Não é que eu seja exigente, sou seletiva.
Tentam me vender gato por lebre e acham que vou engolir.
Não aceito que me empurrem, goela abaixo, menos do que me devem.
Sei que, às vêzes, tenho mais do que preciso, mais afeto, mais paciência, mais jogo de cintura, mais espaço e, em determinadas ocasiões, menos, muito menos.
Acham que amar basta mas, meu caro, amar não basta. Em todos os sentidos.
Amar não é determinar o que o outro merece. Amor é verbo conjugado a dois, sem esquecer que o parceiro é um indivíduo e não metade. Não sou meia pessoa, não sou sombra de ninguém.
Não admito que sombreem minha vida, assim como não permito que qualquer pessoa se deite em minha sombra.
Nunca enganei ninguém, o que se vê é o que se tem. Nunca fui de jogar prá ganhar, sempre fui transparente.
Amar é laço, não é nó.
Se apertam o nó, falta oxigênio e sem respirar, morro.
Todo início de relação deveria ser o momento de usar o manual de instrução:
1° passo: Não esqueça que o produto é frágil, cuidado quando manusear!
2° passo: Quando o aparelho super aquecer, se afaste por algum tempo para que ele esfrie.
3° passo: Não deve ser usado diariamente para não haver desgaste.
4° passo: Use com moderação e atenção para mantê-lo em perfeito funcionamento.
5° passo: Quando precisar de assistência técnica, talvez seja o momento de trocá-lo.
6° passo: Em caso de troca, mantenha distância do antigo.
Isso evitaria muita dor de cabeça.
Desconfiei que nosso produto estava deteriorando quando começou o cuidado extremado, o interrogatório, o controle.
Saiba que nem a mim dou satisfações do que faço. Se não é imoral nem ilegal, faço.
Nunca te trai e confesso que você merecia. Acontece que não sou assim, não sei começar nada sem terminar e enterrar o que passou. Até porque, o próximo não tem que pagar as penas do anterior. Se vou prá uma relação, vou zerada. Seria um desperdício de tempo e energia ficar cobrando os erros de uma outra pessoa. Cada relação tem um código, escrito pelos que estão nela, acordado pelas partes.
Ainda não nasceu quem me diga o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer. Não sou maluca nem impulsiva, uso meu cérebro e os limites dos outros prá perceber até onde posso ir sem arrombar a porta da privacidade.
Respeito silêncios e sumiços, melhor não falar quando não se tem nada prá dizer, bem melhor sumir quando falta espaço, quando o garrote sufoca.
Não sou criança prá que me digam onde posso ir, com quem devo estar. Sou criança quando me divirto, quando escancaro o riso e brinco, gosto de brincar.
Sou responsável por mim e não sou deficiente emocional, não preciso de bengala prá apoiar meus desacertos. São meus e deles eu cuido.
Mas, também, não sou analista de plantão prá que despejem em meus ouvidos as agruras de uma vida muito mal resolvida.
Não que a minha seja sem problemas, ela é cheia deles, mas, por favor, estar com alguém deveria ser mais prazeroso e menos enfadonho e repetitivo.
Todo mundo tem seu dia de raios e trovões, cansei de me ensopar nas minhas tempestades emocionais, me lanhei em relações espinhosas, sangrei com cortes secos, mas lambia minhas feridas e esperava cicatrizar sem alugar um incauto qualquer.
Não uso afeto como peça de reposição, sai um entra outro. Não sofro dessa carência, graças a Deus.
E aprendi a sair com elegância em qualquer situação, chutando ou sendo chutada.
Você foi propaganda enganosa, vendeu o que não tinha, mostrou o produto maquiado.
Foi o próprio "médico e monstro", início gentil, divertido, atencioso, e se transformou quando me envolvi e confiei.
Sou difícil de ser enganada mas você conseguiu. Que ator! Que talento desperdiçado!
Como não sou platéia, sequer aplaudo.
Se vale o conselho, não pese a mão na próxima, deixe espaço prá respirar, enterre os fantasmas de outras que passaram em sua vida, enxergue com outros olhos seu próximo amor, faça com que ele seja leve, suave, escolha ser feliz, despreocupado. Ninguém fica com ninguém, se não quiser, não adianta forçar, perde o encanto, perde o prazer, a espontaneidade, perde a razão de amar.
Construa uma vida com espaço suficiente prá dois, deixe portas e janelas abertas, assim, vendo que se tem liberdade, sempre se escolhe ficar.
Eu escolhi partir e, ao sair, espero ter fechado prá sempre a porta estreita por onde escapei.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
HO! HO! HO!
Só um minutinho, vou lá na esquina e já volto!
É o que dá vontade de fazer, em fim de ano.
Juro que tenho ganas, todo bendito ano, de sumir em 1° de dezembro e só voltar depois do carnaval!
Rapaz, é muita pressão!
A fúria assassina de presentes, visitas ao shopping, lembrancinhas de última hora, preparação de ceia, obrigação de estar feliz - e não interessa se você É feliz ou não- receber com sorrisos quem você sabe que vai sair falando mal de tudo - desde o peru que estava mal temperado até o presente que vai ser repassado prá ajudante do lar- trabalhar que nem uma égua puxando carroça, e, ainda por cima, ter que se preparar prá receber em alto estilo: unhas e cabelos bem feitos, roupa impecável, perfume suave e muito guaraná em pó prá segurar o antes e o depois da ceia.
Finda a noite, resta a cozinha em frangalhos, exatamente como seu corpinho, pés doendo por causa daquela sandália ma-ra-vi-lho-sa mas absolutamente imprópria prá quem vai ficar em pé a noite toda.
Ai, que vontade de chorar quando olho prá pia e vejo que a noite vai ser um pouquinho mais longa do que eu queria.
Completada a organização, depois de duas horas limpando e guardando louças, rearrumando a geladeira prá caber toda a sobra, dando uma geral na casa - vício que herdei de minha mãe que dizia: "Casa tem que dormir arrumada, vai que passa mal à noite e tem que chamar um médico? Imagina a vergonha!" - preparo-me prá dormir.
Tomo um longo banho - com direito a sais e espuma, que eu mereço - ligo o ar condicionado, porque Natal nos trópicos só perde prá sauna à vapor e me deito.
Cadê o sono?
A agitação foi tamanha que o sono se perdeu no caminho.
Rolo prá cá, rolo prá lá, pego um livro, ligo a televisão - potente sonífero prá mim - e nada.
Nesse maldito instante, a cabeça começa a funcionar à mil.
_"Xô, pensamento, vou imaginar uma página em branco" e vejo, literalmente, uma ...página em branco, e a infeliz não vai embora!
Quando, enfim, caio no sono, toca o despertador. Desorientada desligo o celular, segundos depois a campainha da porta toca e eu soco o despertador. A campainha soa, novamente, aí me dou conta de que são algumas pessoas que voltaram para o "enterro dos ossos".
Pulo da cama, visto qualquer coisa que está à mão, abro a porta e dou de cara com aqueles que acabaram de sair. Foram prá casa e encontraram tudo limpo e em ordem, deitaram, dormiram, fofocaram sobre a noite passada e voltaram prá recomeçar.
A zumbi, apatetada pela noite mal dormida, vai recomeçar a função que mal terminou.
Sem falar nas saias justas que, infalivelmente, acontecem.
Família é um poço de histórias mal resolvidas.
Tem a mulher do irmão que se porta como uma rainha e tem que ter tudo à mão, não se levanta nem prá esfriar a cadeira, as crianças que infernizam com seus gritos e choros e não se pode reclamar porque os pais se ofendem, a tia solteirona e seus achaques prá chamar atenção, o primo que fala como se estivesse brigando e tem sempre razão, diga a asneira que disser, tem o tio super, hiper animado que, depois de algumas doses, resvala na grosseria e constrange a mulher, a prima gostosa que conta prá quem queira ouvir - e também prá quem não queira - suas conquistas e os destroços humanos que deixa pelo caminho e os irmãos que cobram qualquer coisa e sempre, aconteça o que acontecer, relembram a infância e as "artes" que EU fazia. Eles eram perfeitos, eu era a atrapalhada que só fazia bobagem. Ai, Deus, dai-me...
Fico observando e tendo a impressão que, não importa o ano, é sempre a mesma coisa: a mesma conversa, os mesmos conflitos, as mesmas pessoas, como se, naquela data, descongelassem e repetissem a mesma situação.
A tarde passava em câmera lenta, até que, repentinamente, aconteceu algo novo e desconcertante.
Uma tia, a constrangida, levantou-se, bateu com a colher na taça e pediu a atenção de todos.
_"Silêncio, por favor. Quero aproveitar esse momento em que a família está quase toda presente para fazer um comunicado. Sei que alguns vão se surpreender, outros meio que esperavam mas não acreditavam que, um dia, fosse acontecer. Depois de 33 anos engolindo um sapo gigante, resolvi - e estou dizendo, em primeira mão, ao interessado - dar uma banana pro panaca do meu marido".
Silêncio sepulcral!
O tio, que até então era o idiota da corte, arregalou os olhos e perdeu a fala.
Começou o zum zum zum, pessoas falavam, gesticulavam, perguntavam, completamente atônitos por aquele banho de água fria.
A tia, impassível, bateu novamente no copo até a sala silenciar.
_" Vocês sempre souberam que eu fiz uma péssima escolha. Suportei esse projeto de anta, mais por não querer dar o braço à torcer, confesso. Tá certo, 33 anos foi um pouco demais. Mas tivemos filhos e a vida foi passando. Esperei que ele percebesse minha insatisfação e fizesse alguma coisa prá mudar. Mas tudo que eu conseguia era mais piadinhas e mais constrangimento. Até que, ontem, bêbado e sem noção, como sempre, ele teve o descaramento de me presentear com a notícia que faltava prá entornar o chopp".
O tio perdeu o sangue, ficou branco como a página que eu imaginei na minha insônia, foi escorregando pela parede com a mão no peito e caiu sentado no chão.
Todos correram prá acudir. A tia, impávida, não se mexeu.
Meu irmão dizia que ele estava infartando, minha irmã dizia que era aneurisma, as crianças, bem... as crianças sumiram, retiradas pela cunhada-rainha.
_"Liga prá algum médico".
_"Que médico, nada, vamos levar direto pro hospital."
_"Tosse, tio, eu li que ajuda!"
_"Desabotoa a calça dele."
_"Abana, ele está sem ar."
_"Isso era hora de acertar contas com o coitado?"
_ "Não podia esperar até chegar em casa?"
Tudo dito ao mesmo tempo.
Arrastaram o homem para o hospital mais próximo, onde ficou em observação.
A casa esvaziou, sobramos eu e minha tia.
Ficamos ali, procurando o que fazer, esperando alguma notícia.
Enquanto ela bebericava, calmamente, eu e o meu TOC limpávamos a casa. Em momentos de aflição eu desando a arrumar, lavar, esfregar, organizar, essas coisas sãs.
Depois de uma eternidade, o telefone toca e nos informam que ele está bem, não havia nada no coração, provavelmente tinha sido uma manifestação de pânico, a tal da síndrome.
Nos olhamos por algum tempo, até que tomei coragem e perguntei qual era, afinal, a tal notícia.
Minha tia deu um sorriso enigmático e disse:
_"Mais uma vez, ele conseguiu arrebatar a platéia e me deixou sem audiência."
_"Como assim, tia? Ele passou mal!"
_"Previsível, vindo dele."
_"Tá bom, não vou me meter nessa briga."
_"E qual é a graça de contar, logo à você, a bomba que ele me atirou? Você não é uma fonte confiável."
_"Eu não sou...por que?"
_"Minha querida, quando contamos um segredo à alguém e pedimos reserva, quer dizer que queremos que todos saibam mas não pela nossa boca. Você não conta seus segredos nem para o travesseiro, como vai espalhar o meu?"
_"Mas não era segredo, tanto que você disse que ia fazer um "comunicado oficial."
_"Exato. Só que, se eu contar só a você, vai morrer aí."
_"E se ele, realmente, tivesse tido um piripaque e morresse?"
_"Seria a glória! Teria uma platéia muito maior no enterro. Faria um discurso de levantar defunto. Ele iria se contorcer por toda a eternidade. Taí, seria o momento ideal."
_"Nossa, tia, você tem uma mágoa sem tamanho!"
_"Minha querida, ele não perde por esperar. Você acha que eu vou perder a oportunidade de dar o troco?"
_"Não entendi", respondi.
_"Vingança é um prato que se come frio. Nem que eu tenha que esperar mais um ano. No próximo Natal, quando estivermos novamente reunidos na sua casa, vocês saberão. Quem aguentou 33 anos, aguenta 34. Da vergonha ele não escapa!".
E mais não disse.
Pegou a bolsa e foi embora.
A sala me pareceu maior do que era, realmente. O ar, pesado de silêncio.
Deus, ai, Deus, todo poderoso, quem não aguenta outro Natal sou eu.
Ainda mais, depois desta ameaça de destruição.
Zonza e abestalhada, começo a falar em voz alta.
"Pai nosso, estais aí no céu?
Perdoai essas ofensas e perdoai, também, os que ofendem ou são ofendidos.
Não me deixeis cair na tentação da curiosidade e livrai-me, por favor, do Natal.
Amém!"
É o que dá vontade de fazer, em fim de ano.
Juro que tenho ganas, todo bendito ano, de sumir em 1° de dezembro e só voltar depois do carnaval!
Rapaz, é muita pressão!
A fúria assassina de presentes, visitas ao shopping, lembrancinhas de última hora, preparação de ceia, obrigação de estar feliz - e não interessa se você É feliz ou não- receber com sorrisos quem você sabe que vai sair falando mal de tudo - desde o peru que estava mal temperado até o presente que vai ser repassado prá ajudante do lar- trabalhar que nem uma égua puxando carroça, e, ainda por cima, ter que se preparar prá receber em alto estilo: unhas e cabelos bem feitos, roupa impecável, perfume suave e muito guaraná em pó prá segurar o antes e o depois da ceia.
Finda a noite, resta a cozinha em frangalhos, exatamente como seu corpinho, pés doendo por causa daquela sandália ma-ra-vi-lho-sa mas absolutamente imprópria prá quem vai ficar em pé a noite toda.
Ai, que vontade de chorar quando olho prá pia e vejo que a noite vai ser um pouquinho mais longa do que eu queria.
Completada a organização, depois de duas horas limpando e guardando louças, rearrumando a geladeira prá caber toda a sobra, dando uma geral na casa - vício que herdei de minha mãe que dizia: "Casa tem que dormir arrumada, vai que passa mal à noite e tem que chamar um médico? Imagina a vergonha!" - preparo-me prá dormir.
Tomo um longo banho - com direito a sais e espuma, que eu mereço - ligo o ar condicionado, porque Natal nos trópicos só perde prá sauna à vapor e me deito.
Cadê o sono?
A agitação foi tamanha que o sono se perdeu no caminho.
Rolo prá cá, rolo prá lá, pego um livro, ligo a televisão - potente sonífero prá mim - e nada.
Nesse maldito instante, a cabeça começa a funcionar à mil.
_"Xô, pensamento, vou imaginar uma página em branco" e vejo, literalmente, uma ...página em branco, e a infeliz não vai embora!
Quando, enfim, caio no sono, toca o despertador. Desorientada desligo o celular, segundos depois a campainha da porta toca e eu soco o despertador. A campainha soa, novamente, aí me dou conta de que são algumas pessoas que voltaram para o "enterro dos ossos".
Pulo da cama, visto qualquer coisa que está à mão, abro a porta e dou de cara com aqueles que acabaram de sair. Foram prá casa e encontraram tudo limpo e em ordem, deitaram, dormiram, fofocaram sobre a noite passada e voltaram prá recomeçar.
A zumbi, apatetada pela noite mal dormida, vai recomeçar a função que mal terminou.
Sem falar nas saias justas que, infalivelmente, acontecem.
Família é um poço de histórias mal resolvidas.
Tem a mulher do irmão que se porta como uma rainha e tem que ter tudo à mão, não se levanta nem prá esfriar a cadeira, as crianças que infernizam com seus gritos e choros e não se pode reclamar porque os pais se ofendem, a tia solteirona e seus achaques prá chamar atenção, o primo que fala como se estivesse brigando e tem sempre razão, diga a asneira que disser, tem o tio super, hiper animado que, depois de algumas doses, resvala na grosseria e constrange a mulher, a prima gostosa que conta prá quem queira ouvir - e também prá quem não queira - suas conquistas e os destroços humanos que deixa pelo caminho e os irmãos que cobram qualquer coisa e sempre, aconteça o que acontecer, relembram a infância e as "artes" que EU fazia. Eles eram perfeitos, eu era a atrapalhada que só fazia bobagem. Ai, Deus, dai-me...
Fico observando e tendo a impressão que, não importa o ano, é sempre a mesma coisa: a mesma conversa, os mesmos conflitos, as mesmas pessoas, como se, naquela data, descongelassem e repetissem a mesma situação.
A tarde passava em câmera lenta, até que, repentinamente, aconteceu algo novo e desconcertante.
Uma tia, a constrangida, levantou-se, bateu com a colher na taça e pediu a atenção de todos.
_"Silêncio, por favor. Quero aproveitar esse momento em que a família está quase toda presente para fazer um comunicado. Sei que alguns vão se surpreender, outros meio que esperavam mas não acreditavam que, um dia, fosse acontecer. Depois de 33 anos engolindo um sapo gigante, resolvi - e estou dizendo, em primeira mão, ao interessado - dar uma banana pro panaca do meu marido".
Silêncio sepulcral!
O tio, que até então era o idiota da corte, arregalou os olhos e perdeu a fala.
Começou o zum zum zum, pessoas falavam, gesticulavam, perguntavam, completamente atônitos por aquele banho de água fria.
A tia, impassível, bateu novamente no copo até a sala silenciar.
_" Vocês sempre souberam que eu fiz uma péssima escolha. Suportei esse projeto de anta, mais por não querer dar o braço à torcer, confesso. Tá certo, 33 anos foi um pouco demais. Mas tivemos filhos e a vida foi passando. Esperei que ele percebesse minha insatisfação e fizesse alguma coisa prá mudar. Mas tudo que eu conseguia era mais piadinhas e mais constrangimento. Até que, ontem, bêbado e sem noção, como sempre, ele teve o descaramento de me presentear com a notícia que faltava prá entornar o chopp".
O tio perdeu o sangue, ficou branco como a página que eu imaginei na minha insônia, foi escorregando pela parede com a mão no peito e caiu sentado no chão.
Todos correram prá acudir. A tia, impávida, não se mexeu.
Meu irmão dizia que ele estava infartando, minha irmã dizia que era aneurisma, as crianças, bem... as crianças sumiram, retiradas pela cunhada-rainha.
_"Liga prá algum médico".
_"Que médico, nada, vamos levar direto pro hospital."
_"Tosse, tio, eu li que ajuda!"
_"Desabotoa a calça dele."
_"Abana, ele está sem ar."
_"Isso era hora de acertar contas com o coitado?"
_ "Não podia esperar até chegar em casa?"
Tudo dito ao mesmo tempo.
Arrastaram o homem para o hospital mais próximo, onde ficou em observação.
A casa esvaziou, sobramos eu e minha tia.
Ficamos ali, procurando o que fazer, esperando alguma notícia.
Enquanto ela bebericava, calmamente, eu e o meu TOC limpávamos a casa. Em momentos de aflição eu desando a arrumar, lavar, esfregar, organizar, essas coisas sãs.
Depois de uma eternidade, o telefone toca e nos informam que ele está bem, não havia nada no coração, provavelmente tinha sido uma manifestação de pânico, a tal da síndrome.
Nos olhamos por algum tempo, até que tomei coragem e perguntei qual era, afinal, a tal notícia.
Minha tia deu um sorriso enigmático e disse:
_"Mais uma vez, ele conseguiu arrebatar a platéia e me deixou sem audiência."
_"Como assim, tia? Ele passou mal!"
_"Previsível, vindo dele."
_"Tá bom, não vou me meter nessa briga."
_"E qual é a graça de contar, logo à você, a bomba que ele me atirou? Você não é uma fonte confiável."
_"Eu não sou...por que?"
_"Minha querida, quando contamos um segredo à alguém e pedimos reserva, quer dizer que queremos que todos saibam mas não pela nossa boca. Você não conta seus segredos nem para o travesseiro, como vai espalhar o meu?"
_"Mas não era segredo, tanto que você disse que ia fazer um "comunicado oficial."
_"Exato. Só que, se eu contar só a você, vai morrer aí."
_"E se ele, realmente, tivesse tido um piripaque e morresse?"
_"Seria a glória! Teria uma platéia muito maior no enterro. Faria um discurso de levantar defunto. Ele iria se contorcer por toda a eternidade. Taí, seria o momento ideal."
_"Nossa, tia, você tem uma mágoa sem tamanho!"
_"Minha querida, ele não perde por esperar. Você acha que eu vou perder a oportunidade de dar o troco?"
_"Não entendi", respondi.
_"Vingança é um prato que se come frio. Nem que eu tenha que esperar mais um ano. No próximo Natal, quando estivermos novamente reunidos na sua casa, vocês saberão. Quem aguentou 33 anos, aguenta 34. Da vergonha ele não escapa!".
E mais não disse.
Pegou a bolsa e foi embora.
A sala me pareceu maior do que era, realmente. O ar, pesado de silêncio.
Deus, ai, Deus, todo poderoso, quem não aguenta outro Natal sou eu.
Ainda mais, depois desta ameaça de destruição.
Zonza e abestalhada, começo a falar em voz alta.
"Pai nosso, estais aí no céu?
Perdoai essas ofensas e perdoai, também, os que ofendem ou são ofendidos.
Não me deixeis cair na tentação da curiosidade e livrai-me, por favor, do Natal.
Amém!"
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
O VIOLONCELO
Admiro quem toca um instrumento, qualquer um.
Mais que admiração, tenho inveja. Assumo.
Adoraria ter aprendido música.
Aprendi canto orfeônico e achei um saco, até porque não tenho voz nem volume prá cantar.
Minha voz está mais prá sussurrar do que prá trinar. De passarinho não tenho nada, sequer a afinação. Ficava lá, abrindo e fechando a boca, enganando as notas.
Aprendi um pouco de piano quando não devia, não tinha maturidade e nem foi minha escolha.
Hoje, percebo a oportunidade perdida. Acontece.
Tinha aulas em casa e, como não era o que queria, seduzia o maestro com todo tipo de elogios.
Elogiava suas mãos, pedia que ele tocasse prá mim, fazia cara de enlevo e ele se entusiasmava.
Eu tinha nove anos e já brincava de atriz.
O maestro, que devia ser um pianista frustrado, tinha em mim a platéia que ele precisava e, sem saber, me apresentando aos clássicos, me fez gostar de Chopin, Mozart, Rachmaninoff, Tchaikowski, meu favorito. Despertou em mim outras possibilidades, outra sonoridade, me mostrou o adágio, o allegro e outras variações.
Meus pais jogaram dinheiro fora, eu não saia das escalas, em compensação meu gosto musical ficou mais exigente, mais sofisticado, mais apurado.
Mas, ainda assim, não aprendi a ler música ou tocar o instrumento que queria: cello.
Meus queridos pais preferiram entulhar a sala com um piano a me dar um violoncelo.
Eles diziam que cello não era instrumento para moças, que era pesado prá carregar e exigia força.
Pergunto: piano se carrega nas costas? É leve? Achamos piano em qualquer lugar? Preconceito!
E qual instrumento é mais feminino do que o cello?
É um instrumento que exige que você o abrace, que seu corpo encoste nele, que seus dedos o façam vibrar, que cobram energia e, às vezes, suavidade. Seu som é grave, meio abafado, forte, potente. As pernas entreabertas envolvem, seguram e sentem a música reverberar pelo corpo. O rosto se encosta na madeira como que oferecendo o ouvido ao segredo.
Quando tocado com arco, há que se ter delicadeza, cuidado prá não romper os fios do arco ou as cordas do cello.
O cello é a analogia perfeita do amar o outro, cuidar do outro, extrair do outro, com cuidado, seu melhor som. É o calor do aconchego, o prazer do toque, a repercussão do grave que vibra e quebra geleiras provocando avalanche.
É um instrumento para poucos, escolhidos por ele. Tenho prá mim que ele é sábio, se mistura a orquestra prá não chamar atenção sobre o seu poder de sedução, cello é um perigo!
Perigo prá quem ousar se aproximar, perigo prá quem tentar entrelaçar suas pernas nele e pretender domá-lo.
Cello é prá pessoas que têm coragem de encarar a estiva que ele exige, de dedicar horas à perfeição, de se perder no abraço que ele cobra.
O corpo dói ao carregá-lo, cansa com o esforço que se faz prá tirar dele o prazer escondido nas cordas, sua de exaustão ao término da sinfonia.
Melhor parar por aqui, não sei mais se estou falando de violoncelo ou se já fui parar em outra dimensão.
Percebi, nesse instante, que o que eu queria era ser abraçada, ouvida, tocada, cuidada por alguém que conseguisse criar música em mim.
Cello, céu, violoncelo, vasconcellos, eu, violoncellos.
Rendo-me às evidências: o que eu queria, mesmo, era ser um violoncelo!
Mais que admiração, tenho inveja. Assumo.
Adoraria ter aprendido música.
Aprendi canto orfeônico e achei um saco, até porque não tenho voz nem volume prá cantar.
Minha voz está mais prá sussurrar do que prá trinar. De passarinho não tenho nada, sequer a afinação. Ficava lá, abrindo e fechando a boca, enganando as notas.
Aprendi um pouco de piano quando não devia, não tinha maturidade e nem foi minha escolha.
Hoje, percebo a oportunidade perdida. Acontece.
Tinha aulas em casa e, como não era o que queria, seduzia o maestro com todo tipo de elogios.
Elogiava suas mãos, pedia que ele tocasse prá mim, fazia cara de enlevo e ele se entusiasmava.
Eu tinha nove anos e já brincava de atriz.
O maestro, que devia ser um pianista frustrado, tinha em mim a platéia que ele precisava e, sem saber, me apresentando aos clássicos, me fez gostar de Chopin, Mozart, Rachmaninoff, Tchaikowski, meu favorito. Despertou em mim outras possibilidades, outra sonoridade, me mostrou o adágio, o allegro e outras variações.
Meus pais jogaram dinheiro fora, eu não saia das escalas, em compensação meu gosto musical ficou mais exigente, mais sofisticado, mais apurado.
Mas, ainda assim, não aprendi a ler música ou tocar o instrumento que queria: cello.
Meus queridos pais preferiram entulhar a sala com um piano a me dar um violoncelo.
Eles diziam que cello não era instrumento para moças, que era pesado prá carregar e exigia força.
Pergunto: piano se carrega nas costas? É leve? Achamos piano em qualquer lugar? Preconceito!
E qual instrumento é mais feminino do que o cello?
É um instrumento que exige que você o abrace, que seu corpo encoste nele, que seus dedos o façam vibrar, que cobram energia e, às vezes, suavidade. Seu som é grave, meio abafado, forte, potente. As pernas entreabertas envolvem, seguram e sentem a música reverberar pelo corpo. O rosto se encosta na madeira como que oferecendo o ouvido ao segredo.
Quando tocado com arco, há que se ter delicadeza, cuidado prá não romper os fios do arco ou as cordas do cello.
O cello é a analogia perfeita do amar o outro, cuidar do outro, extrair do outro, com cuidado, seu melhor som. É o calor do aconchego, o prazer do toque, a repercussão do grave que vibra e quebra geleiras provocando avalanche.
É um instrumento para poucos, escolhidos por ele. Tenho prá mim que ele é sábio, se mistura a orquestra prá não chamar atenção sobre o seu poder de sedução, cello é um perigo!
Perigo prá quem ousar se aproximar, perigo prá quem tentar entrelaçar suas pernas nele e pretender domá-lo.
Cello é prá pessoas que têm coragem de encarar a estiva que ele exige, de dedicar horas à perfeição, de se perder no abraço que ele cobra.
O corpo dói ao carregá-lo, cansa com o esforço que se faz prá tirar dele o prazer escondido nas cordas, sua de exaustão ao término da sinfonia.
Melhor parar por aqui, não sei mais se estou falando de violoncelo ou se já fui parar em outra dimensão.
Percebi, nesse instante, que o que eu queria era ser abraçada, ouvida, tocada, cuidada por alguém que conseguisse criar música em mim.
Cello, céu, violoncelo, vasconcellos, eu, violoncellos.
Rendo-me às evidências: o que eu queria, mesmo, era ser um violoncelo!
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
TELEPATIA
"O Livro do Desassossego".
"As Afinidades Eletivas".
Ela tentando ler.
Ele fingindo que lia.
Ela buscando uma posição confortável.
Ele afundado na poltrona.
Às vezes, seus olhos se encontravam e, ràpidamente, eram desviados.
Ela acende um cigarro.
Ele mantém o cachimbo apagado, preso entre os dentes.
Ela pensa que precisa contar, desabafar.
Ele pensa que ela esconde algo.
--" Ai, meu Deus, me ajude! "- ela pensa.
--" Tenho que virar a página."-ele pensa e vira.
--" E se ele não me perdoar?"
--" Se for o que eu imagino que seja..."
--" Não sei como começar."
--" Preciso estar preparado."
--" Pode ser um choque."
--" Ela não vai me surpreender."
--" Será que ele vai entender?"
--" Qual desculpa ela está preparando?"
--" Vou dizer que não pretendia ferí-lo."
--" Ela vai tentar me dizer que não fez por mal?"
--" Ele vai acreditar em mim?"
--" Ela acha que me engana."
--" Como eu fui deixar que isso acontecesse?"
--" Por que ela foi fazer o que eu acho que fez?"
--" Mas, quando aconteceu com ele, eu perdoei."
--" Ela vai dizer que me perdoou, quando eu fiz."
--" Mas será que não vai parecer que eu fiz por vingança?"
--" Será que ela perdoou ou usou esse tempo prá preparar o troco?"
--" Eu posso usar esse argumento, se ele não aceitar."
--" Ela que não pense que, depois de tanto tempo, eu vou engolir essa historinha."
--" Mas eu precisava de ar, precisava de atenção."
--" Será que fez isso prá chamar minha atenção?"
--" Não é verdade. Fiz porque queria, porque me senti desejada, depois de tanto tempo."
--" Não, não foi prá me acordar. Foi prá testar o meu limite."
--" Será que ele vai entender que não tem nada a ver com ele? Com o que temos?"
--" Ela não aceita que o tempo diminui o desejo."
--" Quando foi que ele parou de me querer?"
--" Temos vinte anos de vida em comum e ela ainda acha que o tesão deve ser o mesmo."
--" Por que meu corpo não sossega?"
--" Tenho alunas interessantes e interessadas, isso pode dar tesão."
--" Ainda quero ter e dar prazer. Por que não com ele?"
--" A mesma cama e mesa por vinte anos, enjoa."
--" Porque ele não me vê mais como mulher, agora sou a companheira de quarto."
--" Tenho esperado por essa rebelião, é típico de mulher."
--" Eu fui enxergada, e foi bom. Mas me sinto culpada."
--" Não vou facilitar, deixo ela se remoer e, aí sim, contorno a situação."
--" Por que não me acomodo? Por que sinto tanta urgência em viver o que preciso?"
--" O que ela quer mais da vida?"
--"Por que sinto que devo me apresentar à vida?"
--" O tempo, agora, é de espera."
--" Melhor não falar nada, esquecer o que aconteceu, me anestesiar."
--" Ela vai acabar entendendo."
--" Nunca vou entender porque a vida termina antes de acabar."
--" Não somos mais os jovens que éramos."
--" Ainda sou aquela que quer aprender, que olha prá frente a espera do imprevisto."
--" Não persigo mais os sonhos, acalmei minhas vontades, refreio meus desejos."
--" Sei que meu caminho e possibilidades estão diminuindo."
--" Ela sabe que, no fim, somos nós dois e mais nada."
--" Sei que ele precisa de mim, embora não me tenha mais."
--" Ela precisa de mim prá dividir a solidão."
--" Senti, talvez pela última vez, meu corpo ser tocado por mãos ávidas."
--" Acho que ela não vai me falar nada, não precisa, não vai fazer nenhuma diferença."
--" Ele percebeu o que aconteceu e preferiu não confrontar, teve medo."
--" Melhor assim, passar por cima."
--" Melhor assim, sufocar a verdade."
Viraram as páginas, ela com a culpa de ter sido perdoada, ele com a consciência tranquila de ter fingido que a perdoava.
"As Afinidades Eletivas".
Ela tentando ler.
Ele fingindo que lia.
Ela buscando uma posição confortável.
Ele afundado na poltrona.
Às vezes, seus olhos se encontravam e, ràpidamente, eram desviados.
Ela acende um cigarro.
Ele mantém o cachimbo apagado, preso entre os dentes.
Ela pensa que precisa contar, desabafar.
Ele pensa que ela esconde algo.
--" Ai, meu Deus, me ajude! "- ela pensa.
--" Tenho que virar a página."-ele pensa e vira.
--" E se ele não me perdoar?"
--" Se for o que eu imagino que seja..."
--" Não sei como começar."
--" Preciso estar preparado."
--" Pode ser um choque."
--" Ela não vai me surpreender."
--" Será que ele vai entender?"
--" Qual desculpa ela está preparando?"
--" Vou dizer que não pretendia ferí-lo."
--" Ela vai tentar me dizer que não fez por mal?"
--" Ele vai acreditar em mim?"
--" Ela acha que me engana."
--" Como eu fui deixar que isso acontecesse?"
--" Por que ela foi fazer o que eu acho que fez?"
--" Mas, quando aconteceu com ele, eu perdoei."
--" Ela vai dizer que me perdoou, quando eu fiz."
--" Mas será que não vai parecer que eu fiz por vingança?"
--" Será que ela perdoou ou usou esse tempo prá preparar o troco?"
--" Eu posso usar esse argumento, se ele não aceitar."
--" Ela que não pense que, depois de tanto tempo, eu vou engolir essa historinha."
--" Mas eu precisava de ar, precisava de atenção."
--" Será que fez isso prá chamar minha atenção?"
--" Não é verdade. Fiz porque queria, porque me senti desejada, depois de tanto tempo."
--" Não, não foi prá me acordar. Foi prá testar o meu limite."
--" Será que ele vai entender que não tem nada a ver com ele? Com o que temos?"
--" Ela não aceita que o tempo diminui o desejo."
--" Quando foi que ele parou de me querer?"
--" Temos vinte anos de vida em comum e ela ainda acha que o tesão deve ser o mesmo."
--" Por que meu corpo não sossega?"
--" Tenho alunas interessantes e interessadas, isso pode dar tesão."
--" Ainda quero ter e dar prazer. Por que não com ele?"
--" A mesma cama e mesa por vinte anos, enjoa."
--" Porque ele não me vê mais como mulher, agora sou a companheira de quarto."
--" Tenho esperado por essa rebelião, é típico de mulher."
--" Eu fui enxergada, e foi bom. Mas me sinto culpada."
--" Não vou facilitar, deixo ela se remoer e, aí sim, contorno a situação."
--" Por que não me acomodo? Por que sinto tanta urgência em viver o que preciso?"
--" O que ela quer mais da vida?"
--"Por que sinto que devo me apresentar à vida?"
--" O tempo, agora, é de espera."
--" Melhor não falar nada, esquecer o que aconteceu, me anestesiar."
--" Ela vai acabar entendendo."
--" Nunca vou entender porque a vida termina antes de acabar."
--" Não somos mais os jovens que éramos."
--" Ainda sou aquela que quer aprender, que olha prá frente a espera do imprevisto."
--" Não persigo mais os sonhos, acalmei minhas vontades, refreio meus desejos."
--" Sei que meu caminho e possibilidades estão diminuindo."
--" Ela sabe que, no fim, somos nós dois e mais nada."
--" Sei que ele precisa de mim, embora não me tenha mais."
--" Ela precisa de mim prá dividir a solidão."
--" Senti, talvez pela última vez, meu corpo ser tocado por mãos ávidas."
--" Acho que ela não vai me falar nada, não precisa, não vai fazer nenhuma diferença."
--" Ele percebeu o que aconteceu e preferiu não confrontar, teve medo."
--" Melhor assim, passar por cima."
--" Melhor assim, sufocar a verdade."
Viraram as páginas, ela com a culpa de ter sido perdoada, ele com a consciência tranquila de ter fingido que a perdoava.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
RÁDIO SAUDADE
Sempre que ouço Caetano, lembro de minha querida Gotty. Amiga de longa data e moradora vitalícia em meu coração.. Não sei porque faço este link, não consigo ligar uma música específica a um determinado momento. Deve ser porque Caetano foi meio que onipresente nos anos setenta.
E aí, como que por feitiço, desencadeio lembranças de uma época rica em acontecimentos, alguns históricos.
Naqueles anos o mundo fervia, e nós ardíamos ao sol do Rio.
Enquanto a repressão comia solta, éramos felizes, apesar dela.
Jovens e destemidos, tínhamos um bom combate, lutar contra a ditadura, cada um a seu modo.
Na pior época, estávamos fazendo "Roda Viva", peça de Chico Buarque, que os censores, cochilando, deixaram passar e que se tornou, depois de algum tempo, alvo de ataque do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), quando fazia temporada em São Paulo.
Foi no teatro Princesa Isabel que a camisa ensanguentada do estudante Édson, morto no Calabouço (restaurante de estudantes que existia no centro da cidade) foi mostrada ao público no fim da peça. Se não me falha a memória, foi o primeiro teatro, depois aquela camisa percorreu todos os outros.
Fizemos parte da Passeata dos Cem Mil e fazíamos história, sem saber.
Esse é o lado ingrato de "fazer história". Quando estamos lá, não imaginamos o desdobramento, não calculamos o que aquilo representa no momento em que acontece. Agimos por impulso, por necessidade de reagir à truculência, pela revolta de tentarem calar um povo com armas.
Houve os que partiram prá luta armada, não era o meu caso, tenho pavor a qualquer arma.
Tempos sombrios mas, também, tempo de transformação.
Tempo do desbunde, da fossa, do movimento hippie, de muito sexo e rock'n'roll.
Tempo de amor livre, de grandes paixões, de arrebatamento.
Tempo contraditório, de guerra e união, de mordaça e, por outro lado, liberdade.
A juventude dá este poder, ser o que se quer, fazer o que der na veneta.
A falta de laços mais apertados permitia uma quase irresponsabilidade.
Gotty era e é mais alternativa, viveu em comunidade, é mais desprendida, sabe tudo de horóscopo, I Ching, estuda e aprofunda seus interesses, pinta, borda, escreve, é artista de verdade.
Eu sempre fui mais observadora, mais tímida, menos arrojada. Sempre precisei de chão firme prá pisar embora desse umas "voadas". Diria que eu era controlada. Tinha medo de enlouquecer e perder o rumo, vi muitos amigos baterem asas prá sempre, por drogas, pirações, pelo pacote daqueles tempos.
Foi uma época extremamente criativa e inspiradora. A cultura foi protagonista, deslanchou um movimento de resistência que se expandiu e invadiu mentes adormecidas. Foi bonito viver naqueles tempos. Não sou saudosista mas tenho memória e adoro ter vivido o que vivi.
E a cereja do sundae era o encontro da nossa tribo na praia de Ipanema, nas Dunas da Gal.
Todos de cara amassada das noites nos bares, discutindo o rumo da humanidade, debatendo, jogando conversa fora, rindo uns dos outros, sofrendo amores perdidos, vivendo intensamente, sendo jovens.
E tudo me veio à mente por causa de uma rádio qualquer que tocava Caetano e me lembrou da Gotty, do Solar da Fossa, dos festivais de música, do teatro engajado, da cultura efervescente, do movimento estudantil, aqui e no mundo, dos hippies, dos ensaios, das aulas na escola de teatro, dos amigos de sempre, dos que se foram e dos que ficaram no meio do caminho, me lembrou de uma vida que valeu a pena.
Éramos jovens e felizes. E sabíamos.
E aí, como que por feitiço, desencadeio lembranças de uma época rica em acontecimentos, alguns históricos.
Naqueles anos o mundo fervia, e nós ardíamos ao sol do Rio.
Enquanto a repressão comia solta, éramos felizes, apesar dela.
Jovens e destemidos, tínhamos um bom combate, lutar contra a ditadura, cada um a seu modo.
Na pior época, estávamos fazendo "Roda Viva", peça de Chico Buarque, que os censores, cochilando, deixaram passar e que se tornou, depois de algum tempo, alvo de ataque do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), quando fazia temporada em São Paulo.
Foi no teatro Princesa Isabel que a camisa ensanguentada do estudante Édson, morto no Calabouço (restaurante de estudantes que existia no centro da cidade) foi mostrada ao público no fim da peça. Se não me falha a memória, foi o primeiro teatro, depois aquela camisa percorreu todos os outros.
Fizemos parte da Passeata dos Cem Mil e fazíamos história, sem saber.
Esse é o lado ingrato de "fazer história". Quando estamos lá, não imaginamos o desdobramento, não calculamos o que aquilo representa no momento em que acontece. Agimos por impulso, por necessidade de reagir à truculência, pela revolta de tentarem calar um povo com armas.
Houve os que partiram prá luta armada, não era o meu caso, tenho pavor a qualquer arma.
Tempos sombrios mas, também, tempo de transformação.
Tempo do desbunde, da fossa, do movimento hippie, de muito sexo e rock'n'roll.
Tempo de amor livre, de grandes paixões, de arrebatamento.
Tempo contraditório, de guerra e união, de mordaça e, por outro lado, liberdade.
A juventude dá este poder, ser o que se quer, fazer o que der na veneta.
A falta de laços mais apertados permitia uma quase irresponsabilidade.
Gotty era e é mais alternativa, viveu em comunidade, é mais desprendida, sabe tudo de horóscopo, I Ching, estuda e aprofunda seus interesses, pinta, borda, escreve, é artista de verdade.
Eu sempre fui mais observadora, mais tímida, menos arrojada. Sempre precisei de chão firme prá pisar embora desse umas "voadas". Diria que eu era controlada. Tinha medo de enlouquecer e perder o rumo, vi muitos amigos baterem asas prá sempre, por drogas, pirações, pelo pacote daqueles tempos.
Foi uma época extremamente criativa e inspiradora. A cultura foi protagonista, deslanchou um movimento de resistência que se expandiu e invadiu mentes adormecidas. Foi bonito viver naqueles tempos. Não sou saudosista mas tenho memória e adoro ter vivido o que vivi.
E a cereja do sundae era o encontro da nossa tribo na praia de Ipanema, nas Dunas da Gal.
Todos de cara amassada das noites nos bares, discutindo o rumo da humanidade, debatendo, jogando conversa fora, rindo uns dos outros, sofrendo amores perdidos, vivendo intensamente, sendo jovens.
E tudo me veio à mente por causa de uma rádio qualquer que tocava Caetano e me lembrou da Gotty, do Solar da Fossa, dos festivais de música, do teatro engajado, da cultura efervescente, do movimento estudantil, aqui e no mundo, dos hippies, dos ensaios, das aulas na escola de teatro, dos amigos de sempre, dos que se foram e dos que ficaram no meio do caminho, me lembrou de uma vida que valeu a pena.
Éramos jovens e felizes. E sabíamos.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
DE SALTO ALTO
Não tenho medo de ser ridícula, tenho medo de ser patética.
Não ligo se o salto quebrar na hora mais inconveniente, me incomoda descer do salto e me esborrachar.
Quando espero muito e não acho nada, me enraiveço. Aprendi que acreditar pode ser bom mas pode ser, também, estupidez.
Acredito, de verdade, que todo mundo é capaz de ser generoso, amável, mas sei que todos nós temos demônios controlados, reprimidos, escondidos.
Alguns desses diabinhos são simpáticos, travessos, outros são violentos, perigosos e, por vezes, indomáveis.
Eles habitam um lugar escuro e esquecido, até serem libertados das masmorras.
Geralmente nos apoiamos em algum fator que "independe da nossa vontade" para liberá-los.
Temos desculpas clássicas para escudar o descontrole: bebemos além da conta, sofremos calados por tanto tempo que a panela destampou, aguentamos provocações, engolimos maus tratos, tudo desculpa para o demônio aflorar. Acontece, meus amigos, que soltamos os bichos porque queremos e aí, vamos combinar, arquemos com as consequências sem culpar ninguém.
Todo mundo tem o direito de mostrar suas imperfeições, somos humanos, caramba! Erramos, enganamos, mentimos, despistamos, traímos, faz parte do pacote que somos.
Por que teríamos que ser santos? Não somos. Alguns que foram canonizados, sofreram horrores e isso me parece uma patologia. Nada contra os santos, sou até devota de um, mas, cá prá nós, salvaram a humanidade? Que nada, tá cada vez pior.
Mae West, uma atriz que foi um escândalo prá sua época - diga-se de passagem que não sou daquele tempo, embora já tenha uma longa estrada- enfim, essa mulher sem amarras dizia: "Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda"! Preciso traduzir?
Não tenho pudores em me expor, mas não permito que me exponham sem meu consentimento. Sou transparente até o momento que embaçam a minha vida, aí, colega, é cada um por si e eu vou botar meu exército no campo de batalha. Não procuro conflito, mas não fujo da raia. Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Tento não machucar quem não merece, às vezes escapa, mas procuro não fazer mal aos outros. A culpa católica me cobra noites de insônia. Tenho pesadelos, me assisto ardendo nas brasas do inferno, isso quando consigo dormir. Como não quero perder uma noite de sono, evito a chateação.
Não sou boazinha, é que não gosto de estar presa a nenhuma emoção que me faça mal. Simples assim. Se me faz mal agir de determinada forma, não ajo em benefício próprio. E ainda faço um favor ao outro, poupando o melodrama. Parece insensibilidade, né? Egoísmo, talvez? Que tal mudar o foco? Olhar o outro e não a mim mesma? Mas, diga lá, se eu não cuidar da minha sanidade, quem vai cuidar? Elementar, meu caro Watson.
Posso estar muito enganada e, se for assim, minha vida inteira foi um grande erro, mas tenho cá prá mim a quase certeza de que quem não pensa em si, antes de pensar no outro, está fadado a ser um mártir. E um chato!
Esse negócio de doar-se sempre, dar sem medida, se entregar e reforçar o ego alheio só funciona na literatura, nas novelas, filmes e afins. Isso é ficção. Porque, meu caro amigo, se você não tiver uma boa provisão de amor próprio, o fundo do poço será raso prá seu mergulho. Se nada me derem de volta, serei um balão vazio, não vou subir. Como saco vazio não fica em pé...
Tive grandes paixões em minha vida mas a falta delas não me fez desmoronar. Sofri o tempo necessário, vivi o luto, perdi quando ainda não tinha acabado prá mim. E daí? Morri por causa disso? Entrei para um convento, me despedi da vida, de mim? Nananinanão. Ressurgi mais forte, mais preparada prá sofrer menos, entendi que é assim mesmo, não existe tempo igual, amor igual, intensidade igual, nada é igual entre pessoas. Se eu amava mais do que era amada, não questionava, não pretendia que o outro me desse o que não conseguia, aceitava ou não, mas não perdia a consciência de mim, jamais precisei do olhar, do carinho e da atenção do outro prá ser quem sou.
Não sou exemplo, eu sei, não tenho exemplos, não me espelho em ninguém porque minhas experiências são distintas, mantenho um instinto de sobrevivência feroz. Graças ao bom Deus!
No dia em que me virem sendo capacho de alguém, seja quem for, assistirem alguém limpando os pés em mim, me internem porque já estarei em avançado estágio de loucura.
Sou suscetível, como todo mundo, de vez em quando dobro os joelhos com o soco que me atinge, vejo estrelas como em um desenho animado, visualizo aquele "POW" no balão do quadrinho, o olho fecha de tão inchado, o sangue escapa das veias, não minimizo a dor da pancada, sinto. Mas, pera lá, vou engatinhar? Já passei desta fase. Se não sou quadrúpede tenho que ficar em pé, até a próxima porrada. Não desvio, não, aprendo a cair em solo mais macio. Da próxima, me levanto mais rápido.
Portanto, não se engane, a vida é uma sucessão de trombadas, e a palhaça aqui aprendeu a dar cambalhotas.
Ser ridícula ou ser patética? Se o "amor é o ridículo da vida", sou ridícula.
Ser patética é esperar que alguém me ame por meu amor ainda não ter terminado, me humilhar mendigando um carinho forçado, fazer o objeto do meu amor sentir pena de mim e me oferecer a última gota do meu próprio veneno, aquele que vai matar em mim qualquer possibilidade de me respeitar. Definitivamente, patética, não fui, não sou, nem serei, mesmo.
E entre quebrar o salto e descer do salto, prefiro quebrar. Um bom sapateiro resolve um salto quebrado. Já descer do salto, diminui a estatura.
Como sou bastante alta por dentro...
Não ligo se o salto quebrar na hora mais inconveniente, me incomoda descer do salto e me esborrachar.
Quando espero muito e não acho nada, me enraiveço. Aprendi que acreditar pode ser bom mas pode ser, também, estupidez.
Acredito, de verdade, que todo mundo é capaz de ser generoso, amável, mas sei que todos nós temos demônios controlados, reprimidos, escondidos.
Alguns desses diabinhos são simpáticos, travessos, outros são violentos, perigosos e, por vezes, indomáveis.
Eles habitam um lugar escuro e esquecido, até serem libertados das masmorras.
Geralmente nos apoiamos em algum fator que "independe da nossa vontade" para liberá-los.
Temos desculpas clássicas para escudar o descontrole: bebemos além da conta, sofremos calados por tanto tempo que a panela destampou, aguentamos provocações, engolimos maus tratos, tudo desculpa para o demônio aflorar. Acontece, meus amigos, que soltamos os bichos porque queremos e aí, vamos combinar, arquemos com as consequências sem culpar ninguém.
Todo mundo tem o direito de mostrar suas imperfeições, somos humanos, caramba! Erramos, enganamos, mentimos, despistamos, traímos, faz parte do pacote que somos.
Por que teríamos que ser santos? Não somos. Alguns que foram canonizados, sofreram horrores e isso me parece uma patologia. Nada contra os santos, sou até devota de um, mas, cá prá nós, salvaram a humanidade? Que nada, tá cada vez pior.
Mae West, uma atriz que foi um escândalo prá sua época - diga-se de passagem que não sou daquele tempo, embora já tenha uma longa estrada- enfim, essa mulher sem amarras dizia: "Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda"! Preciso traduzir?
Não tenho pudores em me expor, mas não permito que me exponham sem meu consentimento. Sou transparente até o momento que embaçam a minha vida, aí, colega, é cada um por si e eu vou botar meu exército no campo de batalha. Não procuro conflito, mas não fujo da raia. Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Tento não machucar quem não merece, às vezes escapa, mas procuro não fazer mal aos outros. A culpa católica me cobra noites de insônia. Tenho pesadelos, me assisto ardendo nas brasas do inferno, isso quando consigo dormir. Como não quero perder uma noite de sono, evito a chateação.
Não sou boazinha, é que não gosto de estar presa a nenhuma emoção que me faça mal. Simples assim. Se me faz mal agir de determinada forma, não ajo em benefício próprio. E ainda faço um favor ao outro, poupando o melodrama. Parece insensibilidade, né? Egoísmo, talvez? Que tal mudar o foco? Olhar o outro e não a mim mesma? Mas, diga lá, se eu não cuidar da minha sanidade, quem vai cuidar? Elementar, meu caro Watson.
Posso estar muito enganada e, se for assim, minha vida inteira foi um grande erro, mas tenho cá prá mim a quase certeza de que quem não pensa em si, antes de pensar no outro, está fadado a ser um mártir. E um chato!
Esse negócio de doar-se sempre, dar sem medida, se entregar e reforçar o ego alheio só funciona na literatura, nas novelas, filmes e afins. Isso é ficção. Porque, meu caro amigo, se você não tiver uma boa provisão de amor próprio, o fundo do poço será raso prá seu mergulho. Se nada me derem de volta, serei um balão vazio, não vou subir. Como saco vazio não fica em pé...
Tive grandes paixões em minha vida mas a falta delas não me fez desmoronar. Sofri o tempo necessário, vivi o luto, perdi quando ainda não tinha acabado prá mim. E daí? Morri por causa disso? Entrei para um convento, me despedi da vida, de mim? Nananinanão. Ressurgi mais forte, mais preparada prá sofrer menos, entendi que é assim mesmo, não existe tempo igual, amor igual, intensidade igual, nada é igual entre pessoas. Se eu amava mais do que era amada, não questionava, não pretendia que o outro me desse o que não conseguia, aceitava ou não, mas não perdia a consciência de mim, jamais precisei do olhar, do carinho e da atenção do outro prá ser quem sou.
Não sou exemplo, eu sei, não tenho exemplos, não me espelho em ninguém porque minhas experiências são distintas, mantenho um instinto de sobrevivência feroz. Graças ao bom Deus!
No dia em que me virem sendo capacho de alguém, seja quem for, assistirem alguém limpando os pés em mim, me internem porque já estarei em avançado estágio de loucura.
Sou suscetível, como todo mundo, de vez em quando dobro os joelhos com o soco que me atinge, vejo estrelas como em um desenho animado, visualizo aquele "POW" no balão do quadrinho, o olho fecha de tão inchado, o sangue escapa das veias, não minimizo a dor da pancada, sinto. Mas, pera lá, vou engatinhar? Já passei desta fase. Se não sou quadrúpede tenho que ficar em pé, até a próxima porrada. Não desvio, não, aprendo a cair em solo mais macio. Da próxima, me levanto mais rápido.
Portanto, não se engane, a vida é uma sucessão de trombadas, e a palhaça aqui aprendeu a dar cambalhotas.
Ser ridícula ou ser patética? Se o "amor é o ridículo da vida", sou ridícula.
Ser patética é esperar que alguém me ame por meu amor ainda não ter terminado, me humilhar mendigando um carinho forçado, fazer o objeto do meu amor sentir pena de mim e me oferecer a última gota do meu próprio veneno, aquele que vai matar em mim qualquer possibilidade de me respeitar. Definitivamente, patética, não fui, não sou, nem serei, mesmo.
E entre quebrar o salto e descer do salto, prefiro quebrar. Um bom sapateiro resolve um salto quebrado. Já descer do salto, diminui a estatura.
Como sou bastante alta por dentro...
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
PALCO
O grande barato de ser atriz, ou de ter sido, é poder viver outras vidas. Melhor, poder criar outras vidas, participar de outras histórias que não sejam a minha.
Mesmo que vivesse 1.800 anos, jamais conseguiria experimentar tantas emoções, enfrentar tantos perigos, ser mil, ser tantas, ser outra.
O ofício do ator é dar corpo e voz as palavras do autor, é, também, sentir e pensar como a personagem.
Uma personagem é construída pelo que diz, pelo que as outras personagens dizem dela, pelo contexto da história, pela busca do conhecimento dessa vida, pelo entendimento e aceitação dessa pessoa que pode ser antagônica. É emprestar nosso corpo e voz para que ela se materialize.
O ator é, um pouco, deus, mesmo que em minúsculas. Cria, constrói, inventa, tenta, molda.
Como uma cebola, ao contrário, vai acrescentando camadas. Uma a uma. Coloca emoção, constrói uma história prá apoiar essa vida que será contada, inventa um passado que possa servir de base a esse ser, tenta se colocar em seu lugar, se molda, se coloca disponível para que essa personagem possa se manifestar, não julga suas ações, empresta seu corpo e suas emoções prá que ela seja, enfim, de carne e osso.
Ser ator é ser mágico, equilibrista, domador, trapezista. É ser todas as dores e alegrias, todos os risos e todas as lágrimas. É viver o inimaginável e, ainda assim, se fazer acreditar.
Que outra profissão permite que você saia de si? Perca o autocontrole e ache o outro?
De tanto viver outras vidas, passa a entender a sua, enxerga em cada história da vida real uma riqueza, mesmo que, aparentemente, seja uma vida banal. Nenhuma é.
De tanto ouvir o que os autores querem dizer, começa a perceber outras possibilidades, outros ângulos e treina a percepção do outro. Enriquece a própria vida.
Aceita a diferença, encontra o tom na peça e na vida, desenvolve a sensibilidade, controla seu tempo interior, respeita o espaço do outro, se coloca em risco e se resgata, ou é resgatado.
Algumas vezes é dolorosamente incômoda essa profissão, principalmente quando a trajetória da personagem se mistura a nossa, alfineta nossa memória emotiva, chacoalha e ultrapassa o limite que nos impomos. Ainda assim, prevalece a personagem, muitas vezes com posição contrária a nossa, nos ensinando a respeitar a visão do outro, mesmo que não concordemos.
Outras vezes, lutamos contra as evidências colocadas por elas, buscamos um desvio prá aproximá-las do que somos, tentamos facilitar nosso caminho, mas elas nos puxam as rédeas e nos recolocam no caminho delas.
A ficção tem que ter sentido, mesmo que não aceitemos. Ela tem começo, meio e fim escritos, acabados, determinados. Nada vai acontecer diferente do que está lá. Diferente da vida real, onde não sabemos o que vem depois, onde nada pode ter sentido, onde só podemos esperar o que vai acontecer e reagir ao acontecimento.
Esse é o mistério da vida, ficção não tem mistério, tá tudo lá, você sabe o que será, mas a mágica é caminhar sobre os pés da personagem, visitar emoções diferentes, histórias impossíveis, viver uma pessoa incomum, ser bandido, herói, santa, prostituta, se afastar da sua realidade e, por algumas horas, brincar de sair de si e passear em outra vida.
Honestamente, nada se compara a isso.
Nenhuma personagem é igual a outra, pode ser parecida, mas tem sua própria história, seu passado e temos que trazer sua bagagem até o momento em que a representamos.
É louco esse negócio de ser ator, embaralha suas crenças, mexe com arquétipos, derruba suas defesas, desafia seus medos, desperta emoções que, talvez, não queiramos acordar. Acrescenta, às suas experiências, mil anos vividos através de mil vidas.
O que sou, devo à minha profissão.
Sei que muitas pessoas acham que o ator representa sempre, não sabem se estão, de fato, mostrando quem são ou se estão representando um papel, em outras palavras, fingindo. Fernando Pessoa já disse tudo sobre o fingidor. Bom, elas nunca saberão com absoluta certeza e quem sou eu prá desfazer a intriga, pelo contrário, quero mais é que duvidem. Não ter nenhuma certeza é melhor do que acreditar no visível.
Não creia no que vê, procure enxergar o invisível, tente entender o subtexto, nem sempre o que é dito é o que se sente, na ficção e na vida real. Não decore o papel, improvise, deixe o sangue ferver, retese os músculos, respire fundo, invente, recrie. Seja protagonista da sua história.
Afinal, não é isso que somos? Atores representando um papel, usando uma máscara social?
Nosso palco é a vida e depende de nós escolher a máscara que se vai usar, a da tragédia ou a da comédia.
Mesmo que vivesse 1.800 anos, jamais conseguiria experimentar tantas emoções, enfrentar tantos perigos, ser mil, ser tantas, ser outra.
O ofício do ator é dar corpo e voz as palavras do autor, é, também, sentir e pensar como a personagem.
Uma personagem é construída pelo que diz, pelo que as outras personagens dizem dela, pelo contexto da história, pela busca do conhecimento dessa vida, pelo entendimento e aceitação dessa pessoa que pode ser antagônica. É emprestar nosso corpo e voz para que ela se materialize.
O ator é, um pouco, deus, mesmo que em minúsculas. Cria, constrói, inventa, tenta, molda.
Como uma cebola, ao contrário, vai acrescentando camadas. Uma a uma. Coloca emoção, constrói uma história prá apoiar essa vida que será contada, inventa um passado que possa servir de base a esse ser, tenta se colocar em seu lugar, se molda, se coloca disponível para que essa personagem possa se manifestar, não julga suas ações, empresta seu corpo e suas emoções prá que ela seja, enfim, de carne e osso.
Ser ator é ser mágico, equilibrista, domador, trapezista. É ser todas as dores e alegrias, todos os risos e todas as lágrimas. É viver o inimaginável e, ainda assim, se fazer acreditar.
Que outra profissão permite que você saia de si? Perca o autocontrole e ache o outro?
De tanto viver outras vidas, passa a entender a sua, enxerga em cada história da vida real uma riqueza, mesmo que, aparentemente, seja uma vida banal. Nenhuma é.
De tanto ouvir o que os autores querem dizer, começa a perceber outras possibilidades, outros ângulos e treina a percepção do outro. Enriquece a própria vida.
Aceita a diferença, encontra o tom na peça e na vida, desenvolve a sensibilidade, controla seu tempo interior, respeita o espaço do outro, se coloca em risco e se resgata, ou é resgatado.
Algumas vezes é dolorosamente incômoda essa profissão, principalmente quando a trajetória da personagem se mistura a nossa, alfineta nossa memória emotiva, chacoalha e ultrapassa o limite que nos impomos. Ainda assim, prevalece a personagem, muitas vezes com posição contrária a nossa, nos ensinando a respeitar a visão do outro, mesmo que não concordemos.
Outras vezes, lutamos contra as evidências colocadas por elas, buscamos um desvio prá aproximá-las do que somos, tentamos facilitar nosso caminho, mas elas nos puxam as rédeas e nos recolocam no caminho delas.
A ficção tem que ter sentido, mesmo que não aceitemos. Ela tem começo, meio e fim escritos, acabados, determinados. Nada vai acontecer diferente do que está lá. Diferente da vida real, onde não sabemos o que vem depois, onde nada pode ter sentido, onde só podemos esperar o que vai acontecer e reagir ao acontecimento.
Esse é o mistério da vida, ficção não tem mistério, tá tudo lá, você sabe o que será, mas a mágica é caminhar sobre os pés da personagem, visitar emoções diferentes, histórias impossíveis, viver uma pessoa incomum, ser bandido, herói, santa, prostituta, se afastar da sua realidade e, por algumas horas, brincar de sair de si e passear em outra vida.
Honestamente, nada se compara a isso.
Nenhuma personagem é igual a outra, pode ser parecida, mas tem sua própria história, seu passado e temos que trazer sua bagagem até o momento em que a representamos.
É louco esse negócio de ser ator, embaralha suas crenças, mexe com arquétipos, derruba suas defesas, desafia seus medos, desperta emoções que, talvez, não queiramos acordar. Acrescenta, às suas experiências, mil anos vividos através de mil vidas.
O que sou, devo à minha profissão.
Sei que muitas pessoas acham que o ator representa sempre, não sabem se estão, de fato, mostrando quem são ou se estão representando um papel, em outras palavras, fingindo. Fernando Pessoa já disse tudo sobre o fingidor. Bom, elas nunca saberão com absoluta certeza e quem sou eu prá desfazer a intriga, pelo contrário, quero mais é que duvidem. Não ter nenhuma certeza é melhor do que acreditar no visível.
Não creia no que vê, procure enxergar o invisível, tente entender o subtexto, nem sempre o que é dito é o que se sente, na ficção e na vida real. Não decore o papel, improvise, deixe o sangue ferver, retese os músculos, respire fundo, invente, recrie. Seja protagonista da sua história.
Afinal, não é isso que somos? Atores representando um papel, usando uma máscara social?
Nosso palco é a vida e depende de nós escolher a máscara que se vai usar, a da tragédia ou a da comédia.
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