sábado, 26 de maio de 2012

PEDRA SOBRE PEDRA


"No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho..."
Carlos Drumond de Andrade.

E, apesar disso, temos que prosseguir.
Tropeçando, pulando, pisando, desviando, retirando, ignorando, valorizando, cada um escolhe como lidar com as dificuldades que surgem.
Eu, particularmente, paro e lido com ela.
Em alguns casos, é pura perda de tempo, em outros é parada obrigatória.
Há casos em que as pedras são colocadas como armadilhas, um teste de resistência.
Quando a pedra é muito grande, pode fazer estragos consideráveis.
Mas como fingir que ela não está ali? Não consigo, tenho que me deter diante dela.
Pedras grandes demandam mais tempo, a remoção é mais demorada.
Mas, como água, vou de encontro à ela, suavemente, até tirar-lhe as arestas.
Envolvo-a em um abraço, até penetrar nela, criando fragilidade, porosidade.
Enfrento de dentro prá fora, mergulho na escuridão, buscando a fresta de luz que me guiará prá sair do outro lado.
Só assim, consigo remover a pedra no meu caminho.
Não digo que é fácil, digo que é necessário.
Não aceito que pedras bloqueiem minha estrada, mas não ignoro.
Vou catando pedras como quem cata feijão.
Cozinhando as dificuldades, me alimentando de soluções.
Assim é a vida, entre pedras, até encontrar um diamante.
Uns acham, outros perdem, a maioria não consegue distinguir o que é um e o que é outro.
Não sou gemóloga, não tenho facilidade de reconhecer um diamante, mas não descarto as pedras, recolho-as, guardo-as, se não tiverem valor, coleciono-as.
Assim como debulho o feijão, garimpo pedras, não importa o tamanho, sempre terão serventia.
Ao menos, me provarão que não me acovardei diante do mais forte.
E me lembrarei sempre que, antes de Carlos Drumond, Fernando Pessoa dizia:
"Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia, vou fazer um castelo..."

FACES


Essa sou eu, solar.
Por mais que a noite queira se impor,
meu sol volta a brilhar.

Essa sou eu, fruta madura,
macia por dentro, protegida
por casca dura.

Essa sou eu, primavera,
onde flores renascem
sem longa espera.

Essa sou eu, esperança,
cuidando de mim,
escolhendo a lembrança.

Essa sou eu, viajante,
não importa o caminho,
sigo adiante.

Essa sou eu, combatente
de lutas inúteis que
me tornam resistente.

Essa sou eu, transparente,
cristal por mim lapidado,
e porisso, diferente.

Essa sou eu, minha seta,
meu arco, meu alvo,
minha própria meta.

Essa sou eu, a que acredita
que a vida é mais do que
a que me foi dita.

Essa sou eu, curandeira,
que lambe as próprias feridas,
e se faz, de novo, inteira.

Essa sou eu, feiticeira,
criando poções, magias,
fazendo de mim o que queira.

Essa sou eu, destemida,
sem passado, sem futuro,
sendo o presente da vida.



quinta-feira, 17 de maio de 2012

DE BABEL E DE MARFIM

Caminhava olhando para os pés, queixo colado ao peito, como se nada mais pudesse ver de novo.
Não olhava para os lados, o periférico sumira, envolto em certezas arraigadas.
Todo entorno, já sabido, igual.
Sonhos, todos já sonhados e não realizados. Vida, contemplada pelas janelas dos olhos.
Nada restava, igual ou diferente, além do conhecido.
Caminhava distraída, envolvida em sua solidão, já amiga.
Tinha a si mesma, como companheira e cúmplice, no desperdício da existência.
Todas as paisagens apagadas, todos os sentimentos domados, todas as vontades e esperanças adormecidas, todo o corpo anestesiado e toda a tristeza que carregava, empurravam aquela mulher frágil para o cotidiano, mecânico e previsível.
Caminhava sabendo o futuro, pitonisa de sua sorte, prevendo guerras interiores, embates fratricidas, recriações de si mesma e demolições de cada torre erguida. As de Babel e as de Marfim.
Á cada passo, incorporava uma falta, de si, de algo, de alguém.
O caminho parecia, à cada dia, mais longo, mais difícil, mais íngreme. Cadafalso.
Nada esperava, nada mais desejava, senão o fim daquele caminho tortuoso.
Nada esperando, aconteceu o inesperado.
Olhando seus próprios pés, vislumbrou outro vulto, uma sombra que caminhava ao seu lado.
Ouviu ruídos de outra respiração, sentiu o calor de outro corpo.
Apressou o ritmo de suas passadas, acreditando estar imaginando para si, uma companhia.
Passos apressados a acompanharam e se aproximaram.
Tentou resistir àquela visão, apertando os olhos, cravando as unhas na palma da mão.
Assustada, ergueu a cabeça, abriu os olhos, fosse o que fosse, seria passageiro.
E lá estava ele, você, olhando sorridente, ofegante, estendendo a mão, convidando para dar um passeio em outra vida.
Com medo de que fosse uma trapaça de seu desejo inconfesso, rejeitou a oferta, buscando, na negação, seu refúgio.
Ele, você, postou-se á frente do caminho, cortou qualquer desvio, impôs sua presença.
Mostrou que o caminho que ele, você, escolhera era mais largo, com novas paisagens, novas cores e perfumes. Mostrou que a vida podia ser diferente, acompanhada.
Tomou-lhe as mãos de conforto, encheu-as de afeto, levou-a prá dançar, levitar, sentir.
Deixaram para trás todas as correntes que aprisionavam, todos os muros que escondiam e todos os carcereiros que ela criara.
Ele, você, deu alma ao corpo frágil, envolveu com suas asas aquela mulher que não sabia voar.
Ele, que era passageiro, não passou. Você, ficou.





quinta-feira, 3 de maio de 2012

CAMPEONATO

Vai começar a partida.
Início de jogo é sempre de provocações, escondendo o respeito e o medo.
Tentamos desestabilizar a segurança do adversário, usamos as armas da retórica.
Ao irmos para o meio do campo para começar a partida, nos olhamos em desafio, lados opostos, imaginando o que vai acontecer e, claro, querendo ganhar o jogo.
E começa o clássico, EU X VOCÊ.
Vou rolando a bola, você marcando em cima.
Dou um passe prá mim mesma, mato no peito e avanço com a pelota controlada.
Você me rouba a bola e dispara em sentido contrário.
Corro atrás, tento retomar a redonda, tento uma, você escapa, tento duas, você consegue retomar, tento três e faço falta.
Você ri e cobra, mandando a bola prá você, já centroavante.
Disparo prá posição de zagueiro, me coloco e você chuta.
Pontaria errada. Ansiedade demais faz errar o chute e é tiro de meta.
Goleira que sou, me preparo prá lançar a bola para o campo adversário. Chuto e corro prá chegar à ela, recebo e rolo, com o peito do pé, olhando prá trás prá medir à que distância você está.
Deixo que você se aproxime e te driblo, e dou chapéu e passo-a entre suas pernas, levanto a bola com um bico e faço com que ela caia, maciamente nos meus pés atacantes, chuto com precisão mas você faz uma extraordinária defesa.
Se abraça com ela no gramado, protegendo-a de mim.
Espera que eu me afaste um pouco e lança-a com as mãos prá si mesmo, lateral esquerdo, sua posição inconteste, seu domínio.
Me atrai prá brincar de gato e rato, ri frontalmente de meu esforço prá roubar a bola, ladra que sou.
E passa por mim como um foguete, me fazendo comer grama e escorregar.
Vai em velocidade, sem que eu, meio de campo ou zagueira, consiga te reter.
E me vejo goleira, frente à frente, com você, que dá uma paradinha antes de chutar à gol.
Espero ofegante, com os olhos esbugalhados e fixos o potente chute, quando soa um apito e te coloca em impedimento..
Você xinga, esbraveja, reclama, eu rio, alivio, respiro.
Impedimento benvindo.
Cobrado o impedimento, a bola é atraída por seus pés que a controla, pisa nela e escolhe a jogada por fazer.
Lança um olhar e percebe as traves desprotegidas, chamando por um gol certeiro e chuta, em curva, sem dificuldade prá acertar as redes.
E é gooooooooooooooooooooooooooollll!
Golaço! De craque, que você é.
Atinge de supetão, com precisão, jogada ensaiada e previsível.
Nesse momento, me convenço que sou time de várzea, me esforço, treino, mas não sou nenhum craque.
Tenho que respeitar medalhão, o que conhece o jogo, o que dedicou sua vida a jogar e que quer ganhar.
Aprendi a perder no jogo, sem desculpas.
Sou perna de pau, vivo contundida, perco nos dribles e não ganho nem um ponto. Unzinho, que seja.
Mas quando tiro as chuteiras e coloco o salto agulha, ninguém ganha de mim. Sou rainha.
E, apesar de jogar mal demais, jamais cavei penalti, nunca fiz catimba e sempre cumprimentei os adversários pela vitória.
Minhas partidas sempre terminam com o respeito que o outro time merece.
Tiro o uniforme suado e sujo da batalha que perdi, tomo um bom e revigorante banho, e me preparo para o próximo jogo.
Possivelmente, perderei mais uma e mais outra e mais centenas de vezes.
Mas sou imbatível no fair play.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O OUTRO, EM MIM

Hoje, acordei com saudade.
Saudade do que?
Não sei se de alguma coisa.
Saudade de alguém, talvez.
Só sei que que acordei com saudade.
Mas não é um sentimento opressivo, triste, é mais uma sensação de presença.
Saudade de um momento marcante, de uma pessoa importante.
Um momento de plenitude me invade.
Seria, talvez, saudade do que tenho, do que vive em mim e me preenche.
Contraditóriamente, uma saudade feliz.
Pois é isso mesmo, estou feliz, sentindo saudade.
Tenho, embora sem saudosismo, saudades de uma vida que vivi e aproveitei.
Não me detenho em passagens, episódios, abraço o todo, em uma nostalgia tranquila.
Relembro o quanto valeu a pena as alegrias, as dores, os amores, as aflições e as conquistas.
Guardo na gaveta da memória, acaricio minha história e sigo.
Tenho amigos e amores, nessa gavetinha e, de vez em quando, visito-os.
Com um sorriso meio melancólico, meu olhar se perde do presente e encontra a pontinha de saudade que se esconde no que já foi.
Sinto o quanto é bom ter bagagem, mas bagagem selecionada, com o suficiente prá não parar, ferida e magoada, na estação da dor. Sigo minha viagem com uma malinha de mão, com o imprescindível, sons e imagens que me fortalecem, despejo o que possa me aniquilar, meu coração e minha mente pedem leveza e encontram paz na lembrança.
Mas, hoje, especificamente, estou com saudade do presente, do que estou vivendo e experimentando.
Essa, de hoje, me incentiva à fazer coisas que o medo freava, coisa que eu mesma me negava, por convenções, por limitações, por pensar que poria em risco uma vida reta, regrada, formatada.
Quanta bobagem! Quanto tempo perdido!
Esqueci que a vida acontece, que passa, que não é um ensaio, que é prá valer e tem que valer a pena!
De mim, nunca senti saudade, até hoje.
À partir de agora, sinto saudade do que tenho por viver.
Não vou deixar passar minhas vontades, meus desejos, minha capacidade de transformar cautela em prazer, sonhos em realidade.
Não sou leito de rio, onde as águas passam e vão embora. Vou reter o que for bom, o que for importante, o necessário e insubstituível. Não vou deixar passar nada, a vida, o amor.
Já que não posso negociar com o tempo, vou trapacear e usá-lo à meu favor.
E manipular essa saudade de mim, de um possível nós dois, de um provável final feliz.
Hoje, acordei com muita saudade da vida que inauguro.
Abri todas as portas e janelas prá que ela possa entrar sem pedir licença, todos os dias e morar na felicidade que descobri em mim.
Tenho saudade de mim, em outro.
Tenho mais saudade do outro, em mim.
Hoje, acordei feliz de saudade!





domingo, 22 de abril de 2012

DO LADO DE FORA

Tenho pena de quem acha que sabe tudo.
Tenho compaixão por quem pretende ser o dono da verdade.
Pessoas que têm todas as respostas, ou acham que têm, se fecham para o outro, para o mundo, para a vida.
Se encapsulam no seu pretenso conhecimento para não admitirem que têm muito, ainda, o que aprender.
Fechar os olhos para o que acontece em volta não faz uma pessoa mais sábia ou feliz.
Ao contrário. Isola qualquer chance de aumentar seu mundo interior.
Conseguem se relacionar com pessoas estreitas, curtas, que acham que só existe a sua realidade, ignorando que a realidade é de cada um, soma de experiências distintas. Minha realidade é diferente da sua, que é diferente da do meu vizinho, que é diferente da de outra pessoa. Não é um valor absoluto, nem poderia ser.
Cada um comporta um mundo em si mesmo e é compartilhando e aceitando as diferenças que crescemos, expandimos nosso universo mental e emocional.
Não quero julgar quem fechou a cabeça para o novo, para o desconhecido.
Se é assim que consegue administrar sua solidão, mesmo que povoada, eu entendo.
Mas continuo achando uma pena, triste mesmo, rejeitar, por não entender ou aceitar, pessoas interessantes, inteligentes, amáveis, em seu convívio, por serem território desconhecido.
Há um medo implícito, um preconceito latente, um pavor de perder o discurso se aceitar o que o tiraria da zona de conforto.
O "eu sei" é arrogante, prepotente, o "eu não sei" é instigante, pulsante, ávido. Impulsiona, desafia.
Só quando a cortina final se fecha, determinando que o último ato acabou, é que termina a busca por conhecimento. Até lá, a vida se impõe e merece ser vivida, já que é de graça.
Pessoas limitadas afetiva, intelectual e psicologicamente, fechadas em um mundo acabado, formatado, restrito, bastam-se e não permitem a entrada do vento de mudança.
Suas vidas são trancadas a sete chaves, não renovam o ar. O mofo da estagnação cobre todos os espaços que poderiam ser cultivados se, por acaso, abrissem uma janela para permitir que uma réstia de sol começasse uma invasão de calor.
A arrogância do saber tudo e não precisar conhecer mais nada, não é nada mais do que medo de perder o chão.
Eles não sabem- porque acham que sabem tudo- que o chão em que pisam é árido, porque caminham sós, é seco, porque não há vida para irrigar, é duro, porque não aceitam que possa existir outro solo que não o deles.
Caminharão sòzinhos, com suas certezas, convicções e estreitezas para o único lugar possível de acolhimento: seus egos deformados pela falta de visão, por se imaginarem suficientes, por não entenderem que mundos diversos não precisam, necessariamente, se chocar. Podem ser complementares, harmoniosos. Mas é preciso ter coragem para derrubar a muralha e enxergar, nem que seja por uma pequena fresta, que há um mundo maior que o seu, do lado de fora.

sábado, 21 de abril de 2012

UM NOVO DIA

Um novo dia se apresenta.
Me convida a vivê-lo sem expectativas ou projeções.
Um dia inteiro de novas emoções não programadas.
A cada dia, um novinho se oferece, repleto de surpresas e espantos.
Não há o que temer, se todo dia ele me chama à vida.
Me tira prá dançar, amanhece minha noite, me pede disponibilidade prá, simplesmente, vivê-lo.
Ele me diz que não dói experimentar. E, mesmo que doa, existe a possibilidade de, no dia seguinte, mudar.
Diariamente, esse dia, novo dia, me acorda e me diz que há esperança nele.
Me lembra que segundos são preciosos, que deles se faz as horas que temos prá viver.
E que, como não voltam, não posso, nem devo, desperdiçá-los.
Um dia, novo em folha, aparece à cada dia. Me renasce, me renova.
Me incentiva a escrever novas histórias que serão ou não desenvolvidas em outros dias que virão.
É assim que construímos o caminho.
Selecionamos, à cada dia, o que vai ficar no passado que, um dia, foi presente.
Respirar um dia inteiro, observar cada minuto, sentir a graça de estar vivo, vivendo por mais um dia.
Esquecer que ele tem vinte e quatro horas e vivê-lo como se fosse o último, pois ele é!
Meu novíssimo último dia é muito importante, devo merecê-lo.
Prá isso, é necessário que eu me dedique a usufruí-lo com qualidade, com intensidade, com alegria.
Se a tristeza quiser embotá-lo, permito que se instale por alguns segundos, não mais que isso, pois o resto do dia não deve ser contaminado.
Todo santo dia é dia santo. Ajoelho-me e rezo, pedindo que ele conceda o milagre do amor.
Amar aos outros, amar a mim, ser amada.
Quando insone, prolongo o envelhecimento do dia anterior, passado, e faço com que se transforme em um mais longo, mais vivido, mais aproveitado.
Talvez, não devesse dormir mas, se não o fizer, como raiar um novo dia em mim?
Refugio-me no sono prá reforçar a esperança de um dia melhor.
Durmo prá me preparar para o dia seguinte.
Acordo prá abraçá-lo e me entregar à ele, como uma eterna amante.
Ele me desafiará, me testará, eu erguerei a cabeça e o enfrentarei.
Esse dia, novo dia, o último de cada dia, é o dia em que serei mais feliz.
Até o dia de amanhã, quando serei o passado de hoje.
Simples assim!