua solidão, já amiga.
Tinha a si mesma, como companheira e cúmplice, no desperdício da existência.
Todas as paisagens apagadas, todos os sentimentos domados, todas as vontades e esperanças adormecidas, todo o corpo anestesiado e toda a tristeza que carregava, empurravam aquela mulher frágil para o cotidiano, mecânico e previsível.
Caminhava sabendo o futuro, pitonisa de sua sorte, prevendo guerras interiores, embates fratricidas, recriações de si mesma e demolições de cada torre erguida. As de Babel e as de Marfim.
Á cada passo, incorporava uma falta, de si, de algo, de alguém.
O caminho parecia, à cada dia, mais longo, mais difícil, mais íngreme. Cadafalso.
Nada esperava, nada mais desejava, senão o fim daquele caminho tortuoso.
Nada esperando, aconteceu o inesperado.
Olhando seus próprios pés, vislumbrou outro vulto, uma sombra que caminhava ao seu lado.
Ouviu ruídos de outra respiração, sentiu o calor de outro corpo.
Apressou o ritmo de suas passadas, acreditando estar imaginando para si, uma companhia.
Passos apressados a acompanharam e se aproximaram.
Tentou resistir àquela visão, apertando os olhos, cravando as unhas na palma da mão.
Assustada, ergueu a cabeça, abriu os olhos, fosse o que fosse, seria passageiro.
E lá estava ele, você, olhando sorridente, ofegante, estendendo a mão, convidando para dar um passeio em outra vida.
Com medo de que fosse uma trapaça de seu desejo inconfesso, rejeitou a oferta, buscando, na negação, seu refúgio.
Ele, você, postou-se á frente do caminho, cortou qualquer desvio, impôs sua presença.
Mostrou que o caminho que ele, você, escolhera era mais largo, com novas paisagens, novas cores e perfumes. Mostrou que a vida podia ser diferente, acompanhada.
Tomou-lhe as mãos de conforto, encheu-as de afeto, levou-a prá dançar, levitar, sentir.
Deixaram para trás todas as correntes que aprisionavam, todos os muros que escondiam e todos os carcereiros que ela criara.
Ele, você, deu alma ao corpo frágil, envolveu com suas asas aquela mulher que não sabia voar.
Ele, que era passageiro, não passou. Você, ficou.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
CAMPEONATO
Vai começar a partida.
Início de jogo é sempre de provocações, escondendo o respeito e o medo.
Tentamos desestabilizar a segurança do adversário, usamos as armas da retórica.
Ao irmos para o meio do campo para começar a partida, nos olhamos em desafio, lados opostos, imaginando o que vai acontecer e, claro, querendo ganhar o jogo.
E começa o clássico, EU X VOCÊ.
Vou rolando a bola, você marcando em cima.
Dou um passe prá mim mesma, mato no peito e avanço com a pelota controlada.
Você me rouba a bola e dispara em sentido contrário.
Corro atrás, tento retomar a redonda, tento uma, você escapa, tento duas, você consegue retomar, tento três e faço falta.
Você ri e cobra, mandando a bola prá você, já centroavante.
Disparo prá posição de zagueiro, me coloco e você chuta.
Pontaria errada. Ansiedade demais faz errar o chute e é tiro de meta.
Goleira que sou, me preparo prá lançar a bola para o campo adversário. Chuto e corro prá chegar à ela, recebo e rolo, com o peito do pé, olhando prá trás prá medir à que distância você está.
Deixo que você se aproxime e te driblo, e dou chapéu e passo-a entre suas pernas, levanto a bola com um bico e faço com que ela caia, maciamente nos meus pés atacantes, chuto com precisão mas você faz uma extraordinária defesa.
Se abraça com ela no gramado, protegendo-a de mim.
Espera que eu me afaste um pouco e lança-a com as mãos prá si mesmo, lateral esquerdo, sua posição inconteste, seu domínio.
Me atrai prá brincar de gato e rato, ri frontalmente de meu esforço prá roubar a bola, ladra que sou.
E passa por mim como um foguete, me fazendo comer grama e escorregar.
Vai em velocidade, sem que eu, meio de campo ou zagueira, consiga te reter.
E me vejo goleira, frente à frente, com você, que dá uma paradinha antes de chutar à gol.
Espero ofegante, com os olhos esbugalhados e fixos o potente chute, quando soa um apito e te coloca em impedimento..
Você xinga, esbraveja, reclama, eu rio, alivio, respiro.
Impedimento benvindo.
Cobrado o impedimento, a bola é atraída por seus pés que a controla, pisa nela e escolhe a jogada por fazer.
Lança um olhar e percebe as traves desprotegidas, chamando por um gol certeiro e chuta, em curva, sem dificuldade prá acertar as redes.
E é gooooooooooooooooooooooooooollll!
Golaço! De craque, que você é.
Atinge de supetão, com precisão, jogada ensaiada e previsível.
Nesse momento, me convenço que sou time de várzea, me esforço, treino, mas não sou nenhum craque.
Tenho que respeitar medalhão, o que conhece o jogo, o que dedicou sua vida a jogar e que quer ganhar.
Aprendi a perder no jogo, sem desculpas.
Sou perna de pau, vivo contundida, perco nos dribles e não ganho nem um ponto. Unzinho, que seja.
Mas quando tiro as chuteiras e coloco o salto agulha, ninguém ganha de mim. Sou rainha.
E, apesar de jogar mal demais, jamais cavei penalti, nunca fiz catimba e sempre cumprimentei os adversários pela vitória.
Minhas partidas sempre terminam com o respeito que o outro time merece.
Tiro o uniforme suado e sujo da batalha que perdi, tomo um bom e revigorante banho, e me preparo para o próximo jogo.
Possivelmente, perderei mais uma e mais outra e mais centenas de vezes.
Mas sou imbatível no fair play.
Início de jogo é sempre de provocações, escondendo o respeito e o medo.
Tentamos desestabilizar a segurança do adversário, usamos as armas da retórica.
Ao irmos para o meio do campo para começar a partida, nos olhamos em desafio, lados opostos, imaginando o que vai acontecer e, claro, querendo ganhar o jogo.
E começa o clássico, EU X VOCÊ.
Vou rolando a bola, você marcando em cima.
Dou um passe prá mim mesma, mato no peito e avanço com a pelota controlada.
Você me rouba a bola e dispara em sentido contrário.
Corro atrás, tento retomar a redonda, tento uma, você escapa, tento duas, você consegue retomar, tento três e faço falta.
Você ri e cobra, mandando a bola prá você, já centroavante.
Disparo prá posição de zagueiro, me coloco e você chuta.
Pontaria errada. Ansiedade demais faz errar o chute e é tiro de meta.
Goleira que sou, me preparo prá lançar a bola para o campo adversário. Chuto e corro prá chegar à ela, recebo e rolo, com o peito do pé, olhando prá trás prá medir à que distância você está.
Deixo que você se aproxime e te driblo, e dou chapéu e passo-a entre suas pernas, levanto a bola com um bico e faço com que ela caia, maciamente nos meus pés atacantes, chuto com precisão mas você faz uma extraordinária defesa.
Se abraça com ela no gramado, protegendo-a de mim.
Espera que eu me afaste um pouco e lança-a com as mãos prá si mesmo, lateral esquerdo, sua posição inconteste, seu domínio.
Me atrai prá brincar de gato e rato, ri frontalmente de meu esforço prá roubar a bola, ladra que sou.
E passa por mim como um foguete, me fazendo comer grama e escorregar.
Vai em velocidade, sem que eu, meio de campo ou zagueira, consiga te reter.
E me vejo goleira, frente à frente, com você, que dá uma paradinha antes de chutar à gol.
Espero ofegante, com os olhos esbugalhados e fixos o potente chute, quando soa um apito e te coloca em impedimento..
Você xinga, esbraveja, reclama, eu rio, alivio, respiro.
Impedimento benvindo.
Cobrado o impedimento, a bola é atraída por seus pés que a controla, pisa nela e escolhe a jogada por fazer.
Lança um olhar e percebe as traves desprotegidas, chamando por um gol certeiro e chuta, em curva, sem dificuldade prá acertar as redes.
E é gooooooooooooooooooooooooooollll!
Golaço! De craque, que você é.
Atinge de supetão, com precisão, jogada ensaiada e previsível.
Nesse momento, me convenço que sou time de várzea, me esforço, treino, mas não sou nenhum craque.
Tenho que respeitar medalhão, o que conhece o jogo, o que dedicou sua vida a jogar e que quer ganhar.
Aprendi a perder no jogo, sem desculpas.
Sou perna de pau, vivo contundida, perco nos dribles e não ganho nem um ponto. Unzinho, que seja.
Mas quando tiro as chuteiras e coloco o salto agulha, ninguém ganha de mim. Sou rainha.
E, apesar de jogar mal demais, jamais cavei penalti, nunca fiz catimba e sempre cumprimentei os adversários pela vitória.
Minhas partidas sempre terminam com o respeito que o outro time merece.
Tiro o uniforme suado e sujo da batalha que perdi, tomo um bom e revigorante banho, e me preparo para o próximo jogo.
Possivelmente, perderei mais uma e mais outra e mais centenas de vezes.
Mas sou imbatível no fair play.
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